Quanto mais exigências, maior o tempo de espera para adotar

Brasil tem oito vezes mais pretendentes à adoção, do que crianças e adolescentes aptas a serem adotadas. Comarca de Três de Maio tem 27 casais habilitados, mas não há crianças e adolescentes aptos

Quanto mais exigências, maior o tempo de espera para adotar
“Para reduzir o tempo de espera, a orientação é que os adotantes sejam o menos restrito possível quanto à idade, sexo, condições de saúde, irmãos, etnia e origem da criança”, orienta a Juíza de Direito do Juizado da Infância e Juventude da Comarca de Três de Maio, Priscilla Danielle Varjão Cordeiro

A adoção é muito mais do que uma relação de afeto e solidariedade, é uma demonstração do amor incondicional de quem deseja se tornar pai ou mãe de uma criança ou adolescente, independentemente de sua origem.


De acordo com o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, no dia 7 de julho, quarta-feira, haviam 4.346  crianças e adolescentes disponíveis para adoção no país e 32.863 pessoas interessadas em adotar. Já no Rio Grande do Sul, na mesma data, eram 624 crianças e adolescentes aguardando adoção e 3.809 pretendentes. O Estado está em terceiro lugar no número de crianças e adolescentes na fila de adoção, atrás apenas de de São Paulo e Minas Gerais. 


Na Comarca de Três de Maio/RS, não há nenhuma criança apta para adoção no momento. A informação é da juíza de Direito do Juizado da Infância e Juventude, Priscilla Danielle Varjão Cordeiro. Além de Três de Maio, a Comarca atende os municípios de Alegria, Independência, São José do Inhacorá, Boa Vista do Buricá e Nova Candelária.
No entanto, 27 casais dos seis municípios estão habilitados perante o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, atualmente; excluídos aqueles que já estão em processo de habilitação para adoção.


Em 2019, nove crianças foram adotadas na Comara de Três de Maio. Já no ano passado não houve nenhuma adoção efetivada. “Não sabemos precisar o número de crianças aptas para adoção em 2019 e 2020, mas provavelmente se confunde com o número de adoção de cada ano”, explica a magistrada. O número de pessoas habilitadas nos dois anos anteriores também não é conhecido. “Dos casais habilitados na Comarca, dois adotaram entre 2019 e 2020”, explica Priscilla.

 

Maior entrave para adoção é a diferença entre perfil desejado e a criança ou adolescente disponível

 

Juíza de Direito do Juizado da Infância e Juventude da Comarca de Três de Maio, Priscilla Danielle Varjão Cordeiro

 

Observando os números uma informação fica evidente. Existe muito mais pessoas interessadas em adotar, do que crianças e adolescentes disponíveis. Então, porque há mais de quatro mil crianças e adolescentes que ainda não foram adotados? 


A resposta é a diferença entre o perfil desejado pelos adotantes e o perfil das crianças e adolescentes disponíveis para serem adotados. Segundo a especialista em Direito de Família, Anne Ramos, “o perfil desejado pelos adotantes é que os futuros filhos tenham até três anos de idade. Assim, quanto mais avançada a idade da criança, menos chances ela tem de ser adotada. Além disso, a maioria dos adotantes não aceita adotar irmãos”, revela. 


Para mudar essa realidade é preciso que haja uma conscientização pela mudança desse perfil. “A vontade dos adotantes deve ser sempre respeitada, mas temos que enfatizar sempre que o amor deve estar acima de balizas etárias ou de número de irmãos, pois essas preferências têm feito com que muitas vidas permaneçam em instituições”, afirma Anne. 
Para a juiza Priscilla Danielle Varjão Cordeiro, na Comarca, o perfil procurado pelos adotantes também existe. “Os casais normalmente preferem crianças de tenra idade, abaixo dos quatro anos, de cor branca e do sexo feminino, elevando o tempo de espera”, explica, afirmando que esses requisitos aumentam ainda mais o período de espera dos adotantes.


Para reduzir a espera, a orientação da magistrada aos adotantes é que sejam o menos restritos possível quanto à idade, sexo, condições de saúde, irmãos, etnia e origem da criança.


No entanto, ela também aconselha que, ao optar pela adoção, as famílias devem “discutir bastante sobre as características de idade, sexo, questões de saúde, irmãos, etnia e origem da criança, a fim de evitar a frustração do processo de adoção”.


Completou maioridade sem ser adotado
Os adolescentes que estão acolhidos e não conseguem ser adotados, ao atingirem a maioridade haverá o desacolhimento. Nesse caso, são desenvolvidas pelas casas de acolhimento maneiras de inseri-los no mercado de trabalho ainda antes do desacolhimento, como estágios e cursos profissionalizantes.

 

Como tirar dúvidas
Eventuais dúvidas sobre adoção poderão ser esclarecidas presencialmente ou mediante ligação para o Fórum, no telefone (55) 3535-1735, solicitando o gabinete do Juizado da Infância e Juventude (2ª Vara Judicial).

 

 

Filho gerado no coração

 

Maria Izabel Miranda Loro e Luis Carlos Loro contam a maravilhosa experiência com a adoção de Luis Francisco Miranda Loro

 

2 anos de Luis Francisco, o primeiro aniversário comemorado com os pais, em 28 de junho de 2002

 

O ano de 2001 foi especial e inesquecível para o casal Maria Izabel Miranda Loro e Luis Carlos Loro, de Três de Maio. Foi naquele ano, mais especificamente no mês de julho, que nasceu o filho gerado em seus corações, Luis Francisco Miranda Loro. Hoje, 20 anos depois, a família conta sua bela história com muita alegria e gratidão, com o objetivo de inspirar outras famílias a optarem pela adoção.


Quando Maria Izabel e Luis Carlos decidiram aumentar a família, descobriram um problema de saúde que impossibilitava uma gravidez de forma natural. Depois de uma tentativa de fertilização in vitro, que não deu certo, o casal partiu para a adoção, que era uma ideia que já estava nos planos. 


“Procuramos Comarcas de Justiça de diversas cidades e até de Santa Catarina. Na época era com questionários, nós preenchemos e mandamos para todos onde havia Vara da Infância e Juventude”, conta Maria Izabel. 


A partir do momento em que o casal deu início na documentação para adotar uma criança, em março de 2001, foram quatro meses até a chegada de Luis Francisco, em julho do mesmo ano.


“Não tínhamos um perfil preferido. O único pedido que fizemos, é que fosse um menino. Não importava cor, idade, nada mais. Até porque se ele tivesse sido gerado dentro da minha barriga, eu não saberia como ele seria, se seria parecido com o pai, com a mãe, com o bisavô, não saberia a cor da sua pele. Então, isso não teve nenhuma importância para nós”. 


Maria Izabel acredita que a exigência de um perfil específico, muitas vezes dificulta a adoção das crianças. “Às vezes, vemos casais que estão há cinco anos na fila de adoção, mas eles fazem pedidos absurdos como “eu quero uma criança loira, de olhos azuis”. Quem disse que se você realmente gerasse essa criança na barriga, ela seria assim?”, questiona.

 

A chegada de Luis Francisco na família
 

Maria Izabel conta que quando Luis Francisco chegou para completar a família, ele tinha 1 ano e 12 dias. “Nos ligaram numa segunda-feira do mês de julho de 2001, e nós tínhamos que estar em Passo Fundo na quarta-feira pela manhã para buscá-lo. Antes disso, estávamos conversando com o pessoal do fórum, assistente social, psicóloga até esse período, para ver se nós iríamos buscá-lo ou não”, conta. 


Após a ligação, o casal conversou e decidiu ir até Passo Fundo buscar a criança. “Na quarta-feira saímos cedo de Três de Maio e quando chegamos no fórum tinha todo um aparato para nos receber. Era psicóloga, assistente social, além de uma pessoa responsável pelo fórum. A recepção foi fantástica, maravilhosa. Eu jamais imaginei que seria assim”, revela.


Maria Izabel e Luis Carlos conheceram Francisco na sala da assistente social, acompanhados da equipe e das pessoas que eram responsáveis por ele. “No primeiro momento ele não quis vir conosco, mas depois ele veio e dormiu com a cabecinha no meu colo e o corpo no colo do Luis Carlos. Ali, ele se aconchegou, e nós também. É algo difícil de descrever. Porque é um momento ímpar, de muito carinho, afeto, momento único”, relembra a mãe emocionada.


Depois disso o casal ficou sozinho com Francisco em uma sala. Era o momento para decidir se ficariam ou não com o menino. “Nós já havíamos decidido que sim, que traríamos ele para nossa casa, para nossa vida. Depois de um tempo, a equipe retornou à sala e nós dissemos que sim. Foi uma alegria imensa para todos!” 


Depois de assinar alguns papéis, o casal foi almoçar com Francisco. “Ficamos emocionados. Nós não tínhamos nenhuma atitude. Não conseguíamos chorar, não conseguíamos rir, enfim, foi um momento surpreendente, um momento que não há palavras para descrever”, recorda. O casal retornou para Três de Maio no fim daquele dia, já com Francisco nos braços. “A partir de então, a nossa vida mudou muito, e para melhor”. 


Hoje, Luis Francisco tem 21 anos, faz faculdade de Direito e trabalha na imobiliária com os pais. “Ele é motivo de muito orgulho para nós”, revelam. 
A mãe reelembra os tempos de escola do filho, quando a casa estava sempre cheia de colegas de aula. “Para nós isso era muito gratificante. Era uma forma dele se sentir acolhido na comunidade, se sentir amado”, considera. “Acredito que nada é por acaso. Como espírita, eu digo que esse encontro, com certeza, já estava escrito nas estrelas, foi e está sendo maravilhoso”, diz Maria Izabel.

 

O significado de adotar um filho


“Eu acredito que a adoção é algo fantástico porque quando o casal gera uma criança, ele pode não estar preparado naquele momento, pode ter vindo por acaso. Mas na adoção não, na adoção você realmente se doa, vai em busca deste ser para te completar. Na adoção você não gera alguém, você vai em busca de alguém gerado por outra pessoa para você cuidar. Eu acredito que isso realmente é amor. Você cuidar do teu próximo”, considera Maria Izabel.
Para ela, a adoção é algo gratificante. “Eu sempre digo para as pessoas: não tenham medo, não tenham receio, o importante é você falar (sobre a adoção) desde o início. Com o Francisco, nós tínhamos livros infantis e desde pequeninho ele sabia que ele era um bebê do coração”, relata. 


Ela acredita que nada deve ser escondido da criança. “É importante a criança saber de onde ela veio, onde ela estava. Não há receios de que alguém vá contar. Você mesmo conta”, argumenta.

 

Os pais Luis Carlos Loro e Maria Izabel Miranda Loro, com o filho Luis Francisco, na formatura do Ensino Médio, em dezembro de 2017

 

Para o filho, adoção é motivo de gratidão
Para Luis Francisco, o incentivo à adoção é muito importante e sua experiência de vida é motivo de muita gratidão. “Eu agradeço muito por existir o processo de adoção, que ajuda pessoas como eu a encontrar uma família. A adoção foi um grande acontecimento na minha vida. Ter sido escolhido por pais maravilhosos, como os meus, é fantástico. Eles nunca deixaram faltar nada e me ensinaram a ser uma pessoa correta e do bem”, revela.
 

 

Família sugere a criação de um grupo para 
falar sobre adoção

Felizes com a experiência da adoção, Maria Izabel e Luis Carlos Loro consideram importante a organização de um grupo em Três de Maio, para trocar ideias sobre o tema. “Podíamos divulgar através do Jornal Semanal, redes sociais, convidando pessoas que tenham interesse em adotar para conversar, trocar experiências e tirar dúvidas com casais que já adotaram”, explicam. A ideia central é dar testemunho, incentivar e motivar para a adoção.


A ideia inclui ainda a presença de profissionais multidisciplinares como pediatra, psicólogo, advogado, assistente social. “Convidar para alguns encontros juizes, promotores, enfim pessoas e profissionais que estejam abertos a auxiliar”, consideram. A família acredita que os meios de comunicação e as redes sociais trazem informações importantes sobre o assunto, mas não causam o mesmo impacto que uma conversa pessoalmente para trocar experiências e sanar dúvidas como um grupo que se encontre periodicamente. “Fica o convite aberto a todos os profissionais para que esse grupo possa ser formado, pois existem muitas crianças à espera de seus verdadeiros pais, aguardando o carinho, o abraço apertado, a cantiga de ninar, a mão amiga para conduzi-los até a escola, o abraço apertado no dia do aniversário, esperando um EU TE AMO, VOCÊ É MUITO IMPORTANTE PARA MIM, ENFIM VOCÊ CHEGOU”, finaliza a família.