Nunca é tarde para a realização de um sonho

O agricultor Bronildo José Wenzel, 73 anos, morador de Cerro Largo, conquistou o diploma em Agronomia em maio deste ano pela UFFS. Depois de 50 anos, o agricultor transformou o sonho em realidade e agora quer alçar voos mais altos em sua trajetória acadêmica. O próximo passo é conseguir uma vaga no mestrado

Nunca é tarde para a realização de um sonho
Aos 73 anos, agricultor de Cerro Largo conquista diploma em Agronomia

Quanto tempo um sonho leva para ser realizado? Tudo depende da determinação e da dedicação da pessoa ao ir atrás do que mais quer na vida. Para o agricultor Bronildo José Wenzel, 73 anos, esse sonho foi alimentado por mais de 50 anos.

Seus pais, os agricultores Edmundo e Amanda Kliemann Wenzel – respectivamente, filho e neta de imigrantes austríacos e alemães –, tiveram 11 filhos, com uma diferença de idade entre eles de dois anos em média. A família se instalou na antiga Colônia Serro Azul, em uma área de duas colônias (50 hectares), atualmente o município de Cerro Largo.

No início, a família Kliemann Wenzel se dedicava principalmente à criação de suínos, tratados basicamente com mandioca e milho. Com a mecanização, puderam seguir no plantio de trigo, milho e soja – as principais culturas trabalhadas na época. Com o sistema de plantio direto, as culturas eram rotacionadas com o incremento das plantas de cobertura.

Em 1972, Bronildo se formou no Ensino Médio e continuou a trabalhar na agricultura. Em 1974, casou com Margarida Maria Wenzel, filha de comerciantes. Na época, ela era professora de Ensino Fundamental (antigo primeiro grau) no interior do município de Cerro Largo. O casal teve dois filhos: Guilherme, hoje com 42 anos, e Bruno, 40 anos.

Cursar Agronomia era algo que  acompanhava Bronildo desde a juventude, mas que não pôde realizar na época por falta de recursos financeiros. Porém, o sonho se manteve vivo para o agricultor, até que em 2017, começou a se concretizar.

 

Bronildo realizou o estágio na Embrapa Trigo, em Passo Fundo, outro sonho alcançado pelo agricultor

 

Clube Amigos da Terra contribuiu para melhorar a agricultura na região

Bronildo conta que em 1977, agricultores gaúchos começaram uma mobilização visando trabalhar e propagar uma forma de conversão do solo, adotando o plantio direto. 

“Mas foi na década de 80 que resolveram criar a entidade Clube Amigos da Terra, que se multiplicava com a finalidade de agregar conhecimento para o manejo das ervas daninhas e, principalmente, na adaptação de semeadoras convencionais existentes nas propriedades, para o plantio direto”, explica.

Dentro deste Clube, havia encontros em que eram testadas diversas adaptações, que consistiam basicamente em disco de corte, sulcador e tapador. O agricultor participava do Clube Amigos da Terra de Giruá. 

O trabalho realizado na agricultura daquela época era algo que preocupava Bronildo. Inicialmente, o grupo era o único caminho para melhorar o trabalho no campo. “As informações eram escassas. A assistência oficial, em sua grande maioria, era descrente quanto ao futuro do sistema. Na verdade, este sistema surgiu da inconformidade do produtor pela agricultura praticada nos anos 70, com o solo revirado com arado de disco, seguido de gradagem com enorme consumo de combustível, para depois plantar as sementes, que muitas vezes, por conta de uma chuva pesada, fechava os sulcos, dificultando a germinação”, avalia.

Atualmente, Bronildo percebe que a agricultura precisa repensar alguns manejos que foram esquecidos ao longo do tempo. 

“A cobertura permanente do solo, a partir da adoção do sistema plantio direto, tem sido insuficiente para disciplinar os fluxos hidrológicos em escala de lavoura. Precisamos implementar novamente estruturas hidráulicas conservacionistas, disciplinando o fluxo da enxurrada, mediante a infiltração no canal do terraço. O objetivo fundamental do terraceamento é reduzir os riscos de erosão e proteger os mananciais hídricos dos contaminantes que, sabe-se hoje, são degradados pela biota (conjunto de seres vivos – macro e micro-organismos) do solo”, reforça.

 

Chegada à universidade

Como o sonho de cursar Agronomia persistia, Bronildo passou a estudar para o Enem, visando o ingresso na faculdade. Não conseguiu passar na primeira tentativa, mas, no segundo ano, conseguiu uma vaga na Universidade Federal Fronteira Sul, no Campus Cerro Largo.

Em 2017 o sonho começou a se tornar realidade. O agricultor confessa que teve algumas dificuldades no começo do curso. “Os meus colegas, em geral, vinham do Ensino Médio, com o domínio das matérias básicas. Porém, não foi assim que aconteceu comigo. Com mais de 40 anos fora da escola e com a evolução natural do conteúdo, me resultou repetir algumas matérias no início do curso”.

Mesmo assim, Bronildo não desistiu e procurava por respostas, mesmo que elas viessem em conta-gotas. “Era necessário primeiro colocar os pilares para que as respostas fossem construídas. Para isto, precisava um pouco de paciência e muito estudo”, ressalta.

O agricultor conta que no primeiro dia de aula, o professor, para conhecer os alunos, perguntou o nome, a idade e porquê o Curso de Agronomia. “Os três colegas que me antecederam tinham 18 anos. Falei que para a minha idade precisaria acrescentar mais 50 anos. Apesar da diferença numericamente gritante, tive uma ótima integração com os colegas, e quanto aos professores, uma relação igualitária em suas exigências e demandas”, comenta.

O agricultor não teve, em nenhum momento, qualquer restrição por conta da diferença de idade, nem na Universidade e nem na Embrapa Trigo, onde fez o estágio.

O estágio foi outra conquista ao longo da formação acadêmica do aposentado. Realizado na Embrapa Trigo, em Passo Fundo, desenvolveu atividades de pesquisa em solos em áreas de ensaios de longa duração, que incluíram avaliações de atributos físicos e químicos, aclimatação em trigo, avaliações de dados em estação climatológica do INMET, visitas técnicas e palestras.

 

Bronildo com a esposa Margarida Maria Wenzel, professora aposentada, e os filhos Bruno, 40 anos, mestre e doutor em Engenharia Química, e Guilherme, 42 anos, mestre em Engenharia Mecânica. O agricultor recebeu o diploma das mãos de seu filho Bruno, atual diretor do Campus Cerro Largo da UFFS

 

Formatura foi um momento mágico

Chegar à conclusão do tão sonhado curso de Agronomia foi um momento mágico. “Foi a coroação do sonho que me acompanhou por mais de 50 anos”, conta. A formatura ocorreu em maio, quando Bronildo recebeu o diploma das mãos de seu filho, Bruno München Wensel, atual diretor do Campus Cerro Largo da UFFS. “Foi um dos momentos mais marcantes na história da nossa família”, revela.

Os filhos Bruno e Guilherme e a esposa Margarida foram os alicerces que deram suporte na trajetória acadêmica de Bronildo. “Minha família sempre me incentivou e me apoiou para a realização deste grande sonho”.

Bronildo diz que o casal sempre acreditou que os estudos são fundamentais para a vida de qualquer pessoa. Com esse pensamento, os filhos sempre foram incentivados para uma seguir trajetória acadêmica e profissional. “A prioridade número um era manter os filhos nos estudos, e agora chegou a minha vez para realizar meu sonho”, relata.

Para Bronildo os pais têm um papel muito importante para que os filhos sigam a formação profissional. “A educação, além do aspecto técnico-profissional, envolve também outras dimensões do ser humano, que é voltada para a vida e para a cidadania. Sempre imaginei: se puder servir de exemplo para uma pessoa, tudo teria valido a pena. No entanto, tenho depoimentos de vários colegas que dividiram as salas de aula, se debruçaram sobre os livros e lograram êxito nos seus estudos. Me emociono em poder influir e passar esta mensagem para muito mais pessoas”, conclui.

 

Dedicação contagiou colegas de faculdade

O professor orientador, Douglas Rodrigo Kaiser, mestre e doutor em Ciência do Solo pela UFSM, relatou que a dedicação de Bronildo foi algo que contagiou toda a turma. “Ele teve um destaque entre os demais estudantes, principalmente pela dedicação desde o início do curso. Sempre levou tudo muito a sério. Muito dedicado e isso contagiou os demais colegas”, conta.

Bronildo também contribuiu bastante para a turma com sua experiência, como ressalta Kaiser. “Eu trabalho a parte de solo, e quando falávamos do histórico, por exemplo, do sistema de plantio direto na região, matéria que eu soube pelos meus professores, ele podia contar a toda a história para nós, e isso também auxiliava nas aulas, relatando as práticas de manejo de antigamente, sendo ele pioneiro do sistema na região”.

O doutor também frisa que Bronildo disponibilizou suas lavouras para produção de trabalhos para os colegas. Já o trabalho de conclusão de curso, voltado às plantas de cobertura para melhorar o sistema de plantio direto na região, foi bem desenvolvido. “Ele conduziu muito bem o experimento, seguindo toda a metodologia, com bastante cuidado, e produziu um trabalho excelente”, diz Kaiser.

Sobre o trabalho de conclusão, Bronildo explica que “é um período longo em que o solo permanece descoberto, ficando exposto e em degradação mediante às intempéries do tempo”, avalia. Ele também destacou a importância de seu professor orientador ao longo do curso. “Não mediu esforços nas orientações do TCC e do estágio”.

 

Orientado pelo professor três-maiense Douglas Kaiser, Bronildo participou de diversas viagens de estudos para estudar os perfis dos solos

 

Atividade em pesquisa continua

Agora graduado, Bronildo mantém contato com a universidade, através de grupos de pesquisa. “Participo de um experimento de longo prazo em área própria, com alunos da Agronomia, que já tem três anos. Esse experimento rendeu uma publicação com a orientação do professor Douglas Kaiser. Um novo experimento está em estudos, que poderá abrir as portas para um possível mestrado um pouco mais adiante”, revela.

 

História concorre a prêmio nacional

A história do agricultor foi registrada em um vídeo, produzido por Tadeu Salgado, produtor cultural da Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS). O vídeo está na final do concurso “Melhor História de um Agricultor”, promovido pelo site Notícias Agrícolas. A votação vai até o dia 29 de julho, e a premiação ocorre em Campinas-SP. Para votar, basta acessar o link Melhor História de um Agricultor.