De São José do Inhacorá para os Estados Unidos

Em fevereiro de 1999, Simone Haupenthal partiu para os Estados Unidos com o propósito de trabalhar e estudar. Iniciou a vida no país como babá e hoje, chega ao título de pós-doutorado, mas segue estudando, agora, fazendo mais um curso superior que deve concluir ainda em 2022. Com doutorado em Psicologia e pós-doutorado em Neuropsicologia, ela atende adultos e crianças de todas as idades em sua clínica, no condado de Monterrey na Califórnia, além de prestar serviço através de contrato para o Governo

De São José do Inhacorá para os Estados Unidos
Com 24 anos, Simone Haupenthal chegou aos Estados Unidos e hoje, aos 47 anos, vive no Condado de Monterrey, Califórnia. Na foto, Simone em passeio ao Cabo San Lucas, no México

Aos 24 anos, Simone Haupenthal, de São José do Inhacorá, decidiu ir para os Estados Unidos da América. Filha de Beno Haupenthal e Edite Haupenthal, Simone chegou em Nova York, onde tirou o visto/contrato de AuPair (babá) por um ano. Hospedou-se em um hotel, para participar de um treinamento do AuPair por cinco dias. Depois, ela foi realocada para o estado da Califórina, onde vive até hoje.

Antes de embarcar para o país norte-americano, ela fez um curso intensivo de inglês no Brasil, o que fez com que ela entendesse praticamente tudo do idioma, mas ainda com um receio em não falar e pronunciá-lo corretamente.
Simone trabalhou cuidando de dois meninos, um de dois anos e meio e outro de sete. “O meu primeiro contrato foi de morar e trabalhar para uma família americana por um ano, na cidade de Menlo Park”, conta.

Depois de alguns meses, ela mudou o visto de trabalho para um visto de estudante e começou a fazer faculdade. “Eu sempre quis muito fazer faculdade e não tive a oportunidade no Brasil. Então, nos Estados Unidos, mais especificamente no estado da Califórnia, comecei a estudar”, explica.

 

Adaptação ao novo país

Os primeiros três meses foram difíceis para a inhacorense. Não conhecia ninguém e teve momentos em que pensou em voltar ao Brasil. Mas a família americana para quem trabalhava convenceu a jovem para ficar. "Com o tempo, fui conhecendo mais pessoas que me ajudaram no meu processo de adaptação”.

A saudade da família, parentes e amigos é grande, além do impacto da cultura americana em relação a brasileira ser enorme.

Simone revela que uma das maiores dificuldades foi com a alimentação. “Inicialmente perdi muito peso, mas aos poucos fui me acostumando e mudando também os meus hábitos alimentares, aprendendo novas receitas e degustando a culinária de outros países, pois há muita diversidade e muitas opções por aqui”.

 

Carreira nos estudos

Depois de anos de estudos, Simone se formou na Universidade de San José, no Vale do Silício, em Psicologia.

No início do curso, ela teve que recorrer a um tutor, pois a área de estudos tinha bastante escrita. “A facilidade de estudar aqui é muito grande, com muitas opções e oportunidades para quem realmente se interessa”, revela.

No começo dos estudos, ela teve várias experiências em cursos. Inicialmente, fez Administração de Negócios, por um ano e meio, mas percebeu que não gostaria de trabalhar com isso. Então, aproveitou alguns créditos das matérias do curso e começou Ciência da Computação. “No primeiro semestre vi que aquilo realmente não era para mim. Decidi mudar novamente para outro curso. Desta vez, fui fazer Nutrição, mas vendo que não me encaixava tão bem, por um acaso, passando pela frente de uma sala na qual era dada uma aula de Psicologia, resolvi entrar e acabei me apaixonando pela matéria”, explica.

O curso superior de Simone durou mais que o esperado, por conta dessas mudanças. “A maioria das minhas aulas era à noite e, por ter que trabalhar de dia, as tarefas, projetos, pesquisas e estudos eu fazia nos finais de semana”, diz a jovem, revelando que para ir para à aula, dirigia uma hora todas as noites.

“Na verdade, hoje não entendo como consegui fazer tudo num dia que só tem 24 horas (faculdade, trabalho, horas clínicas, academia, etc.). A faculdade ficava a mais de uma hora de casa; o hospital onde fazia minhas horas clínicas também estava a uma hora de casa, e meu trabalho estava a 40 minutos de casa. Todos em direções completamente opostas”, explica Simone.

 

Pós-doutorado e  mais uma graduação

Após o diploma em Psicologia, Simone seguiu seus estudos. Em 2015, concluiu o curso de doutorado em Psicologia, na John F. Kennedy University. O pós-doutorado veio logo, formando-se em 2017, em Neuropsicologia, especialização em pediatria, pelo HighLand Hospital.

Em 2020, a neuropsicóloga conta que começou sua segunda graduação, no curso de Psicofarmacologia Clínica, a qual deve concluir em maio desse ano. “Para mim, é muito importante continuar estudando e me desenvolvendo profissionalmente, no fundo, no fundo, acredito que quando se começa a estudar os estudos nunca terminam”, diz.

 

Trabalho como neuropsicóloga

Simone abriu um consultório em 2019, onde trabalha como neuropsicóloga, atendendo crianças, jovens e adultos. Ela também trabalha para o governo do estado da Califórnia. Ela conta que atende pacientes em três idiomas, inglês, espanhol e português. “Eu adoro meu trabalho e faria tudo de novo para chegar até onde cheguei”, salienta.

 

Rotina de trabalho 

Simone inicia o dia fazendo análises e avaliações neuropsicológicas, em que desenvolve relatórios de avaliações extensos e que são utilizados nas escolas, empresas, tribunais, clínicas e hospitais. "Trabalho uma média de 10 horas por dia, de cinco a seis dias por semana. Nos finais de semana, faço faculdade", revela.

Já em seu consultório, Simone atende crianças e adultos de todas as idades em modo presencial. Ela também atende home office, trabalhando com crianças acima de dez anos de idade, em sessões por vídeo de casa. 

Simone chegou aos Estados Unidos sozinha, e dois anos depois casou. Após anos de relacionamento, o casal se separou. Hoje ela tem um novo relacionamento, em que é muito feliz. "Meu companheiro é brasileiro, gostamos de viajar, ir a shows, concertos, dançar, ir ao cinema e comer fora... Mas, após a pandemia, passamos mais tempo em casa, pois as coisas mudaram muito por aqui".

 

Clima na Califórnia

O clima no estado norte-americano é parecido com o gaúcho, exceto pelo verão, que faz menos calor. “As estações são ao contrário; quando faz calor no Sul, faz frio aqui na Califórnia”, diz Simone.

Simone com o companheiro Carlos Álamo Da Silva, brasileiro de Salvador, Bahia

 

Desafio nos EUA

Simone conta que um dos maiores desafios,  foi a discriminação por ser estrangeira. “Por ter um sotaque forte, até me falaram que eu deveria voltar para o meu país”, relata.

Outra dificuldade foi no começo da faculdade com a escrita do inglês, além da discriminação no trabalho.

O falecimento repentino de seu pai também foi um momento muito difícil. “Em 2018, meu pai faleceu em um acidente e não tive a oportunidade de me despedir dele por causa da distância”, recorda.

Outro momento foi em 2019, quando ela foi diagnosticada com câncer de mama. Ela precisou fazer diversas cirurgias. "Minha mãe ficou um mês comigo para me ajudar e apoiar. O tratamento segue ainda por três anos", revela

 

Viagens ao Brasil

Antes da pandemia da Covid-19, Simone viajava ao Brasil todos os anos para passar o final de ano com sua família e amigos. Seus planos para a vida são de permanecer nos Estados Unidos e viver lá. “Seria difícil voltar ao Brasil depois de tanto tempo fora, mas quem sabe”, avalia.

 

Relações de trabalho

Há um salário mínimo nos Estados Unidos, porém, ele varia de estado para estado. A mesma coisa acontece com leis trabalhistas, que são estaduais, que estabelecem os direitos e deveres dos trabalhadores. Simone conta que não existe décimo terceiro salário, e que a pessoa ganha apenas pelas horas trabalhadas. Quanto às férias, elas são pagas proporcionalmente as horas trabalhadas.

 

Recado para quem pretende viver no exterior

“A primeira coisa que eu diria é que a saudade de casa vai bater forte depois de alguns dias, vai doer muito por uns meses e vai perdurar pelo resto da vida. A vida aqui não é nada fácil, e eu não conheço ninguém que não tenha sofrido por estar longe da família, da pátria e das suas raízes, ou que não tenha tido dificuldade financeira, dificuldades de repatriação e ajustes a um país completamente diferente do qual você nasceu”, considera Simone.

Ela também fala que o brasileiro que pretende viver nos Estados Unidos ou em outro país deve estudar a língua do país. “Morar com americanos, ir para uma escola ou faculdade para tornar melhor e mais fácil a adaptação. Não importa a idade pois há muitas oportunidades aqui para pessoas de todas as idades que se formam e que querem realmente trabalhar e levar uma vida séria”, destaca.

A inhacorense ainda considera que é preciso arregaçar as mangas, trabalhar e estudar muito. “Tudo é muito caro aqui e o custo de vida está ficando cada vez mais caro (especialmente agora depois da pandemia). Tem muitos brasileiros aqui que só pensam em farras e festas, só vivem o presente, e não se preocupam com o futuro”, explica.

 

Conquista do sonho americano

Para ela, a atitude positiva é o que a fez chegar até onde chegou. “Tenho muito orgulho de mim mesma por ser uma vencedora. A minha maior conquista é a minha perseverança, força de vontade, de querer vencer pessoalmente e profissionalmente. 

Se você se empenha, você pode alcançar o sucesso; eu sou o exemplo de alguém que venceu. Posso dizer que conquistei o sonho americano e sou muito feliz aqui. Sou realizada profissionalmente e em minha vida pessoal. Sinto falta de estar perto de minha mãe, irmãos, parentes e amigos, mas está valendo a pena o sacrifício", finaliza Simone.

Um belo registro na Ponte Golden Gate, cartão postal de San Francisco, Califórnia