Área de trigo deve crescer cerca de 15% em Três de Maio

Com preço aquecido e perspectivas de exportação ampliadas, produtores rurais de Três de Maio devem investir mais no cultivo do trigo na safra de 2022. Apesar dos altos custos com os insumos, a área deve chegar a 12 mil hectares, 1.800 a mais que na safra passada

Área de trigo deve crescer cerca de 15% em Três de Maio
Safra de inverno do trigo, mantendo as condições climáticas favoráveis, pode chegar a 3.200 kg/hectares

A área plantada com trigo em Três de Maio deve crescer 1.740 hectares para a safra de 2022. Essa é uma estimativa do escritório da Emater/Ascar-RS local, que estima uma área de 12 mil hectares no município. Em 2021, foram 10.260 hectares.

O chefe do escritório de Três de Maio, Leonardo Rustick, considera que a cultura de trigo para a safra atual é de incertezas. “O custo de produção aumentou. Alguns produtores tiveram dificuldades em adquirir alguns insumos, outros conseguiram com um preço mais alto”, explica.

 

Projeção é de 53 sacas/hectare em média

A safra de inverno do trigo, mantendo as condições climáticas favoráveis, pode chegar a 3.200 kg/hectares, é a estimativa da Emater local. Esse número representa uma média de 53,33 sacas de trigo por hectare.

Segundo Leonardo, até o momento, cerca de 20% da área do trigo já foi semeada em Três de Maio. O período de planta da cultura deve ir até o dia 10 de junho. “Estamos no período ideal para a semeadura. Assim que houver condições climáticas ideais, ele vai fazer a semeadura”, conclui.

 

Área deve chegar a 1,4 milhão de hectares no Estado

O trigo representa a principal cultura de inverno do Rio Grande do Sul. Em 2021, segundo dados da Emater-RS/Ascar, o trigo teve 77,2% da produção de toda a safra de inverno (sendo 3,4 milhões de toneladas).

Em entrevista com o gerente comercial de grãos da Tarumã, Mauro Makoski do Rosário destaca que o plantio de trigo em Três de Maio e no Estado deve aumentar pelo terceiro ano consecutivo. “Se especula uma área no Estado por volta de 1,4 milhão de hectares. Ano passado foi de 1,16 milhão, aumento de aproximadamente 20%”, diz o gerente, que estima que o município tenha o aumento entre 10 e 15%, “até porque nossa região já se planta bastante trigo”.

 

Exportação oferece maior liquidez ao produtor

A exportação do trigo proporciona maior liquidez, o produtor colhe, vende e recebe”, acrescenta. Apesar do país ser deficitário na produção, Mauro considera que seja necessário exportar a commodity. “A demanda nacional é lenta e temos um alto custo de frete mais impostos para mandar o trigo para outras regiões consumidoras do país, principalmente Sudeste”, conclui.

 

Valorização do trigo

O cereal está em alta em 2022. A saca de 60 kg está cotada em R$ 110,00, preço do dia 2 de junho. O valor registrado significa 44% de alta da saca de trigo. Mauro justifica essa valorização por conta do conflito no leste europeu entre Rússia e Ucrânia, o que causa a falta do produto no mercado internacional. “Tratam-se de dois países que são grandes produtores e exportadores de trigo. Os dois países detêm 15% da produção mundial”, explica.

Apesar da alta no valor do trigo, o produtor deve desembolsar mais na produção da safra atual, principalmente pelo aumento nos adubos e herbicidas. Conforme o gerente da Tarumã, entre os fatores que elevam o custo da lavoura estão o aumento do frete marítimo para a exportação, restrições de oferta ocasionadas pela pandemia e o conflito entre os países da Europa.

Dessa forma, “a sugestão é contratar o Proagro que está vinculado ao custeio ou seguro particular”, aconselha Mauro.

 

Conflito na Europa é um dos principais fatores do aumento no preço de fertilizantes no mercado internacional, avalia Doutor em Economia Internacional Argemiro Luís Brum

Os preços de insumos agrícolas estão elevando o custo da lavoura. Conforme levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), o fertilizante cloreto de potássio foi negociado no Brasil à média de R$ 6.171,50/tonelada em março, registrando  alta de 24,9%, em relação à de fevereiro, e 153,6% acima de março de 2021.

Já a cotação média do MAP (fosfato monoamônico) foi de R$ 7.032,10/t em março, um aumento de 40,6% em relação ao mês anterior. Já a ureia registrou 97,3% de valorização no mês de março comparado ao mesmo mês de 2021, sendo comercializada, em média, a R$ 5.844,70/t.

Com esse cenário econômico, o professor titular do PPGDR-Mestrado e Doutorado - da UNIJUI, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris-França, Argemiro Luís Brum, considera três fatores que levam a esse fenômeno. A desvalorização do real no final do ano de 2021, tornando importações mais caras; os efeitos da pandemia da Covid-19, que desestruturou a cadeia de suprimentos e de produção no mundo; e a guerra entre Rússia e Ucrânia. “O conflito comprometeu a produção da matéria-prima destes insumos, além de tornar muito mais cara a logística de transporte internacional, a partir da disparada dos preços do petróleo”, avalia.

Segundo o economista, com a elevação do custo da produção agropecuária nacional, a rentabilidade final dos produtores rurais caiu em 2021 e 2022, visto que as commodities não acompanharam a alta da mesma forma. “Isso gera empobrecimento da nação, pois altas deste tipo corroem o poder de compra dos empreendedores e da população em geral”, observa.

‘Três fatores que levaram o aumento dos insumos agrículas: a desvalorização do real no final do ano de 2021, tornando importações mais caras; os efeitos da pandemia da Covid-19, que desestruturou a cadeia de suprimentos e de produção no mundo e a guerra entre Rússia e Ucrânia, que comprometeu a produção da matéria-prima destes insumos’, diz Argemiro

 

Valorização do real pode amenizar preços de importações

Para a solução dos preços elevados, o professor explica que a moeda brasileira precisa ser valorizada para haver paridade de poder de compra internacional. “Tal fenômeno ocorreu no começo de 2022, porém, foi alcançada não pela melhoria dos fundamentos de nossa economia, e sim pela entrada de dólares especulativos a partir da forte alta de nosso juro básico (Selic), para se tentar controlar a inflação que dispara no país. Isso não garante durabilidade no processo, especialmente em ano eleitoral como o atual”, avalia.

Outra possibilidade elencada por Brum é a procura de fornecedores mais baratos no mercado externo e gerar mais produção interna. “O governo acordou tarde para o problema, mas acabou lançando o Programa Nacional de Fertilizantes. A questão é que ele trará resultados, se trouxer, no longo prazo, e não resolve os problemas e demandas atuais”, comenta.

O governo também procurou no mercado canadense oferta de fertilizantes. Esse movimento, segundo o professor, não deve reduzir muito os preços pois a crise gerada pela guerra é mundial. O que está nos aliviando um pouco é o câmbio mais interessante para as importações.

 

Indústria nacional depende de ações públicas

A indústria brasileira, conforme relata Brum, necessita de reformas estruturantes, e a indústria dos fertilizantes também se enquadra nesse contexto. A competitividade acaba dependendo de ações públicas, entre elas, burocracia, logística defeituosa, incompetências públicas e carga tributária elevadíssima. “O problema é que nossos governos federais, têm sido muito fracos neste sentido nas últimas décadas. Além disso, é necessário investir mais em tecnologia extrativa e de transformação das matérias-primas em produtos adequados às necessidades dos produtores”.

 

Solução pode vir da mineração nacional

A respeito do projeto de lei que está em tramitação no Congresso Nacional no 191/2020, que regulamenta a mineração em terras indígenas e, como o governo defende, ampliar a matéria prima como fósforo e potássio, o economista acredita que a temática precisa ser mais discutida e que passa por questões sociais e ambientais. “Mais de 90% de nossos minérios ligados aos fertilizantes estão em terras que não são indígenas e sim estão em terras de grandes empresas e/ou de pecuaristas e produtores no país, particularmente na região Norte, onde o debate ambiental é profundo e requer muito cuidado”, afirma.

Outra medida defendida pelo governo, o Plano Nacional de Fertilizantes, possibilitará diminuir a dependência da importação. Dessa forma, Brum destaca que diversos governos já tentaram propor planos de toda a ordem, porém eles se perdem no caminho sem trazer efeitos econômicos ao país. “É possível e devemos ampliar a mineração para aumentar nossa produção local, porém, isso precisa ser feito com sabedoria para não implicar em custos ambientais irreversíveis,que poderão custar  mais caro no futuro próximo, do que a própria importação”, considera o professor.

 

Alta dos combustíveis impacta no custo da produção

O frequente aumento nos combustíveis é outro fator que está elevando o custo da produção agrícola. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombstíveis-ANP aponta para o preço médio do litro de óleo diesel e ficou em R$ 6,726 no estado do Rio Grande do Sul no mês de maio. O valor está se aproximando do preço da gasolina, na média estadual.

O fator que eleva os combustíveis é a paridade de preço internacional adotada pela Petrobrás desde 2016-17, e que, conforme Brum, não pode ser modificada. Contudo, o economista salienta que, uma vez que os fatores externos como o preço internacional do petróleo elevado, é possível fazer alterações internas buscando reduzir os preços dos combustíveis.

Uma delas seria o investimento em refinarias para o refino do petróleo do pré-sal. “Nenhum governo adaptou as refinarias existentes para o uso do tipo de petróleo ali extraído. Assim, temos que exportar o petróleo do pré-sal e importar o tipo de petróleo que nossas refinarias podem trabalhar”, acrescenta.

 

Reservas são fundamentais para superar crises

Brum aconselha ainda que, como em qualquer atividade econômica, os produtores rurais precisam criar uma poupança e investimentos produtivos adequados, para que haja fôlego para superar momentos de crise. “Quem não souber, não quiser ou não puder fazer esta “gordura” será o primeiro a ser excluído do processo produtivo... A formação da juventude rural é fundamental, para se dar o salto qualitativo que o setor precisa. Infelizmente, muita gente ainda não entendeu isso”, conclui.