A vida dos três-maienses pelo mundo afora

Vanessa Jurinic Cassol, 32 anos, casada com Lucas Bassani Dalmagro sempre teve o desejo de morar no exterior, nem que fosse só por um período. Porém, a viagem ao Nepal, na Ásia, em 2018, onde o casal vivenciou uma cultura totalmente diferente, foi decisiva para colocar em prática a ideia de se aventurar no exterior. Depois de estudar muitas possibilidades, o casal decidiu pela cidade de Turin, na Itália, onde ficou até final de 2019, quando transferiu residência para a República Tcheca. Atualmente, Vanessa trabalha como CRM advisor – consultora de gestão de relacionamento com o cliente – que pertencente ao grupo KLM/Air France.

A vida dos três-maienses pelo mundo afora
Em Agra, na Índia, cidade que abriga uma das sete maravilhas do mundo moderno, o Taj Mahal. Considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o monumento histórico atrai milhares de visitantes todos os anos

Vanessa é filha de Vicente Cassol e Líris Maria Jurinic Cassol. Formada em licenciatura em Matemática, pela Unijuí, em 2011, mudou-se para Porto Alegre, quando iniciou o Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela PUC-RS, concluído no final de 2012. No final de 2016, a três-maiense conheceu em Porto Alegre, o jovem Lucas, que é natural de Soledade. Em fevereiro de 2019, eles se casaram. 

A jovem revela que sempre teve vontade de morar no exterior, mesmo que fosse por um curto período de tempo. Seja para conhecer novas culturas, vivenciar o dia a dia ou aprender novos idiomas. Um fator decisivo para eles terem certeza que queriam morar em outro país foi uma viajem, em 2018, quando conhecerem o Nepal, país asiático, que faz fronteira com a China. Nessa viagem, fizeram trekking (caminhada) de 12 dias até o Acampamento Base do Everest, que fica a 5.364m de altitude. "Tivemos contato com uma cultura totalmente diferente, em um dos lugares mais isolados da terra, onde não existem meios de transporte que não sejam animais e um jeito de viver que quase não vemos mais”, revelam.

O casal visitou Katmandu, capital do Nepal, conheceu inúmeros templos e monastérios numa cidade mística, antiga e de cultura milenar. Além do Nepal, eles passaram pela Índia, país que Lucas já residiu e que gostaria que Vanessa conhecesse. “Depois dessa viagem começamos a pensar na ideia de nos mudarmos para o exterior e analisar em qual país gostaríamos de residir, tendo em vista clima, idioma e oportunidades de trabalho”, explica a três-maiense. 

Depois de algumas análises, o casal decidiu pela Itália por ter uma cultura parecida com a do Brasil e pela oportunidade de aprender o idioma. Vanessa diz que inicialmente fizeram um planejamento financeiro com as reservas, para se manterem por um ano sem necessitar de renda adicional, pois iriam para o país europeu sem trabalho garantido. Caso não desse certo, eles retornariam ao Brasil após esse período.

Em março de 2019, Lucas foi o primeiro a ir para a Itália para fazer a cidadania italiana. “Decidimos fazer desse jeito, pois como ainda não tinha cidadania italiana e meu marido, sendo cidadão italiano, eu teria direito de residir legalmente em qualquer país da União Europeia”, relata Vanessa, que em maio também se mudou para a Itália, em Turin, quarta maior cidade do país, na região de Piemonte, cidade com um custo de vida não tão elevado e com boas oportunidades de trabalho.

 

Chegada na Itália e mudança para República Tcheca

O casal se inscreveu em aulas de italiano, por meio de um programa do governo italiano que oferece aulas gratuitas para estrangeiros, o que facilitou a adaptação à sociedade italiana.

Outro ponto necessário foi dar entrada na permissão de residência, pois com o passaporte brasileiro, Vanessa teria o direito de ficar legalmente no país apenas por três meses. “Com a permissão de residência por ser casada com um cidadão italiano, teria os mesmos direitos que qualquer cidadão e poderia trabalhar”, diz Vanessa. Porém, a permissão de residência definitiva levou cinco meses, e durante este período, ela não pôde trabalhar.

Vanessa conta que devido à situação econômica italiana e por não possuírem um italiano avançado, estava difícil de conseguir um emprego na área de formação. "Lucas começou a procurar vagas em outros países da Europa e surgiu uma oportunidade  em Praga, capital da República Tcheca. Em outubro de 2019 nos mudamos para lá, e assim conseguimos entrar no mercado de trabalho", revela.

Vanessa trabalha como CRM advisor, em uma empresa internacional que presta atendimento ao cliente e que pertence ao grupo KLM/Air France. “Iniciei fazendo o atendimento ao cliente telefônico, via e-mail e rede social, esclarecendo dúvidas, resolvendo problemas e pedidos dos passageiros. Hoje, estou na área que trabalha diretamente com a equipe do aeroporto, sendo responsável por resolver os problemas de cancelamento e overbooking de voos, remarcando os passageiros em outros voos”, explica. 

Já Lucas trabalha na área financeira de uma empresa de óleo e gás.

 

Clima, costumes e cultura

Como já relatado por Marcelino Colla, que também mora no país, o clima tcheco é diferente do brasileiro. Em sua maioria, os dias são frios e com pouco sol. “Nos últimos anos os invernos têm sido mais amenos e as temperaturas médias oscilam ligeiramente abaixo de zero. Não são muito diferentes do que estamos acostumados com o inverno gaúcho”, diz a três-maiense.

A jovem destaca que as casas possuem aquecimento e água quente em todas as torneiras, que ajuda a enfrentar os dias frios mais confortavelmente. O casal já vivenciou alguns dias de neve, mas não neva por vários dias seguidos. Os invernos possuem dias curtos, amanhecendo por volta das oito horas da manhã e anoitecendo pelas quatro horas da tarde. Já o verão pode ter temperaturas até 35° C.

Vanessa revela que a cerveja é uma paixão nacional. A República Tcheca é considerada o país que mais consome a bebida no mundo, com a média de 143 litros anuais por pessoa. “Aqui a cerveja é muito barata, ou seja, é mais barata do que a água no país”, comenta.

A maior parcela da população – algo em torno de 70% – se considera ateia, ou seja, não acredita em Deus.

 

Trekking ao Acampamento Base do Everest, no Nepal. As experiências vividas na viagem foram decisivas para o casal morar no exterior

 

Desafios encontrados

O idioma foi o maior desafio encontrado ao chegar no país tcheco. “No centro da cidade, por ser bastante turístico, você consegue se virar falando inglês, mas nos bairros poucas pessoas falam uma segunda língua, principalmente os mais velhos”, conta Vanessa.

Ela ainda diz que, quando precisam resolver algo no Ministério dos Estrangeiros, os funcionários pedem que falem o tcheco ou que levem alguém que fale o idioma, pois nem todos os servidores falam inglês. “Estamos tentando aprender o idioma, mas por ser uma língua de origem eslava, é bem difícil, pois possui sons e letras diferentes”, considera.

"A saudade do convívio com a família, com a minha cachorrinha que acabou ficando com os meus pais, e dos amigos, também foram outros grandes desafios. Sinto falta do 'calor' dos brasileiros e do sol, já que aqui a maioria dos dias são frios e cinzas”.

Em dezembro de 2020 o casal retornou ao Brasil para passar as festividades de final de ano com os familiares e, no final desse ano, pretende visitar novamente a terra natal.

Quanto ao tempo que pretendem ficar no continente europeu, Vanessa diz que ainda não tem nada definido. 

 

Mercado de trabalho

Vanessa comemora ter conseguido uma oportunidade de trabalho durante a pandemia e em um país diferente, com o mercado de trabalho bastante dinâmico e concorrido. “Estávamos nos tempos difíceis da pandemia, com lockdown, os processos seletivos eram todos online, sendo as entrevistas realizadas por recrutadores ou por programas criados especificamente para isso e envio de vídeos”.

 

Dia a dia na Europa

Ela conta que sua rotina é igual à que tinha no Brasil. “A diferença é que não tenho um horário fixo de trabalho, são dias e horários diferentes, dependendo da escala, a qual é programada uma vez por mês”. Ela também pode escolher quando quer fazer homeoffice ou ir ao escritório.

Em seu tempo livre, cuida da casa, passeia pela cidade e anda de bicicleta.

 

Sistema de Saúde

Para Vanessa, o sistema de saúde é bom, mesmo tratando-se de medicina curativa e não preventiva. “Há duas opções de planos de saúde no país: público e privado e todas as pessoas que residem legalmente na República Tcheca são obrigadas a ter um plano de saúde válido”. Os planos podem ser contratados pessoalmente, pagando um valor anual (normalmente para quem passa um curto período de tempo), e também através da empresa em que trabalha. Nesse caso, o pagamento é descontado do salário do funcionário a cada mês. Quem trabalha por conta própria pode escolher o plano de saúde que preferir, mas é obrigatório ter um. 

Também é necessário se registrar em um GP (médico de família), que, normalmente, é um clínico geral. O GP trata o problema ou encaminha para o hospital ou outro especialista, em casos específicos ou emergências. O sistema público de saúde cobre visitas ao dentista e alguns tratamentos dentários, sempre por motivos de saúde.

Os remédios, em grande maioria, são comprados com receita médica. Em muitos casos, o plano de saúde oferece descontos nas compras de medicamentos receitados para o tratamento.

 

A República Tcheca é conhecida como a terra dos castelos, com mais de 2000 castelos, ficando atrás apenas da Bélgica e da França. Ao fundo, o Castelo de Praga, o mais famoso entre eles, e considerado o maior castelo do mundo, com mais de 70.000m²
 

Custo de vida

Vanessa conta que o país possui o custo de vida barato, comparado aos países da Zona do Euro. “Ficou um pouco mais caro nos últimos meses. Os preços de diversos produtos e serviços aumentaram com a pandemia e a guerra entre a Ucrânia e a Rússia. A cidade ainda oferece um estilo de vida excelente e serviços públicos de transporte e saúde de qualidade, além de segurança. Aqui se utiliza como moeda a coroa tcheca (Kc), ou seja, o país não faz parte da Zona do Euro. Por exemplo, 1 real equivale a 4,58Kc”, relata.

Vanessa também revela que aluguel onde mora aumentou bastante, principalmente nas áreas centrais, causado pela grande procura de turistas e estrangeiros que mudam a trabalho. “Os preços do supermercado também aumentaram um pouco. Contudo, tem bastante variedade de produtos e marcas, inclusive já encontramos várias frutas vindas do Brasil como mamão e manga”, acrescenta.

O transporte público segue barato, principalmente para quem compra o plano anual. Vanessa acredita que o poder de compra é maior que do Brasil. “Durante o período que estive desempregada, conseguíamos nos manter muito bem, apenas com o salário do Lucas e ainda conseguíamos guardar dinheiro e realizar algumas viagens”.

O salário mínimo nacional é de 16.200Kc, o equivalente a 651,70€ por mês (cerca de R$ 3.350,00)

 

Mercado de trabalho

O país possui a menor taxa de desemprego da União Europeia, 3,2%. No país não existe décimo terceiro e carteira de trabalho, apenas o contrato que pode ser temporário, (o qual pode ser renovado) ou indeterminado. 

Em média, trabalha-se oito horas diárias, chegando a 40 horas semanais. As férias variam de 20 a 25 dias, mas a diferença comparada ao Brasil é que são dias úteis e não é necessário tirar 10, 15 ou 30 dias de uma vez. “Para eu, que sou mulher, o que chamou bastante atenção, foi o período de licença maternidade (licença parental), que pode ser de até 3 anos”, conclui.

 

Receptividade aos estrangeiros

Os tchecos, segundo Vanessa, são receptivos aos turistas, mas no dia a dia são um pouco fechados. “Não temos nenhum amigo próximo que seja tcheco. Acredito que a pandemia tenha dificultado essa aproximação e também o idioma, já que nós não falamos tcheco e muitos deles não falam inglês. Inclusive no meu trabalho não tenho muito contato com tchecos, a maioria dos funcionários são estrangeiros que falam inglês”.

 

Conselho para quem quer morar no exterior

“Olha, não é fácil! Principalmente no começo, na fase de adaptação, e por ficar longe da família, especialmente em datas especiais. No entanto, se você tem vontade, vá em frente. Não desista! Se organize e planeje para que tudo ocorra da forma mais natural possível. É uma experiência única e cada um encara de uma forma diferente. Mas com certeza, será de grande aprendizado!”, aconselha.