A nova rotina escolar sem celular
Restrição do uso do celular em ambiente escolar é avaliada como positiva por professores e alunos
A vedação de celulares em ambiente escolar passa por uma tendência mundial, como já ocorria em países como França, Espanha, Grécia, Suíça e México. Um estudo realizado pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, conclui que o excesso de tecnologia leva a prejuízos na comunicação entre crianças e jovens, problemas no sono, atrasos no desenvolvimento cognitivo, no aprendizado, entre outros problemas.
Outro estudo publicado na revista científica PLOS Mental Health, dos Estados Unidos, revela que o vício em celulares pode causar alterações cerebrais em adolescentes, podendo afetar em seu comportamento.
No Brasil, a lei n° 15.100/2025, estabelece novas regras para os estudantes quanto ao uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica passou a valer neste ano. O Ministério da Educação, ao justificar a nova medida, indica que a ação visa promover saúde mental, física e emocional, assim como a promoção da aprendizagem e desenvolvimento socioemocional.
Para avaliar os primeiros meses com a nova lei, a reportagem do Jornal Semanal ouviu escolas e estudantes. Todos foram unânimes em afirmar que a restrição só trouxe benefícios.
Sem celular, alunos passaram a interagir mais nos interlavos das aulas (Foto: Comunicação Setrem)
Vedação tem melhorado desempenho escolar e convivência entre alunos
Na Rede Municipal de Ensino a temática tem sido pauta recorrente entre professores, pais e estudantes. “Por um lado, os dispositivos móveis podem ser ferramentas valiosas para o aprendizado, oferecendo acesso a informações, aplicativos educativos e recursos de pesquisa instantânea. Por outro, há preocupações quanto às distrações, ao bullying digital e ao impacto na atenção dos alunos durante as aulas”, declarou a secretária de Educação Jussara Mello Hübner.
Especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental, a pasta busca um uso equilibrado dos celulares, integrando a tecnologia de forma responsável e promovendo debates e orientações sobre o uso consciente dos dispositivos. “Todas as unidades passaram a seguir a legislação vigente, organizando reuniões e promovendo ações de orientação junto aos alunos e à comunidade escolar”, acrescentou.
Os relatos de professores apontam que a vedação de celulares tem sido muito positiva e tem contribuído para melhorar o rendimento dos estudantes. “Muitos docentes observam que os alunos conseguem se concentrar mais nas aulas, participam ativamente e demonstram maior atenção às atividades propostas. Essa mudança tem favorecido o aprendizado, reduzido as distrações e criado um ambiente mais propício aos estudos. Além disso, percebe-se uma rotina mais disciplinada e uma valorização do momento de aprendizagem, refletindo em um desempenho acadêmico mais satisfatório”, disse.
Conforme Jussara, os educadores relatam que a maioria dos estudantes compreendeu as novas normas. “Muitos perceberam os benefícios da mudança, como o aumento da atenção, da participação e da qualidade dos estudos. Embora alguns tenham apresentado resistência ou dificuldades no início, especialmente os mais habituados ao uso constante do celular, com tempo e orientação, a adaptação ocorreu de forma tranquila e eficiente”, pontuou.
A secretária avaliou de forma positiva esses primeiros meses. “A medida tem contribuído para um ambiente escolar mais disciplinado, com maior foco e engajamento dos estudantes. Os resultados iniciais mostram melhora no desempenho escolar e na convivência entre alunos e professores. Apesar de alguns desafios iniciais, a experiência tem sido enriquecedora, reforçando a importância de medidas que promovam uma aprendizagem mais eficiente e livre de distrações”, frisou.
‘Superados os desafios dos primeiros meses, é notável maior interação entre os alunos e melhora no aprendizado’
Na Escola Estadual Castelo Branco, segundo a diretora Rejane Petry, os primeiros meses do foram desafiadores. “Construímos, juntamente com os alunos e as famílias através de Assembleias de Pais, o regulamento para nos adaptarmos a esta medida importante. Com certeza as contribuições serão muito positivas para o rendimento escolar, pois sabemos o quanto o uso excessivo do celular é prejudicial na aprendizagem, no sono e na interação com os outros estudantes”, pontuou a diretora.
Rejane acredita que as medidas trarão um ambiente escolar mais saudável e produtivo. “A escola possui regimentado as Normas de Convivência e estamos conseguindo administrar de forma responsável e consciente a não utilização do celular e outros dispositivos. Cabe ressaltar a importância positiva dessa medida em benefício da saúde mental, social e cognitiva dos estudantes. A escola tem oferecido alternativas pedagógicas que geram a conectividade com intencionalidade pedagógica através do uso dos chromebooks e de socialização com a disponibilização de atividades lúdicas, como tênis de mesa, jogos de tabuleiro, cartas e desportivas para envolvê-los”, disse.
A restrição também ocorre aos professores, que podem utilizar dispositivos apenas para atividades com fins pedagógicos. “Inicialmente, percebemos que há maior interação social entre os estudantes, além de mais foco e comprometimento nas atividades escolares”, concluiu Rejane.
Já o diretor do Instituto Cardeal Pacelli, Airton Moises Cesa, a adequação ocorreu de forma gradual. “O processo tem sido marcado por adaptações a nível organizacional e pedagógico. A escola implementou no regulamento interno a norma de proibição durante as aulas e nos espaços comuns, assim como recreio. Para garantir o cumprimento das novas regras, a escola reforça a sensibilização junto aos alunos, professores e pais ou responsáveis, promovendo ações informativas, destacando os benefícios da medida no combate à distração e ao bullying digital”, declarou.
O diretor acrescentou que, conforme relatos dos professores, as aulas têm tido menos distrações, sem o celular. “Os alunos conseguem se concentrar nas explicações e atividades.
Há um aumento na participação em sala de aula, com mais perguntas, interações e envolvimento. Os estudantes tendem a cumprir as tarefas em menos tempo e com mais atenção”, complementou.
‘Sem celulares no espaço escolar, percebe-se um maior vínculo entre os estudantes’
Na Escola Setrem, a restrição do telefone celular em sala de aula já era uma postura adotada antes da implantação da lei, conforme relatou a orientadora educacional Marina Zucatto. “Os dispositivos eletrônicos eram utilizados em sala apenas durante práticas pedagógicas. Contudo, a nova lei trouxe um respaldo que ampliou e contribuiu ainda mais com as ações anteriormente adotadas, ampliando a restrição para todos os momentos e espaços escolares”, detalhou.
Com relação aos primeiros meses de implementação da regulamentação, a avaliação da instituição é extremamente positiva. “Desde o início, os estudantes mostraram-se acolhedores e adeptos à nova medida, compreendendo sua importância para o desenvolvimento pessoal, o melhor aproveitamento das aulas e o aumento do rendimento escolar. As famílias também se mostraram grandes parceiras nesse processo, apoiando e orientando os estudantes quanto ao cumprimento das novas diretrizes. Essa colaboração foi fundamental para o sucesso da implantação das regras e para os resultados positivos que já estamos observando”, salientou.
Marina tem observado resultados muito positivos com a implantação da nova lei. “Isso está refletindo no aumento das interações e brincadeiras entre os estudantes. Eles estão envolvidos com maior intensidade em atividades como vôlei, futebol, pingue-pongue, espiribol e jogos de cartas, como Uno e Truco. As rodas de conversa também se tornaram mais frequentes e participativas, fortalecendo os vínculos entre os estudantes. Além disso, os diversos espaços da escola estão sendo mais explorados e valorizados”, declarou.
Marina pontuou que é fundamental o trabalho conjunto entre escola e família para o desenvolvimento integral dos estudantes. “Por isso é essencial que as famílias continuem apoiando, orientando, conversando e esclarecendo aos filhos sobre a relevância das medidas disciplinares estabelecidas. Essas ações visam potencializar o aprendizado, bem como o desenvolvimento físico, psicossocial e mental dos alunos”, frisou.
‘Os estudantes, já sabendo da nova lei, tornaram este processo natural’
No Cooper Dom Hermeto a mudança não trouxe tantos desafios. “Como a escola já tinha uma proposta de acesso restrito aos aparelhos, sendo permitidos somente com a programação e orientação dos professores, não sentimos maiores dificuldades”, disse o diretor Gildor Spengler Scherer.
Conforme o diretor, os aparelhos são recolhidos e guardados em local específico durante todo período de aula. “Quando necessário, é usado de forma didática e pedagógica, sempre sob coordenação e supervisão do professor, já que o celular pode ser útil para a aprendizagem quando usado de forma pedagógica”, complementou.
Na avaliação do Gildor, a legislação atual veio ao encontro a prática já realizada pela escola. “Os estudantes, já sabendo da nova lei e conhecendo a prática pedagógica da escola, tornaram este processo natural”, frisou.
Como escola, o diretor ressaltou que a medida é muito positiva ao ambiente de sala de aula. “O momentâneo afastamento das telas faz com que o educando passe a interagir mais, aproveitando o tempo e ambiente escolar para fortalecer as relações presenciais”, reforçou.
Avaliação dos estudantes

“Considero uma medida importante e necessária, pois promove maior atenção e interesse dos alunos durante as aulas, além de estimular a interação no ambiente escolar.
No início, foi difícil ficar sem o celular, principalmente nos momentos livres, mas perceber a mudança na convivência entre os colegas, que passaram a se envolver mais em conversas e brincadeiras, em vez de ficarem apenas no celular, para mim, foi incrível.”
Ana Laura Wegmann Moreira, 14 anos, aluna do 9° ano do Cooper Dom Hermeto
“Eu acho que essa lei foi muito boa, porque ajuda os alunos a prestarem mais atenção nas aulas e a se envolverem mais com o que está acontecendo ao redor. O celular, muitas vezes, acaba sendo uma distração, então a proibição contribui para melhorar o foco e a convivência entre os colegas.
Eu não tive dificuldades, porque já não era permitido usar o celular durante as aulas. A diferença maior foi mesmo durante os intervalos.
Acho que o maior impacto foi na socialização. Sem o celular, a gente conversa mais, interage com outras pessoas e até voltou a brincar, como jogar truco, por exemplo. Isso tem feito o ambiente escolar ficar mais divertido.”
Fernanda Rotilli Schapowal, 15 anos,aluna do 1° ano do Ensino Médio da Setrem
“Confesso que as primeiras semanas foram desafiadoras, mas agora já estamos bem adaptados. Acho que melhorou muito, pois agora, os colegas se entrosam mais, os recreios são mais dinâmicos e divertidos. Jogamos jogos de cartas, fazemos algum exercício com bola, como vôlei e futsal, ou apenas conversamos e socializamos com nossos amigos.
Na minha avaliação, a lei foi necessária, porque os celulares atrapalhavam bastante nas aulas. Muitos alunos ficavam usando o celular e não prestavam atenção, mesmo com os professores chamando atenção. Isso acabava refletindo no boletim, com um desempenho ruim. Por outro lado, quando o celular era usado de maneira consciente e com a liberação do professor durante a aula, era bom, pois podíamos fazer pesquisas ou buscar referências. Mesmo assim, a escola tem lidado bem com a situação e disponibilizado Chromebooks, quando necessário.”
Pietra Martini, 14 anos, aluna do 9° ano da Escola Estadual Castelo Branco

“A proibição tem seus pontos contrários e favoráveis, como toda lei. Entretanto, com a proibição, alguns estudantes passaram a interagir mais, fazendo uso da mente para raciocinar e, com isto, aprender mais e desenvolver seu cérebro Claro que, no começo, houve uma repercussão ruim entre os alunos, mas hoje já é bem tranquilo. Agora, os estudantes se divertem de outras maneiras e socializam mais durante o período escolar. Para mim, melhorou, porque agora temos mais debates e assuntos para dialogar sem o uso da internet.
Alguns talvez vão mudar seu pensamento, outros nem tanto. Entendo que devemos utilizar o celular de maneira que agregue a nossa bagagem pessoal e social.”
Juliana Bauer Schneider, 17 anos, aluna do 2° ano do Ensino Médio no IEE Cardeal Pacelli

“Eu admito que, no início, foi um pouco difícil me adaptar. No entanto, com o tempo, percebi que essa mudança trouxe muitos benefícios. Durante os intervalos, em vez de ficar olhando para a tela do celular, eu e meus colegas passamos a interagir mais, conversar com mais entusiasmo e até jogar futebol. Aos poucos, essas interações se intensificaram, e percebi que muitos estavam passando pela mesma adaptação que eu.
Hoje, sinto que o ambiente escolar está mais vivo, com mais risadas e conversas reais. Acredito que a lei teve um impacto positivo. É claro que o celular pode ser uma ferramenta útil em diversos momentos, mas, dentro da escola, especialmente em sala de aula, ele acabava sendo uma grande distração. Sem ele, consigo me concentrar melhor nas aulas e aproveitar mais tanto o tempo de estudo quanto os momentos de socialização.”
Tonny Rettore, 18 anos, aluno do 3° ano do Ensino Médio da Setrem

“Acredito que é uma lei que vem para o bem, uma vez que, muitos alunos não conseguiam focar nas aulas e nas atividades propostas por estarem viciados e dependentes de seus celulares.
No começo, era muito ruim não ter o celular, mas agora é estranho mesmo é imaginar usar o telefone durante as aulas. Percebi que meu desempenho escolar melhorou muito e mesmo fora da escola me sinto menos atraída a passar tanto tempo no celular.
Sem o celular, é perceptível que os alunos interagem mais uns com os outros, aumentando o aprendizado e a sociabilidade.”
Gabriela Redel de Oliveira, 17 anos, aluna do 3° ano do Ensino Médio do Colégio Dom Hermeto

“Acho que, para alguns alunos, a proibição foi necessária para que se concentrassem mais nos estudos, pois, quando era permitido o uso dos celulares nas escolas, muitos usavam em horário de aula, o que prejudicava muito o aprendizado.
Eu tive bastante dificuldade com a proibição, porque sempre fui acostumada a ter o celular por perto, seja para me comunicar com meus responsáveis ou até mesmo para uso pessoal no intervalo. Ainda sinto falta de poder usar, mas compreendo que muitos alunos não usam de forma correta, e por isso foi necessário impor essa lei.
Porém, acho que seria ótimo se pudéssemos usar nos intervalos, pois tem alunos que não tem uma companhia para conversar e acabam ficando sozinhos, e ter o celular para se entreter seria muito bom ou até para jogar jogos online com os amigos no recreio. Mas também não posso deixar de dizer que essa proibição ajudou muito as crianças e, principalmente, os adolescentes na comunicação com outras pessoas, sem depender do celular”.
Mariana Batista da Costa, 14 anos, aluna do 8° ano do Ensino Fundamental da EMCM Caminhos Inovadores
“Quando a lei entrou em vigor foi um pouco difícil me adaptar. Estamos tão acostumados a estar sempre conectados que, de repente, ficar sem o celular parecia estranho. Mas, com o tempo, percebi algumas mudanças boas.
No intervalo, por exemplo, sem o celular a gente passou a conversar mais pessoalmente, rindo juntos, brincando… parecia até que as amizades ficaram mais próximas. Foi uma forma de voltar a se conectar com quem está ali, ao nosso lado.
Ainda acho que o celular pode ser útil, se usado com equilíbrio. Mas essa experiência me mostrou que dar um tempo das telas também faz bem - tanto para a nossa atenção nas aulas quanto para viver mais o momento com os outros”.
Jordana Donato Corso, 13 anos, aluna do 8° ano do Ensino Fundamental da Escola Germano Dockhorn









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