Depois de uma longa espera, um final feliz

A adoção é um encontro que transforma destinos. Mais do que um processo legal, representa a construção de laços baseados no afeto, no cuidado e na escolha diária de ser família, provando que vínculos não dependem do sangue, e sim do desejo de acolher. Dentre tantas histórias felizes de adoção, hoje contamos a do casal Jarina Cecconello e Fernando Ruppenthal da Luz, pais da Carol, 8 anos.

Depois de uma longa espera, um final feliz
Família completa: os papais Fernando e Jarina, com a filha Carol e as mascotes Luna, Ísis, Gaia e Jujuba

Entre cadastros, expectativas e sonhos, a esperança de criar vínculos que nascem do coração se concretizou neste ano, quando a família de Jarina e Fernando aumentou com a chegada de Carol, de oito anos.

Jarina tem 45 anos e é funcionária pública e advogada. Fernando, 43 anos, é gerente bancário. Quando o casal se conheceu, há nove anos, logo perceberam que tinham muitas afinidades e sonhos em comum, além de formas muito parecidas de pensar sobre a vida, o futuro e a família. “Dentre esses pensamentos, lembro que, em uma das nossas conversas, ainda antes de casarmos, falamos sobre a adoção, pois esse também era um desejo que tínhamos em comum, assim como ter filhos biológicos”, relembra Fernando.

Contudo, a decisão de entrar na fila de adoção ocorreu após a descoberta de problemas de fertilidade, bem como várias tentativas de tratamentos sem sucesso. “A adoção, mais do que uma opção, também é um resgate de alguém que foi abandonado. Sempre achamos que é um ato que envolve muito amor, muita responsabilidade, muita dedicação e que traz um propósito maior para a nossa vida”, relatam.

Segundo eles, depois de desistirem dos tratamentos e já estarem na fila de adoção, ocorreu uma gravidez natural, mas infelizmente a gestação não avançou. “Perdemos o nosso Vicente na 13º semana de gestação. Mesmo se a gestação tivesse seguido e tivéssemos tido a oportunidade de ter o nosso filho nos braços, não sairíamos da fila de adoção.”

 

A difícil escolha do perfil da criança

O casal conta que, ao entrar na fila de adoção, precisou escolher um perfil de criança, o que, segundo eles, é uma tarefa muito difícil. “Embora saibamos que é a forma como o sistema consegue conectar pretendentes a pais com seus futuros filhos, cada opção no perfil acaba representando, ao mesmo tempo, uma renúncia”, diz o casal.

Assim, buscaram orientação, inclusive com profissionais, e chegaram à conclusão de apenas sobre dois critérios: que fosse uma menina e que tivesse até seis anos. 

 

Após quase seis anos de espera, a realização de um sonho

Eles revelam que, desde o início do processo de adoção até a ligação com a notícia de que havia uma criança no perfil escolhido, passaram-se quase seis anos. Carol estava na instituição há quase três anos esperando por uma família.  “Tivemos dois momentos iniciais com ela. No primeiro, nos foi apresentado um resumo da história dela, tudo que havia passado, o tempo em que estava acolhida no lar e como era a sua personalidade. Vimos diversas fotos das fases da vida dela após a acolhida e, depois, nos vimos pela primeira vez, sem que ela soubesse ainda o que estava acontecendo, como se estivéssemos apenas visitando o lar, até para não criar expectativas”, revelam Jarina e Fernando.

Eles descrevem o momento como emocionante. “Ela nos abraçou, interagiu conosco, conversou e, sinceramente, acho que desconfiou, pois é muito inteligente”, avalia o pai.

Alguns dias depois, ocorreu a primeira visita oficial como futuros papais da Carol. “Levamos bolo, brinquedos e livros, junto com uma vontade enorme de fazer com que  a Carol tivesse uma família. Ela tinha muitas perguntas e, quando ficamos sozinhos, pulou no colo da Jarina e disse: ‘mamãe, tem tanta coisa que eu quero saber!’”

Desde o primeiro contato, o casal diz que já sabia que ela seria a filha tão esperada. “Várias coisas aconteceram de uma forma que nos faz crer que foi Deus que enviou a Carol para nós e também nos escolheu para ser a família dela. O afeto e o carinho quase instantâneos foram determinantes para termos certeza de que era ela”, celebram.

E assim, Carol passou a residir com o casal quando faltava cerca de um mês para completar oito anos e foi selecionada por ter uma idade aproximada a do perfil definido.

 

Duas palavras, um novo começo

A primeira vez que Carol chamou Jarina de mãe e Fernando de pai foi indescritível, segundo eles. “Foi um momento único. Quando ela pulou no colo da Jarina, se aninhou ali, agarrada como se nunca mais fosse soltar, e a chamou de mãe, foi um dos momentos mais incríveis da minha vida. E, do colo da mamãe, ela olhou pra mim, que estava com o uniforme de trabalho, e disse: ‘papai, onde você trabalha?’”, recorda Fernando.

A forte conexão entre eles foi um aspecto muito importante, pois também é parte do processo em que a criança escolhe seus pais. “São dois lados: os pais precisam aceitar com todo o coração e receber aquela criança que foi selecionada para eles, assim como a criança precisa fazer o mesmo. Isso não se força, é uma conexão inexplicável”, complementam. “Acreditamos ser algo divino, pois a conexão dela com as demais pessoas da família também foi natural e instantânea”, diz Jarina.

 

Adaptação aconteceu de maneira gradual

Desde que o casal conheceu Carol, em janeiro, até a chegada dela à família, em abril, a adaptação aconteceu de maneira gradual. Em um primeiro momento, os dois a visitavam na instituição, uma ou duas vezes por semana, e passavam a manhã com ela. Também realizavam uma videochamada semanal. “Era muito legal ver as reações e as interações dela conosco”, relembram.

Jarina afirma que o mais incrível foi perceber como a Carol ganhava brilho no olhar a cada visita. “Era nítido que ela estava feliz e ansiosa para poder ir para nossa casa.”

Na etapa seguinte, eles puderam levá-la para passear, sem sair do município em que a instituição está sediada. “No feriado de Carnaval, finalmente, ela pôde conhecer sua futura casa. Quando a levamos de volta para o lar, ela nos disse que não queria mais ficar lá, que queria morar conosco.”

A partir daí, conforme o casal ficou cada vez mais difícil levá-la de volta. “Então, desde ponto em diante, tudo aconteceu mais rápido. Ela passou a vir nos finais de semana, podendo ficar até segunda-feira, e por estar muito bem adaptada, em aproximadamente um mês foi concedida a guarda provisória.”

O primeiro aniversário de Carol com a nova família reuniu primas, tios e avó materna

 

Integração e pertencimento

O casal conta que Carol está totalmente integrada ao núcleo familiar e ao círculo de convívio, como parentes, amigos, colegas e vizinhos. Definida como uma criança amável e gentil, que faz amigos por onde passa, em casa ela também foi recepcionada pela matilha de cães adotados pelo casal ao longo dos anos: Gaia, Ísis, Luna e Jujuba. “A convivência entre elas é uma troca linda de afeto e envolve muita diversão. E, como se não bastassem todas as mascotes que já tínhamos, no seu primeiro Dia das Crianças conosco, ela quis de presente mais um bichinho: um peixinho, que chamou de Nemo”, destacam.

Já no âmbito escolar, houve desafios, pois, em razão da sua história de vida, Carol apresentou atraso na aprendizagem, uma vez que fez o primeiro ano do Ensino Fundamental na instituição. Mas ao chegar no fim deste ano letivo, a avaliação, conforme os pais, é de que ela teve um grande progresso, pois já acompanha o nível de aprendizado dos colegas. “Todo esse desenvolvimento se deve aos nossos esforços como pais, dela como aluna e também do corpo docente, pois, além de ter sido muito bem acolhida por todos os profissionais na escola nova, a professora se dedicou muito para que ela conseguisse essa superação”, comemoram.

Carol é bastante ativa, curiosa, participativa e questionadora. “Ela distribui amor e carinho, adora abraços bem apertados, e essa é a motivação que nos faz superar, a cada dia, os desafios que surgem.”

 

Uma escolha feita com o coração

Dados estatísticos indicam que, à medida que a criança avança em idade, diminuem as chances de adoção e aumentam os desafios para a saída da instituição e a formação de um vínculo familiar.

Sabendo disso, Jarina e Fernando dizem que nunca consideraram a idade da Carol, que não se enquadrava exatamente nos critérios iniciais, como um fator que importasse na decisão em adotá-la. “Quando tomamos a decisão, tínhamos plena consciência de que teríamos uma filha que já viveu muita coisa, que carrega uma bagagem emocional e uma personalidade em formação. Mas a palavra-chave foi aceitação. Aceitamos ela como chegou para nós, e isso significa estar disposto a ser pai e mãe, seja biologicamente ou por meio da adoção”, ressaltam.

Além disso, declaram que precisaram de uma dose extra de coragem, buscada com o apoio de profissionais e também na espiritualidade. “Com o tempo, percebemos que, assim como qualquer criança, ela só precisa de amor, orientação e limites. Acreditamos que os pretendentes à adoção precisam vencer a barreira da idade, que muitas vezes é alimentada por preconceitos.”

Para o casal, o que mais os impactava durante as visitas à instituição, eram as crianças mais velhas, que pode ser que somente saiam de lá ao completarem 18 anos, sem a oportunidade de terem vivido em uma família. ‘É uma espera longa, às vezes cheia de dúvidas, mas quando chega o momento, compensa tudo’

 

‘Não desistam, apesar da longa espera’

Aos casais que estão na fila de espera por um filho, Jarina e Fernando deixam uma mensagem de incentivo. “Não desistam. É uma espera longa, às vezes cheia de dúvidas, mas quando chega o momento, compensa tudo.”

Fernando finaliza com uma declaração à esposa: “Só tenho a agradecer a Jarina por ser minha parceira, por caminhar comigo e, agora, com a Carol, em um caminho cheio de desafios e dúvidas. Como diz a Carol, do jeito dela: ‘tu é a mãe do mundo’. Acredito que é o jeito dela de dizer que tu és a mamãe do mundo dela, o porto seguro e tudo que ela sempre sonhou.”