A tradição do presépio de Natal
O presépio é mais do que uma decoração natalina. É uma forma de celebrar a verdadeira história do nascimento de Jesus, além de reforçar os laços familiares e criar memórias. Cada elemento do presépio carrega um significado especial, que nos convida a refletir sobre a pureza, a proteção, a esperança e a fé que a data representa. A história do presépio remonta ao século XIII, quando São Francisco de Assis criou a primeira representação em 1223, na cidade de Greccio, na Itália. A ideia de São Francisco era que as pessoas pudessem visualizar o nascimento de Jesus de uma forma mais clara e emocionante. Foi assim que a tradição se espalhou pelo mundo, adquirindo diferentes formas e elementos ao longo dos anos. Conheça a história de três famílias nas quais as peças do presépio estão passando de geração em geração. Tânia Maria Kunz herdou as peças dos pais. Já o presépio que hoje faz parte da decoração natalina da casa do família de Caroline Witczak Lasch Reimann está na terceira geração e o da família de Marcelino e Alzira Cassol está hoje sob a guarda da nora Marilene Cassol.
Entre memórias e fé, tradição segue iluminando os lares
Em Três de Maio, a tradição de montar o presépio continua sendo um dos gestos mais simbólicos do período natalino. Muito além da decoração, ele representa a espiritualidade e as lembranças que conectam gerações. A prática, inspirada por São Francisco de Assis, segue firme em casas, igrejas e comunidades do município, e, para muitos moradores, é também um reencontro com quem já se foi.
A professora aposentada Tânia Maria Kunz, 60 anos, é uma dessas guardiãs da tradição. Sentada na sala onde monta seu presépio todos os anos, ela segura com cuidado as figuras que pertenceram aos pais. Basta tocar em uma delas para que memórias antigas se revelem. “Ser a ‘guardiã’ desse presépio significa a lembrança viva de nossos pais”, diz. Relembrar o passado faz com que ela reviva, por instantes, o espírito natalino que preenchia a casa da família.
Tânia conta que a tradição começou cedo. “Na casa de nossos pais Maria Reynilda e Ottmar Ignácio Kunz, hoje falecidos, a tradição de montar o presépio e árvore de Natal vem de muito tempo. Acredito que desde o nascimento dos filhos.”
A preparação era sempre feita na véspera do Natal, em um ritual que envolvia toda a família. “Colocávamos serragem, musgo, montávamos uma casinha de papelão para ser o local do nascimento de Jesus”, descreve. O pinheiro — cortado no próprio pátio — era colocado em uma lata com areia e enfeitado com algodão, velinhas e bolinhas.
Tania relembra que na véspera do dia 25, a casa, o pátio e arredores deveriam estar bem varridos e limpos, e as árvores pintadas com cal. “Também nesse dia, ao anoitecer, fazíamos pasto e deixávamos para o burrinho do Papai Noel comer (e depois nossos pais escondiam o pasto) e podíamos ir nos vizinhos ou brincar até mais tarde e não podíamos entrar na sala onde estava o presépio, pois nossos pais colocavam os presentes embaixo da árvore”, conta.
A emoção se intensifica quando ela relembra a noite de Natal: “Primeiro íamos todos à missa na Igreja Matriz e, após, ao chegar em casa, nos reuníamos na sala, acendíamos as velinhas da árvore, rezávamos e cantávamos o tradicional Noite Feliz. Desejávamos uns aos outros Feliz Natal, abríamos os presentes e íamos dormir. Não havia ceia de Natal como nos dias de hoje”.

Em registro de 2003, Ottmar Ignácio Kunz e o presépio da família
Peça com mais de quatro décadas
Há cerca de 40 anos, os pais de Tânia adquiriram o presépio que hoje ela conserva com carinho. “Compraram um presépio, com 17 imagens grandes (30 cm) na antiga loja ‘Bazar Garrafa’. E esse presépio, após a morte deles, está comigo.” As peças do primeiro presépio, que eram menores, foram herdadas e restauradas por um irmão.
Para Tânia, os objetos são mais do que recordações: são um elo com o passado. “No presépio, todos os personagens têm sua importância e beleza, mas a Sagrada Família é essencial”, destaca. Para ela, manter a tradição é também manter vivos os encontros que marcaram sua formação. “Manter essa tradição é a continuidade da vida e encontros em família.”
A montagem hoje é mais simples, com uma mesinha na sala, luzes coloridas e o cuidado com cada peça. “Normalmente, as imagens mudam de lugar. Porém, Menino Jesus, Maria e José, sempre ao centro.”
Entre tantas lembranças, algumas se destacam. Ela ri ao contar do dia em que um dos irmãos tentou retirar a caixa pesada onde o presépio ficava guardado. “São José e o burrinho ficaram ‘machucados’. Aí, nossa mãe fez os primeiros socorros e ficou tudo bem.”
Outra memória atravessa até o sentido religioso do presépio. “Em uma noite de Natal muito enluarada, ouvimos palmas. Era um casal de indígenas com um bebê. Eles estavam perdidos, querendo chegar na cidade. Minha mãe lhes deu alimentos. Depois, entre nós, dissemos que a história se repetia como que em Belém, com José e Maria pedindo ajuda.”
O ritual da oração diante da manjedoura
Durante todo o período entre o Natal e o Dia de Reis, havia momentos de oração diante da manjedoura. “Colocávamos os Reis Magos e pastores cada vez mais próximos da manjedoura. No dia 7 de janeiro, a tradição se encerrava com o desmonte e o armazenamento das peças.”
Mesmo morando sozinha, Tânia mantém viva a tradição com o mesmo carinho de antes. A montagem antecipada, feita já em novembro, ilumina a sala durante o mês de dezembro e ajuda a trazer para perto o que o tempo levou. “Que o menino de Belém nos inspire a acreditar na força dos novos ciclos, nas segundas chances, na luz que sempre volta a brilhar e que seja sempre nosso melhor presente.

Em 2025, a decoração natalina ornamenta a sala da Tânia Kunz
Herança de fé sob a árvore de Natal
Presépio herdado é símbolo de afeto e continuidade na família Witczak, que mantém
viva a tradição de montá-lo no período de Natal
Isabela com a bisavó Alzira, já falecida, e acima com o presépio herdado
Todos os anos, quando o Natal começa a despontar no calendário, a família de Caroline Witczak Lasch Reimann, 41 anos, se reúne para preservar um gesto que atravessa gerações: montar o presépio. Não se trata apenas de um enfeite natalino, mas de um ritual que condensa união, fé e memórias afetivas que o tempo não apaga.
O presépio que hoje Caroline prepara ao lado do marido, Marcos Reimann, e da filha Isabela, 12 anos, carrega mais de meio século de história. Pequeno, delicado, chegou à terceira geração da família Witczak. Foi comprado por sua avó materna, Alzira Hemmig Witczak, já falecida, e mais tarde passou às mãos da mãe, Marilei Hemmig Witczak Lasch. “Este presépio tem memória afetiva, traz recordações de quando eu era criança e ajudava minha mãe a montar”, afirma Caroline. “Com certeza na época em que ele foi comprado, minha avó, com as dificuldades financeiras, deve ter feito suas economias, pois eram tempos difíceis”, acrescenta.
A tradição, antes conduzida por Alzira, tinha delicadezas que o tempo ajudou a fixar na lembrança. A avó plantava sementes de trigo próximo ao Natal para criar um tapete verde natural, simulando a vegetação ao redor do estábulo. A água era improvisada com um pedaço de espelho, um detalhe simples, mas que fazia a magia acontecer aos olhos das crianças.
Caroline recorda que a mãe, Marilei, manteve o ritual por muitos anos. E quando Isabela nasceu, o presépio ganhou um novo destino: foi para sua casa, onde, desde então, ocupa o espaço sob a árvore de Natal. “Ele é pequeno e delicado. Minha avó cuidou e minha mãe também, e agora esta responsabilidade está conosco. Cuidar dessa história é um valor amoroso, é seguir a história iniciada pela minha avó, e cuidar dele é um exemplo de amor e fé.”
Para a empresária, o Natal se renova a cada dezembro como um convite à esperança. Entre lutas diárias, batalhas internas, desafios e correrias, ela encontra no presépio um lembrete silencioso de que a vida sempre reencontra o caminho da luz. “O espírito de Natal é a esperança e o amor que se renovam a cada dia”, finaliza Caroline.
Quando o presépio se torna lembrança
Costume cultivado há décadas conecta fé e a história dos antepassados da família Cassol

Presépio na casa de Marilene Cassol, herdado dos sogros Marcelino e Alzira
Na casa da professora aposentada Marilene Cassol, o Natal começa bem antes de dezembro. É ainda em novembro que a tradição ganha forma, quando as caixas são abertas com cuidado e, de dentro delas, saem as pequenas figuras da Sagrada Família — Jesus, Maria e José — como se despertassem para um novo tempo. Ali, entre gestos pacientes e memórias que nunca se apagam, renasce o presépio que acompanha a família há décadas.
Herdado dos sogros Marcelino e Alzira Cassol, o conjunto atravessou o tempo protegido pelas mãos de quem o montou geração após geração. Para Marilene, esposa de Jorge Augusto e mãe de Fernanda, Emiliano e Geovani, o ritual é mais do que costume: é uma forma de anunciar o que realmente importa na celebração natalina. “Ter um presépio e conservá-lo é manter uma nobre tradição, mostrando para as novas gerações a simbologia do cristianismo”, afirma.
À medida que posiciona cada peça, a professora revisita lembranças que parecem acender o cenário com luz própria. O presépio, diz ela, carrega histórias que não se perderam nem com o passar dos anos nem com a mudança das estações. “Ele sempre trará boas lembranças”, afirma, com a suavidade de quem sabe que certas tradições não envelhecem, apenas se transformam. “Ao montar seu presépio, lembre-se de que está contribuindo para a perpetuação de um legado significativo e cheio de amor”, finaliza.









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