Nos últimos dez anos, cerca de mil produtores deixaram a atividade leiteira em Três de Maio

O número representa uma redução de quase 70%. Há uma década, eram cerca de 1.400 produtores na atividade, com produção diária de 140 mil litros de leite. Atualmente, existe pouco mais de 400 produtores na ativa, com produção de 72.500 litros/leite/dia. Os números são da Emater e, conforme o chefe do escritório local, Leonardo Rustick, pequenos produtores, médios e até grandes, estão abandonando a atividade e migrando para a produção de grãos

Nos últimos dez anos, cerca de mil produtores deixaram a atividade leiteira em Três de Maio
A instabilidade no preço do litro de leite pago ao produtor e a alta dos grãos contribuem para um futuro de incertezas na atividade leiteira da região, mesmo havendo toda a cadeia produtiva organizada e estruturada para o setor - Foto Jonas Viapiana

‘Incertezas para o cenário futuro’, diz Emater sobre a atividade leiteira

 

Em Três de Maio, há uma década, produção leiteira era de 140 mil litros por dia,  com mais de 1.400 produtores na atividade. Atualmente, produção é de 72.500 litros/leite/dia, permanecendo em torno de 400 produtores 

 

O leite é um dos produtos mais importantes da agropecuária brasileira. Além de ser essencial para produção de alimentos, também gera emprego e renda no país. De acordo com o último censo realizado pelo IBGE, em 2017, existem cerca de 1,17 milhão de propriedades rurais que produzem leite no Brasil.


Levando em conta a importância do setor, o dia 1º de junho é lembrado como Dia Mundial do Leite. Embora com alguns motivos a comemorar, no Brasil, por exemplo, o produtor vive um cenário muito complicado. O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges, afirma que os custos de produção estão inviabilizando a permanência de pequenos e médios pecuaristas. 


No Rio Grande do Sul, a atividade leiteira gera renda para mais de 100 mil famílias em 457 dos 497 municípios gaúchos, segundo o Sindilat (Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul). A entidade aponta a tendência do mercado lácteo gaúcho de recuperação, em virtude da volta às aulas presenciais e do pagamento do auxílio emergencial, bem como a redução da produção nacional são fatores que, somados, ajudaram a retomada. 


Segundo a Emater RS, o Rio Grande do Sul produz anualmente um total de 4,5 bilhões de litros de leite o que posiciona o Estado como o terceiro maior produtor do país, com cerca de 13,0% da produção nacional.

 

 

‘Produtores pequenos, médios e até grandes  estão abandonando a atividade e migrando para os grãos’, revela chefe da Emater de Três de Maio, Leonardo Rustick

 

A instabilidade dos preços do leite e a alta dos grãos contribuem para o futuro de incertezas do setor leiteiro. Afirmação é do chefe do Escritório da Emater, Leonardo Rustick. “Os preços oscilam muito. E também nesse momento, o produtor tem migrado para os grãos, influenciados pela alta dos produtos agrícolas”, afirma.


A preocupação, segundo Leonardo, é que não são somente os pequenos produtores, mas aqueles que estão bem estruturados e investiram na atividade, também estão abandonando a produção  leiteira. “Anteriormente, o abandono era por pequenos produtores que não atingiam o volume mínimo exigido pelas empresas para o recolhimento. Mas hoje o cenário é diferente. Vemos produtores pequenos, médios e grandes abandonando a atividade, e também de todas as idades, não somente os mais idosos”, informa.


Além disso, Leonardo ressalta que, em Três de Maio, estão instaladas importantes empresas que beneficiam o leite, com grande capacidade de industrialização, e hoje o cenário vê falta de matéria-prima para estas empresas, devido à diminuição da produção.

 

Números mostram queda na produção

O chefe da Emater cita que a produção leiteira atual do município está em torno de 72.500 litros de leite por dia. “Dá pra dizer que é a metade da produção que Três de Maio já chegou a ter. Há uma década, eram produzidos 140 mil litros de leite por dia. Isso é preocupante, porque a longo prazo vemos a diminuição do número de produtores também. Já chegamos a ter na década passada 1.457 produtores de leite, depois passou para 795 produtores, de acordo com o último levantamento do IBGE. E esse levantamento também está defasado. Dados oficiais não temos, mas estimamos que hoje são apenas aproximadamente 400 produtores (estimativa extraoficial da Emater)”, explica.


Leonardo questiona quantos produtores irão permanecer na atividade num cenário futuro. “Três de Maio tem produtores que produzem menos de 10 litros de leite/vaca/dia e tem propriedades altamente tecnológicas, com produção acima de 40 litros vaca dia. Temos toda a cadeia do leite montada e estruturada no município. E hoje a preocupação é que já está faltando leite para essas indústrias. Elas estão indo cada vez mais longe buscar esse leite, captar essa produção; o que também aumenta o custo dessas empresas”. Ele lembra ainda outro fator: “pequenos produtores dependem desse dinheiro para manutenção das suas famílias”.


Sobre a questão de preços, ele frisa que existe variação do valor pago ao produtor pelo litro, ficando na faixa de  R$ 1,60 a R$ 2,05. “Claro, não é o preco que o produtor deseja receber. No pico do preço chegou a estar em R$ 2,50, preço máximo pago ao produtor. Isso também desmotiva quem está na atividade, a incerteza do preço”, conclui Leonardo.

 

Aproleite conta com 20 sócios ativos

Em Três de Maio, a Aproleite (Associação dos Produtores de Leite), presidida pelo agricultor Jonas Viapiana, existe desde maio de 1996. 


Anos atrás, chegou a ter 30 associados ativos; hoje conta com 20. Os 20 sócios possuem cerca de 200 vacas em lactação, com produção de aproximadamente 7 mil litros de leite/dia. O que representa produção de 35 litros/leite/vaca/dia por associado.


Na avaliação de Viapiana, a atividade leiteira vive um momento atípico, pois os custos de produção permanecem elevados. “Tivemos uma safra de milho atingida pela estiagem, deixando os produtores com reduzida quantidade de alimentos para os animais, sendo que o milho é hoje um dos principais produtos utilizados na produção leiteira”. 


A mesma situação ocorreu com o milho safrinha, que foi prejudicado pelo ataque de pragas, chegando os produtores a colher apenas 15% da capacidade de massa. “Em um ano se elevou muito o custo de produção, em função do valor alto dos grãos”, avalia.


Isso ocasiona rentabilidade limitada ao produtor. O preço do leite pago ao produtor está na faixa de R$ 1,80 a R$ 2,00, mas se tem uma previsão de aumento nos próximos meses de até 20%, estima Viapiana. “Se confirmar, vai dar ânimo e fôlego ao produtor”, destaca.


O produtor de leite lamenta o fato de os associados não poderem se reunir. “Em anos anteriores a gente se reunia para debater sobre a associação, mas agora com a pandemia não fazemos mais nossos encontros mensais, nem as palestras que motivavam os produtores”, informa. 


Do número de associados, Viapiana informa que muitos são apenas sócios, e não atuam mais na atividade. “Por questão de saúde e não ter sucessão familiar. Hoje aqueles que permanecem, realmente, se dedicam à atividade para garantir o sustento da família mesmo”, conclui o presidente da Aproleite.

 

Em Três de Maio produção leiteira é bastante diversificada; existem produtores que produzem menos de 10 litros de leite/vaca/dia e tem propriedades altamente tecnológicas, com produção acima de 40 litros vaca dia