ECOS DO TEMPO: A história de Nelda Gass Bessow

Após uma pausa, retornamos nesta edição com o espaço Ecos do Tempo, dedicado aos internos do Lar dos Idosos de Três de Maio. A iniciativa da diretoria do Lar e parceiros voluntários busca valorizar a memória e a identidade dos idosos, resgatando suas histórias de vida e promovendo o reconhecimento social, o respeito e a escuta afetiva. Iniciada em 30 de maio de 2025, o Jornal Semanal já registrou mais de 25 histórias de vida ao longo dos últimos meses.

ECOS DO TEMPO: A história de Nelda Gass Bessow

A história contada com o coração de quem esteve sempre por perto - e é assim, com delicadeza e verdade que a vida de Nelda é relembrada

Por Miréia Bohnen
 

 

Na sala tranquila do Lar dos Idosos, Iracema Bahr fala com carinho, respeito e uma serenidade que revela anos de convivência e cuidado. 

Ao contar a história de Nelda Gass Bessow, hoje com 99 anos, Iracema não fala apenas de fatos, mas de uma vida inteira acompanhada de perto.

Nelda nasceu em Venâncio Aires. Com o tempo, a família mudou-se para Santo Cristo e, depois, para Três de Maio, cidade que sempre foi sua grande referência afetiva — o lugar para onde a vida, de um jeito ou de outro, sempre a trazia de volta. Foi na localidade de Linha Alma que construiu grande parte de sua trajetória.

Estudou até o 5º ano, mas isso nunca limitou sua inteligência. 

Sempre muito esperta, comunicativa e com respostas rápidas para qualquer assunto, Nelda trabalhou a vida toda em casa e se destacou por um talento especial: o tricô. Sabia fazer como poucas e chegou a dar aulas para outras senhoras, compartilhando conhecimento e companhia. Não teve filhos, tinha dois irmãos e era a única filha mulher da família. Ao lado do marido Orlando Bessow, pedreiro, carpinteiro e um verdadeiro “faz tudo”, viveu uma relação marcada por parceria e bom humor. Orlando era um esposo dedicado, e juntos formavam um casal alegre, que gostava de frequentar bailes, dançar e conviver com pessoas. 

Mesmo quando moravam em outros lugares, Três de Maio sempre foi o ponto de retorno.

Nelda sempre gostou de gente. Era brincalhona, querida por todos, cheia de vida. Foi sócia do Clube dos Idosos Alegria de Viver e, enquanto pôde, continuou frequentando os bailes, inclusive após ficar viúva. A alegria nunca foi algo que ela deixou para trás.

Com o passar do tempo, Nelda já não tinha familiares próximos. Foi então que Iracema, esposa do sobrinho de Nelda, assumiu um compromisso que ultrapassa qualquer obrigação formal. 

Mesmo após a separação, Iracema escolheu permanecer cuidando de Nelda — não por dever, mas por afeto, responsabilidade e humanidade.

Três anos após o falecimento de Orlando, Nelda foi morar com Iracema, onde permaneceu por 23 anos. Foram mais de duas décadas de cuidado diário, atenção, acompanhamento e presença constante. Uma dedicação silenciosa, firme e generosa, que merece ser reconhecida e elogiada.

No dia 29 de dezembro de 2025, Nelda passou a residir no Lar dos Idosos. E, como Iracema conta, um dos motivos que fazem Nelda gostar do lar é o fato de ser um lugar animado, com pessoas, conversas e convivência — algo essencial para alguém que sempre viveu bem entre os outros.

No Lar, Nelda é querida por todos. Sua história é feita de mudanças, trabalho, afeto, alegria e relações construídas ao longo do tempo. E, entrelaçada à sua trajetória, está a história de Iracema, uma mulher que escolheu cuidar, permanecer e amar, mesmo quando a vida poderia ter seguido outro caminho.

Essa não é apenas a história de Nelda. É também um testemunho de compromisso, empatia e cuidado verdadeiro, valores que seguem vivos dentro e fora do Lar dos Idosos.