TRÊS DE MAIO E SUA HISTÓRIA - O QUILÔMETRO 13 PARTE II
O QUILÔMETRO 13 PARTE II
Com a construção da nova igreja da comunidade católica São José do Km 13, os moradores da localidade passaram a se sentir mais legitimados em sua fé, pois ostentavam no local em que moravam uma das mais belas igrejas do interior de Três de Maio.
O alicerce da igreja foi todo construído por Giovanni Centenaro (nascido em 24.06.1926 e prestes a completar 100 anos), natural de Caxias do Sul, o qual, naquele momento, estava hospedado na casa de seu tio, Eugênio Viapiana, morador do Quilômetro 13, e só não deu prosseguimento no restante da obra porque antes deste trabalho já havia se comprometido com a construção da capela da comunidade de São Caetano, a qual tinha previsão de início de sua construção no dia 1° de janeiro de 1956.
Nos anos que se seguiram, Giovanni Centenaro seria o responsável pela construção de diversas outras capelas no interior de Três de Maio, em muitas delas, realizando todos os trabalhos que envolviam a obra, desde as fundações até os telhados, sempre auxiliado por um único servente.
Naqueles anos no Quilômetro 13, a vida da comunidade girava em torno da igreja e a religiosidade podia ser percebida em vários aspectos do seu dia a dia. A devoção era tão intensa para aquelas pessoas que era comum entre as famílias ter filhos seguindo na vida religiosa, investidos como padres ou freiras, assim como aconteceu com uma filha do agricultor Felix Gelain, que havia chegado a Três de Maio com sua família em 1938.
Natural de Nova Pádua, Felix Gelain se estabeleceu no Quilômetro 13 duas semanas depois de seu irmão, João Gelain, trazendo consigo a mudança que seu irmão havia deixado na estação ferroviária de Santa Rosa, por não ter conseguido espaço na carroceria do caminhão que deu carona para ele e sua família até Três de Maio.
Félix havia se casado com Maria Gelain, com quem veio a ter cinco filhos: Carmelina, Raimundo, Aquilino, Camilo e Oliva. O início da vida nas novas terras adquiridas no Quilômetro 13 foi muito difícil para Félix e sua esposa, mas com o tempo as coisas foram amenizando. Os domingos eram dedicados unicamente a Deus, e antes mesmo do sol se levantar no horizonte, já começava a movimentação de carroças e cavalos de moradores em direção a Vila Três de Maio, para assistirem as missas do padre Testani, compromisso que se estendia por quase toda a manhã, e à tarde, quando todos já haviam retornado à localidade, as famílias reuniam-se por longas horas para rezar o terço. A autoridade religiosa dos padres, mesmo quando extrapolava os limites da igreja, era respeitada ao extremo, como se fosse a manifestação da própria vontade divina.
Por isso era sempre importante ouvir algumas palavras do padre Testani ao final da missa, de forma pessoal, para ter a sensação de que aquele compromisso com Deus havia sido cumprido em sua totalidade. E foi em uma oportunidade destas que Testani falou à filha mais jovem de Félix, Oliva: “Você tem vocação!”.
Morando no interior, muitas vezes os casamentos aconteciam cedo na vida dos jovens, pois seus círculos sociais eram bastante restritos, então era comum que filhos de famílias vizinhas acabassem se unindo em matrimônio. E foi o que quase aconteceu com Oliva, não fossem aquelas palavras de Testani.
Neste período, estando ela com 16 anos, o filho de Domênica Brustolin, José Loro, começou a cortejá-la, deixando claro suas intenções. Mas sua mãe, talvez também sugestionada pelas palavras do religioso, lhe disse: “Eu não quero que você se case muito nova!”.
Foi então que Oliva decidiu participar de um retiro espiritual promovido pelas Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus, momento no qual permaneceu com um grupo rezando e fazendo atividades espirituais por três dias, e após isso, num momento de profunda reflexão, sentiu um vento soprar sobre sua face e decidiu que entregaria sua vida ao trabalho apostólico. Naquele momento Oliva havia tomado uma decisão da qual tinha certeza que jamais se arrependeria na vida, tal foi a clareza do sentimento que tomou conta de sua alma.
Como as instalações do colégio das irmãs ainda eram bastante limitadas, Oliva teve de trazer junto na carroça a sua própria cama de ferro para dormir. Mas logo sua vida tomaria um outro rumo, pois no mesmo mês em que entrou para o colégio das irmãs, uma freira vinda de Porto Alegre esteve em visita a Três de Maio, e percebendo a solicitude da jovem menina, a convidou para trabalhar na Creche Navegantes, em Porto Alegre, onde as irmãs desenvolviam um trabalho de acolhimento de crianças. Oliva permaneceu na capital por um ano, quando então retornou a Três de Maio para concluir sua formação no postulado.
Feitos seus votos, dois anos depois, voltou a Porto Alegre onde permaneceu mais alguns anos, e depois dali, passou por diversas outras casas onde as Filhas do Sagrado Coração de Jesus desenvolviam trabalhos, inclusive na Argentina.
Só retornaria a Três de Maio por volta de 2021, quando então se uniria a outras irmãs na Unidade Betânia, anexa ao Hospital São Vicente de Paulo (obra também realizada por Giovanni Centenaro), onde as irmãs aposentadas, que necessitam de maiores cuidados, permanecem.
Já o seu irmão, Aquilino Santos Gelain, havia se casado com Maria Markanti, ainda em Nova Pádua, e com ela teve seis filhos: Willi (1945), Saul (1947), Lorita (1949), Edite (1951), Carlito (1953) e Zair (1956). Aquilino construiu sua residência a um tiro de distância da residência de seu pai, Félix, e por volta de 1958, adquiriu o primeiro trator da comunidade de Quilômetro 13, um Zetor 25, que foi levado até sua propriedade por Marcenarei Cassol, revendedor da marca em Três de Maio.
Aquele foi um acontecimento importante na localidade, e a partir daí, todo mundo vinha até sua casa para ver o trator, pois até aquele momento o trabalho era feito somente com bois.
Logo Aquilino começou a trabalhar com um pé de pato de cinco ferros para arar a terra, até que tempos depois comprou um de sete ferros, chamado de “arado reversível”. A mecanização das lavouras começava a chegar à localidade, e as coisas começavam a melhorar para todos, tornando-se a comunidade do Quilômetro 13, naqueles anos, uma das mais prósperas do interior de Três de Maio, ao lado de outra comunidade que anos antes também havia se tornado o destino de muitas famílias de origem italiana: a Rocinha.
Em seu auge, o Quilômetro 13 chegou a contar com cerca de 90 famílias, e este povoamento acabou consolidando um comércio movimentado, que atraia moradores de lugares distantes dali, como o moinho de Vito Dalla Vecchia e dos irmãos Rossi, que recebia seguidamente uma clientela vinda até mesmo da região da Barra do Caneleira.
A família Rossi também havia chegado ao lugar nos primeiros anos da colonização do Quilômetro 13, e lá muitos descendentes desta família permaneceram até o fim de suas vidas. Pedro e Victoria Rossi, os primeiros da família a chegarem na localidade tiveram sete filhos: Aléxio (1927), José (1930); Julia (1931), Cecilia (1938), Egídio (?), Otília (?) e Maria (1942).
A filha Cecilia casou-se com Vito Dalla Vecchia, que, como já citado, havia instalado um moinho no Quilômetro 13, em sociedade com seus cunhados, José e Egídio Rossi, além de possuírem um bolicho “Dallavechia & Rossi Cia Ltda”, cuja principal moeda de troca era a produção de suínos dos moradores no entorno, os quais buscavam nas propriedades rurais com uma caminhonete F-350, para guardá-los em um chiqueirão que haviam construído nos fundos da loja, até que se formasse uma carga, que então era levada em um caminhão por Egídio Rossi até São Paulo, onde os suínos eram vendidos.
O percurso até São Paulo era quase todo feito por estradas de chão bastante mal preservadas, tornando a viagem extremamente desgastante para os animais, exigindo-se muito cuidado por parte do motorista para evitar a morte dos animais ao longo do percurso, o que poderia ocasionar um lucro menor e, consequentemente, prejuízos.
Certa vez, Egídio teve de permanecer 24 dias com o caminhão parado em São Paulo aguardando os preços dos porcos subirem para poder obter uma margem de lucro mais satisfatória, depois de verificar que os frigoríficos não estavam pagando um valor que valesse a pena.
Com o passar do tempo, as dificuldades foram amenizando, e os moradores do lugar não precisavam mais se deslocar até a cidade para conseguir determinados serviços, que passaram a ser levados até eles no Quilômetro 13.
Como era o caso do dentista ligado ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Dr. Emílio Müller, que ia seguidamente até a localidade com seu gabinete dentário móvel, montado em uma kombi, para extrair os dentes incômodos dos moradores, pois na época não havia outro tratamento que não fosse a extração dentária.
Nestes dias, formava-se uma fila ao lado da kombi e quando o Dr. Müller aliviava a boca de seu último paciente e se ia embora, restavam pelo chão onde o veículo estava estacionado diversos molares, pré-molares, incisivos e caninos misturados à terra vermelha da estrada.
Mas neste período, muitas outras coisas já começavam a mudar no Quilômetro 13, e junto com as notícias que chegavam pelo rádio de manhãzinha, dias de perspectivas incertas surgiam no horizonte anunciando que mesmo em meio a prosperidade já alcançada por muitos, um novo ciclo para diversas famílias estava se iniciando.
Foi o caso dos imigrantes italianos, Evaristo e Dirce Cuel, casal que nos anos da guerra haviam fugido da Itália para o Brasil, quando também acabaram se estabelecendo no Quilômetro 13, onde no porão de sua casa passaram a produzir queijos, os quais logo caíram no gosto de muitas pessoas, formando rapidamente uma extensa clientela.
A fabriqueta da família prosperava e os queijos que eram produzidos praticamente já tinham encomenda certa, mas quando os filhos do casal cresceram, Evaristo e Dirce Cuel decidiram fazer o mesmo que muitos moradores da região estavam fazendo, e mudaram-se para o Estado do Mato Grosso, para onde outras milhares de famílias gaúchas estavam se deslocando desde a década de 1960, impulsionados por um sentimento de busca por maiores oportunidades. No Centro-Oeste do país, estas famílias fundaram novos municípios e desenvolveram o agronegócio, impulsionando a produção de grãos a níveis mundiais, o que tornou o Mato Grosso um dos maiores produtores agrícolas do Brasil.
Em contra partida a isto, o Quilômetro 13, que outrora desenvolvia sua comunidade a passos firmes sob um chão ainda cheio de promessas para o futuro, foi progressivamente perdendo seus moradores e voltando a ser apenas um local de paisagens bucólicas em meio às lavouras de soja, milho e trigo, as margens da ERS – 342, ratificando uma passagem bíblica que afirma que há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu, como nascer e morrer e plantar e colher o que se plantou, depois resta o silêncio e a espera pelo tempo de uma nova semeadura. Hoje, cerca de vinte famílias ainda vivem no local.
Revisão do Dr. Professor Leomar Tesche

Moinho de Vito Dalla Vecchia e dos irmãos Rossi. Bem ao fundo, a residência de José Rossi, antes pertencente a Pedro e Victória Rossi

Pioneiros do KM 13 reunidos durante uma confraternização.
Festas eram raras na localidade pois os padres que assistiam a comunidade reprovavam estes tipos de divertimento









Comentários (0)