A vida dos três-maienses pelo mundo afora

Como é viver na Terra da Rainha? Hoje contaremos a história de Micheli Ruaro, 35 anos, que iniciou suas experiências fora do Brasil em 2010, quando foi morar na Irlanda. Desde 2018, Micheli mora na Inglaterra

A vida dos três-maienses pelo mundo afora
Micheli no Buckingham Palace, em Londres, residência oficial e principal local de trabalho da Rainha

As aventuras de Micheli fora do Brasil começaram no final do ano de 2010. Após formar-se em Administração de Empresas pela Setrem, decidiu morar fora do país para melhorar o inglês e ter experiências em terras estrangeiras. “Morar no exterior nunca foi um sonho, só comecei a me interessar quando fazia um curso de inglês em Três de Maio e minha professora na época foi fazer um intercâmbio. A partir daí comecei a pesquisar por lugares. Pela facilidade de conseguir visto de estudante e poder trabalhar escolhi por Dublin, capital da Irlanda”, conta a três-maiense.

Na Irlanda, ela morou por quase quatro anos, onde fez cursos de inglês e trabalhou como nanny (babá) e em cafeterias. Após esse período, retornou ao Brasil, onde permaneceu por dois anos e meio. No ano de 2016, Micheli, já com cidadania italiana, retornou para Dublin, a trabalho por mais dois anos.

Depois desse tempo em terras irlandesas, ela decidiu ir morar na Inglaterra. “Assim que cheguei, morei em Londres por um ano, trabalhei como supervisora em um café numa área nobre da cidade e com a chegada do Covid e de diversos lockdown mudei de Londres para Luton, uma cidadezinha a 57 km da capital inglesa, onde moro até hoje, com meu noivo Diego Sepúlveda, natural de São Caetano do Sul, São Paulo”, explica.

Filha de Henrique Ruaro e Marisa Dalla Vecchia, Micheli trabalha atualmente como Supervisor Assistant - assistente de supervisor na Aryzta Bakery, uma fábrica multinacional que fornece pães para a rede de fast food MC Donald's.

Micheli e Diego, em frente ao Pantheon em Roma, na última viagem de férias do casal

O dia a dia de Micheli em terras britânicas é bem corrido. “Entro no trabalho às 7 horas da manhã. Na fábrica sou responsável pela checagem da qualidade do produto, documentação e funcionamento das máquinas e robôs. Como fornecemos pães para toda Inglaterra, produzimos aproximadamente 64 mil pães por hora. A empresa funciona 24 horas por dia, 7 dias na semana, mas trabalhamos em turnos de 12 horas, 4 dias de trabalho e 4 dias de folga”, destaca, ressaltando que é possível fazer hora-extra durante os dias de folga.

“Nos dias de folga aproveitamos para descansar ou conhecer cidades diferentes. Ir a Londres também é uma opção, pois tem muita coisa para ver e visitar, entre museus, parques, pubs e restaurantes. A maioria dos museus tem entrada grátis o que é um bom passeio para dias frios e chuvosos”, revela.

 

Salário mínimo, jornada de trabalho e impostos

A carga horária de trabalho semanal é de 48 horas máximas. O valor mínimo da hora de trabalho é de £ 9,50 (cerca de R$ 60,00), mas a média é de 12 a 16 libras (de 75 a 100 reais). A média salarial é de 1.500 a 2.500 libras (9.421 a 15.700 reais). Geralmente o pagamento é realizado semanalmente ou a cada duas semanas, mas algumas empresas optam por pagamento mensal.

Os impostos variam de acordo com o rendimento, mas ficam entre 20% a 45% mensais e são dois tipos diferentes de impostos. O NI (National Insurance) é uma taxa cobrada tanto do empregado como do empregador sobre o valor do rendimento. O pagamento desse imposto dá ao empregado o direito à aposentadoria, licença maternidade, uso do sistema de saúde, etc. O NI não é um imposto cobrado anualmente, e sim semanalmente ou mensalmente, dependendo de como o salário é pago. Já o Income Tax tem como objetivo ajudar o financiamento do sistema público de saúde, o sistema de educação, além de ajudar na construção e melhoria de estradas e rodovias.

No país não há décimo terceiro salário ou adicional de férias no país. “Um ponto interessante e diferente do Brasil é que as férias podem ser fracionadas em quantas vezes, como o funcionário achar melhor. Por exemplo, se quiser tirar apenas um dia de férias é permitido e só são contados os dias úteis (feriados, sábados e domingos não entram na contagem das férias)”, frisa.

 

Sistema de saúde pública

O sistema de saúde inglês, o NHS (National Health System), é semelhante ao SUS brasileiro e permite o acesso a todos os residentes no país. É possível ter atendimento com internação, medicação grátis ou de baixo custo e exames, sem pagar nada.

Para marcar uma consulta, cada cidadão precisa fazer o cadastro no General Practitioner (GP). “É como se fosse um posto de saúde do bairro, onde um médico geral atende para depois fazer o encaminhamento para o especialista, se necessário”, esclarece. Para exames de rotina também é necessário entrar na fila de espera, o que pode demorar vários meses. 

Micheli relata que exames de rotina, comuns no Brasil, na maioria das vezes só são requisitados quando já estão com algum problema grave de saúde, pois o país não tem o costume da saúde preventiva. “Por experiência própria, nas vezes que precisei ir ao hospital ou fazer uma consulta no GP, sempre fui muito bem atendida por profissionais simpáticos e competentes, mas já escutei muitas pessoas reclamarem do atendimento e falta de conhecimento ou até má vontade por parte do médico ou enfermeiro”, relata.

 

Pratos típicos ingleses

A Inglaterra, comparada a outros países, não é famosa  na culinária. Algumas pessoas falam até que eles são péssimos na cozinha. Micheli ressalta que o prato mais típico é o fish and chips (peixe empanado frito, geralmente bacalhau, com batata frita). “Há também o English breakfast (café da manhã Inglês), um prato bem reforçado, normalmente é consumido pela manhã e é basicamente composto por feijão ao molho de tomate adocicado, ovos fritos, morcilha, linguiça frita ou assada, cogumelos fritos e tomate grelhado – tudo isso ainda acompanhado de torrada com manteiga. A bebida que acompanha o prato é o English tea, nada mais que um chá preto com leite”, diz a três-maiense.

Os ingleses também são famosos pelo chá das 5. “Nada mais que tomar chá com bolachas, macarons, muffins e outros doces. Quem vier para a Inglaterra deve pelo menos provar um desses pratos típicos”, aconselha.

Micheli em York, pequena cidade medieval no norte da Inglaterra. Algumas cenas do filme Harry Potter foram gravadas nesta cidade

 

Clima, custo de vida e transporte público

Micheli destaca que o clima é bem diferente do brasileiro, em especial no verão, o que torna difícil de acostumar. “No inverno os dias são bem curtos, frios, cinzentos, úmidos e chove muito, com raros  dias de sol.. O dia amanhece às 8 horas e entre 3h30 e 4h da tarde já está escuro, com temperatura média  entre 0 e 7 graus. Já em meados de maio os dias ficam mais longos e há mais dias de sol. “No verão a temperatura média é de 15 a 25 graus. O dia começa entre 4h30 e 5h da manhã e escurece por voltas das 22h30min. E, por estar localizado em uma ilha, também venta muito, principalmente no inverno”, complementa.

Já o custo de vida dos ingleses é bem elevado, principalmente na capital Londres, considerado um dos lugares mais caros do mundo para viver. “O aluguel é o que mais pesa no bolso, a média de 2021 era de £ 1.570 (RS 9.577,00) por um apartamento simples. Também tem a opção de um quarto  em uma casa que é dividida com mais pessoas, onde a média é de £ 700 (RS 4.305,00)”, revela.

Produtos de alimentação, material de higiene e limpeza são bem mais acessíveis se comparados aos preços praticados no Brasil. “Muitas pessoas optam por morar no interior ou cidades fora de Londres, onde o custo do aluguel é um pouco mais baixo”, conta.

A três-maiense considera o transporte público nas cidades grandes do país muito eficiente. Algumas linhas de ônibus funcionam 24 horas por dia. A passagem custa £ 1,65 por percurso, cerca de R$ 10,50. O valor é mais acessível se comparado ao Underground (metrô), que é dividido por zonas e custa £ 3,00 (R$ 19,00).

O sistema ferroviário também é muito bom no país e é uma ótima opção para quem gosta de conhecer cidades diferentes e até outros países. Em cidades menores, as pessoas optam pelo carro, pois o transporte público não é tão frequente e eficiente.

 

Família real

"A família real britânica, comandada pela Rainha Elizabeth II, é muito querida e admirada pelos ingleses. Percebe-se através da multidão de pessoas que acompanha os eventos reais, como casamentos, funerais e aniversários", observa a três-maiense.

O mais recente evento aconteceu no início do mês de junho, quando a rainha Elizabeth completou 70 anos de reinado, o Jubileu de Platina e foram vários dias de festejos. Ela é a monarca mais longeva na história do Reino Unido.

Até o momento, Micheli não assistiu pessoalmente nenhum evento real de grande proporção, porém todos os dias, principalmente no verão, é possível acompanhar a troca da guarda real em frente ao Palácio de Buckingham, que é praticamente um mini evento. "Os turistas e até mesmo os moradores locais param para admirar e assistir a troca com os guardas vestidos com túnicas vermelhas e chapéu de pelo de urso. Os soldados da nova guarda marcham até o Palácio enquanto a outra sai ao som da bandinha".

 

No momento, ficar na Europa é definitivo

Micheli não considera retornar ao Brasil, apesar de gostar muito da terra natal. “Temos todos nossos familiares no Brasil, mas muitas coisas como qualidade de vida, oferta de trabalho e poder aquisitivo nos fazem ficar por aqui, o que também não quer dizer que no futuro não podemos nos mudar para algum outro país, quem sabe para algum com clima mais parecido com o do Brasil”, comenta. 

 

Apesar de dificuldades, morar no exterior vale a pena

Mesmo com os inúmeros desafios, que começam mesmo antes do embarque, como ansiedade e preocupações com o futuro, chegar em um país sozinha, sem entender o idioma local, no início dividindo casa com desconhecidos e se virar sem a família, de acordo com Micheli só a fez crescer como pessoa; ter outra visão do mundo e em relação às pessoas. “Hoje conheço mais de 20 países e em mais da metade fui sozinha. É realmente uma experiência incrível e libertadora”, ressalta. 

Micheli aconselha que, mesmo com o frio na barriga e dificuldade de sair do comodismo, a experiência de ir morar fora do Brasil vale muito a pena. “Ter novas experiências, um novo idioma para aprender, novos desafios profissionais e pessoais, com certeza amadurecemos muito com essas experiências que levamos para o resto da vida”, conclui.

 

CURIOSIDADES DA TERRA DA RAINHA

- No país não existe interruptor dentro dos banheiros, a única tomada é a do barbeador, mas mesmo assim com um plugue especial, tudo para evitar choques elétricos devido à umidade que é constante.
- O volante é no lado direito o que no início é um pouco estranho e complicado.
- Os carros ficam na rua, as garagens normalmente são usadas como depósito.
- O tenebroso Christmas Pudding (bolo natalino) a base de rum e uvas passas, é muito ruim, mas eles adoram e não pode faltar no Natal.
- Os ingleses adoram chá e são uns dos maiores consumidores do mundo.
- São famosos pela pontualidade.
- Feriados só caem de sexta ou segunda e todos têm o mesmo nome, com
exceção do feriado da Sexta Feira Santa.
- É proibido tomar bebida alcoólica na rua.
- A polícia não usa arma de fogo, só cassetete.
- Sistema de medida é imperial e não métrico. Usamos milhas ao invés de
quilômetros, galão em vez de litros, inch para centímetros e assim por diante.
- 15 graus já é motivo para sair de roupas curtas e ir para o parque tomar sol.