A vida dos três-maienses pelo mundo afora

A partir dessa edição, o Jornal Semanal inicia uma série de reportagens especiais com três-maienses que estão residindo no exterior, seja a trabalho, estudo, ou para viverem novas experiências

A vida dos três-maienses pelo mundo afora
Samuel e Bruna com o pequeno Henry, que nasceu em dezembro na Polônia - Fotos Arquivo Pessoal

A primeira história é do casal Samuel Camargo de Souza, 35 anos, e Bruna Steise Winkelmann de Souza, 28 anos, que moram na cidade de Cracóvia, na Polônia, há 1 ano e 6 meses


A Polônia é um país localizado na Europa central. Com pouco mais de 37 milhões de habitantes, possui um passado histórico importante, pois foi palco de grandes decisões mundiais, como a assinatura do Pacto de Varsóvia, após a Segunda Guerra Mundial. 


O país também faz fronteira com a Ucrânia, que foi invadido, no último dia 24 de fevereiro, por tropas russas. Enquanto o conflito deflagrado pela Rússia deixa um rastro de destruição, morte, caos e imagens de bombardeios transmitidas em tempo real para o mundo todo, a comunidade internacional e os moradores dos países envolvidos vivem um período de incertezas. 


Para Samuel e Bruna – que hoje são pais do pequeno Henry (que nasceu em dezembro, na Polônia) –, a vida segue normalmente, mas há bastante movimentação em relação ao refugiados que começam a chegar no país. “Cracóvia fica a cerca de 250 quilômetros da Ucrânia. Nos últimos dias (até o dia 28), mais de 300 mil refugiados chegaram no país. A população polonesa tem sido bem solidária, muitas doações, muitos voluntários para auxiliar nos abrigos, na recepção e transporte dessas pessoas chegando. Mas há muitas incertezas do que irá acontecer após a guerra, se irá se espalhar e quais serão os efeitos econômicos que vão ficar. É uma situação delicada”, avalia o casal.


Confira, nessa reportagem, um pouco da história de Samuel e Bruna; as alegrias, os desafios e o dia a dia desta família que vive uma experiência incrível do outro lado do mundo.

 

‘Morar no exterior sempre foi algo planejado. Ao longo de um ano nos preparamos financeiramente e buscamos pela oportunidade ideal’, diz Samuel

Samuel Camargo de Souza é filho de Mylene da Cunha Camargo de Souza e João Carlos de Souza (em memória), tem formação em Tecnólogo em Redes de Computadores (Setrem) e é Mestre em Ciências da Computação (PUC-RS). Após o Mestrado, trabalhou como professor na Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre até ir morar nos EUA para um doutorado, o qual não concluiu. Retornou ao Brasil após um ano e meio e lecionou na Faculdade na Setrem, trabalhou na Migrate e, posteriormente, na Philips em Blumenau.


Já Bruna Steise Winkelmann de Souza, é filha de Neusa Eunice Winkelmann, e formada no Curso Técnico em Design de Moda e Superior em Tecnologia em Design de Moda, ambos na Setrem. Realizou vários cursos de aperfeiçoamento em modelagem, costura e acabamentos em Porto Alegre na escola Couture Lab; teve um ateliê de Moda Festa com uma sócia por aproximadamente oito anos em Três de Maio. E, em Blumenau, trabalhou na Cia. Hering durante o período que ela e Samuel residiram por lá.


Após Blumenau, o casal decidiu se mudar para a Polônia. Samuel conta que morar no exterior sempre foi algo planejado. “Inclusive eu já havia morado fora do país anteriormente, em caráter temporário. Ambos tínhamos vontade de construir uma oportunidade em definitivo”.


O casal optou pela Polônia pela questão profissional. “Viemos a trabalho, aqui temos uma permissão de residência e trabalho chamada de Blue Card, voltada para mão de obra altamente qualificada. Isto se aplica pois o mercado internacional para área de TI está muito aquecido; há muitas empresas interessadas em importar profissionais, inclusive pagando pelo processo de imigração. Ao longo de um ano nos preparamos financeiramente e buscamos pela oportunidade ideal, foram algumas centenas de entrevistas e uma dezena de ofertas até que optamos por uma que nos agradava”, conta Samuel. 

 

‘Nos mudamos no alto da pandemia em 2020. Trouxemos nossas três gatas e dois cachorros, e nosso primeiro filho nasceu aqui’

Samuel exerce a profissão de Engenheiro DevOps. Bruna está trabalhando como analista de dados, revisando conteúdo na HCL, uma empresa de tecnologia. “Na Polônia, a área da moda e têxtil não é tão desenvolvida, então, trabalhar na minha área de formação sem saber o polonês não foi possível”, comenta a jovem.

 
O casal se mudou para a Polônia no alto da pandemia em 2020. “A cidade inteira estava fechada em lockdown. Ao chegar tivemos que fazer 15 dias de quarentena em um apartamento fornecido pela empresa que havia me contratado. As medidas tem sido bem restritivas desde então. A vacinação evolui relativamente bem, porém a população de mais idade demorou um pouco a aceitar”, informa Samuel.


Para o casal, o maior desafio foi imigrar com os cinco pets: três gatas e dois cachorros. Eles vieram umas semanas depois que o casal já estava instalado na nova residência. “Foi uma longa viagem que despendeu de muita organização. Eles foram de Três de Maio a São Paulo de van, de avião até Frankfurt. Depois, fomos até a Alemanha de carro para buscá-los e trazê-los para a Polônia”.

 

‘Maiores diferenças são o clima e o idioma’

As maiores diferenças entre o Brasil e a Polônia são o clima e o idioma. As quatro estações são bem definidas, com invernos rigorosos. A menor temperatura que o casal já enfrentou foi no inverno passado, com 20 graus negativos. “Mas a temperatura não chega a ser tão baixa, a média é entre 5 e 10 graus negativos. Aqui temos roupas e calçados específicos, então não é difícil de enfrentar a neve e as baixas temperaturas”.


No verão, não é muito quente. O pico fica em torno de 33ºC, mas a média é 28ºC. Exceder os 30ºC não é algo comum.


Sobre o idioma, o casal destaca que o polonês é difícil de aprender. “Aqui as pessoas também são mais reservadas, o que dificulta conhecer pessoas e fazer amizades. Quanto à alimentação, a base da culinária polonesa é carne de porco e batatas (que estão  praticamente em todas as refeições). Então não tivemos dificuldade em nos adaptar; pois se encontra de tudo, até erva-mate”. 
Ainda sobre o idioma, utilizar o serviço público, por exemplo, é sempre um desafio e que muitas vezes recorrem ao tradutor. “Nem sempre há alguém que fale inglês, então, pode ser uma caixinha de surpresas. Serviços médicos também são um grande desafio, o atendimento público por aqui é muito bom, mas apesar de quase sempre receber atendimento em inglês, todos os laudos e documentação são emitidos em polonês”, explicam.

 

Opção entre home office e trabalho presencial

Samuel está trabalhando de casa (devido à pandemia) e Bruna está em licença maternidade.

Samuel conta que desde que chegou à Polônia, nunca trabalhou do escritório da empresa. 

“Chegamos em agosto de 2020 e a pandemia estava no auge, e, desde então, eu tenho trabalhado em casa. As políticas ainda permitem o home office. E mesmo os lugares que estão com regras mais flexíveis, dão oportunidade para as pessoas escolherem se querem permanecer em casa ou trabalhar presencialmente no escritório”. 


O casal mora no subúrbio da cidade próximo a uma floresta, onde pode fazer caminhada e levar os pets para passear. 


“Nossa rotina agora está focada em cuidar do nosso filho, o que acaba tomando mais tempo. A cidade é bem turística, há sempre bastante movimento, feiras e atividades para fazer. Além de uma grande quantidade de restaurantes e cafés para passear”.

 

Nos momentos de lazer, o casal aproveita para desfrutar dos belos cenários da região

 

A descoberta da gravidez e a chegada do primeiro filho

A adaptação do casal à essa nova vida vem sendo uma grande conquista, mas, certamente, a maior conquista deles é o filho Henry, que nasceu em dezembro de 2021.


Bruna conta que descobriu que estava grávida quando estava fazendo processo seletivo para trabalhar. “O povo polonês é muito receptivo com as mulheres e mães. Fui contratada mesmo estando grávida. Foi super tranquilo. Trabalhei em home office”, destaca.


A licença maternidade tem um diferencial com relação ao Brasil. Exclusiva para a mãe, ela é de 20 semanas, em torno de cinco meses. E, depois deste período, existe ainda a licença parental, de mais sete meses, que pode ser tirada (pelo pai ou pela mãe) ao longo dos seis primeiros anos de vida da criança.


O casal optou para que Bruna usufruísse de toda a licença parental. “No total, vai fechar um ano de licença maternidade. E o valor da licença, mesmo eu sendo estrangeira, tenho permissão de trabalho e os mesmos direitos dos residentes daqui. O salário é pago metade pela empresa e metade pelo governo”.

 

Sistema de saúde público e programas de governo

“Não se compara a saúde daqui com a do Brasil. Temos plano de saúde porque a empresa fornece. Mas os hospitais daqui, que são muitos, são todos públicos. Não tem um grande hospital privado aqui na Cracóvia. Tem algumas clínicas, para pequenos tratamentos. Por exemplo, tivemos o Henry, e eu pude escolher o hospital onde ele ia nascer, onde me senti confortável. Todo o parto, os procedimentos, tudo foi gratuito. Todo serviço é muito bom, com qualidade. Inclusive o pediatra que atende no plano é o mesmo que atende no público”, explica Bruna.


Como possui permissão de trabalho, o casal tem direito a todos os serviços públicos e aos programas de governo. “A gente contribui com o ZUS, que é equivalente ao INSS no Brasil. Somos empregados e contribuímos com a seguridade social da Polônia, o que inclui saúde e demais serviços. E eles oferecem muitos programas de incentivo para quem tem filhos”.


O incentivo à natalidade é uma realidade, pois o país tem uma taxa de nascimentos relativamente baixa, e a população está envelhecendo bastante e não está renovando ao mesmo passo. “Existem programas sociais específicos (são mais de 10), com benefícios financeiros e de toda ordem para incentivar as pessoas terem filhos. E são programas que atendem a todas as faixas da população, não somente as pessoas carentes. Além dos programas, eles têm, por exemplo, passe de ônibus familiar, entre outros benefícios. São pequenas coisas que somadas no todo, trazem muita vantagem para quem vai ter filho aqui”, informam. 


Contudo, Bruna conta que o estrangeiro que não tem permissão de estar no país legalmente, não pode usufruir dos programas e recursos governamentais. “A principal diferença daqui com a saúde pública brasileira é que ela não é universal como o SUS. Por exemplo, se tu for um estrangeiro de férias no Brasil, tu vai ser atendido pelo SUS, mas aqui na Polônia, não é bem assim. Você vai ser atendido, mas vai precisar restituir, ou seja, vai ser cobrado por aquilo que foi gasto”, observa.

 

Alto padrão de vida e serviços mais qualificados

Segundo o casal, a maioria dos serviços é prestado por trabalhadores formais. “Diferentemente do Brasil, aqui é muito difícil encontrar serviços simples, informais. Se você quiser contratar alguém para limpar sua casa, ou um eletricista, ou uma babá, por exemplo, se contrata uma empresa, com prestação de serviço estipulado previamente, pago por hora. Nem se compara ao Brasil que tem uma grande oferta, por exemplo, de salão de beleza (manicure, pedicure, corte de cabelo). Aqui é tudo muito caro. Mas os serviços são muito qualificados”.


Sobre a diferença entre ricos e pobres, Bruna compara que na Polônia não se vê desigualdade social. “As pessoas estão todas na média ou acima. O padrão e a qualidade de vida são altos. Hoje o salário mínimo polonês equivale a 4.500 reais (são 3.000 zloty), e normalmente as pessoas ganham mais que um salário mínimo. O valor, praticamente, se equivale ao real. O que gastaria com um real no Brasil gastaria com um  zloty aqui. Por exemplo, seis reais o litro da gasolina, seis zloty na Polônia”, cita. 


A jovem destaca que na Polônia se consegue comprar coisas que no Brasil são caras e lá são triviais. “A qualidade do que consumimos aqui é mais alta. Tem grande variedade de comida; você encontra tudo o que precisa. Encontramos guaraná Antartica, farinha de mandioca, produtos brasileiros. A um preço um pouco mais caro, mas acessível”, informa. 


Por outro lado, Samuel revela que o custo da moradia é algo negativo. “Na Europa como um todo, é um problema, é mais caro. Aqui quem vive de aluguel gasta em torno de 40% da renda com moradia. Nos mudamos para cá, viemos com duas malas e nossos bichinhos. A casa que alugamos estava mobiliada, cozinha completa, máquina de lavar roupa, quarto, roupeiro; a casa estava praticamente com tudo dentro. Mas, o ponto é que a moradia, água, luz, gás, internet, acabam sendo mais caros, mas a qualidade de vida é superior. E a gente não se importa porque acabamos usufruindo dos benefícios, aproveitando o que estamos pagando”, afirma o casal.

 

Sistema educacional e o futuro de Henry

Sobre o futuro do filho Henry na questão escolar, o casal diz que ainda não sabe exatamente como fazer, pois terão tempo para planejar. “Existe a opção de colocar numa escola polonesa normal, no ensino público convencional, que é muito bom, mas daí obrigatoriamente o idioma é polonês. Outra opção são as escolas internacionais, onde a primeira língua é o inglês, com grade curricular em inglês; e os alunos aprendem o polonês como segunda língua. O Henry vai ter que aprender polonês, e nós também. Mas as escolas onde o inglês é primeira língua são pagas. E isso se aplica inclusive para creches”, explicam Samuel e Bruna.

 

Mudança em definitivo, com interesse em permanecer na Europa

Mesmo com a saudade de estar perto da família e amigos, o casal –  que quer visitar Três de Maio ainda este ano – não pretende voltar a residir  Brasil. “Nossa mudança é em definitivo, temos permissão de residência no país (Polônia). Temos interesse em permanecer pela Europa e talvez residir em outros países também”, afirmam.


Sobre morar e viver no exterior, Samuel e Bruna aconselham: “a vida fora do país é menos glamourosa do que parece, exige muitos sacrifícios e muita organização, especialmente em um país onde você não é fluente no idioma mais falado. Mas mesmo assim, a experiência é incrível e é mais acessível do que parece. Todas as informações estão disponíveis na internet e existem várias formas de se construir uma oportunidade assim”, concluem.

 

O casal mora no subúrbio da cidade próximo a uma floresta, onde pode fazer caminhada e levar os pets para passear