Ano XX - EDIÇÃO 1114

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DO LEITOR

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Semana Nacional da Pessoa com Deficiência: algumas reflexões

A construção de um novo cenário social que possa retomar e tornar possíveis as promessas não cumpridas ainda dos séculos XIX e XX encontra “matéria-prima” especialmente no terreno educacional, por onde gerações passam e produzem, na interação com os diferentes saberes, conhecimentos que possam sustentar o convívio em sociedade e recriar as condições humanas com dignidade, respeito e solidariedade.
Não por acaso, em 1990, o foco dos debates em busca de sustentabilidade se dá na seara da educação, quando se assume, mais uma vez, o compromisso de educação para todos. Parece que o entendimento de que, via educação, as transformações são mais viáveis, tem levado autoridades e organismos internacionais a dispensarem especial atenção a esse setor da sociedade, talvez com demasiada responsabilidade.
Como lugar de diversidade por excelência, a escola mais uma vez é chamada ao acolhimento de todos indiscriminadamente. Esse chamado encontra eco nas incontáveis bandeiras de lutas que há séculos clamam por respostas positivas. Contudo, o propósito que parecia atender antigas reivindicações acaba por “mexer” em territórios quase intocados, quer sejam os espaços que trataram de forma segregada a oferta de educação especial à parcela da população com deficiência que, por exigir condições de aprendizagem diferente das convencionalmente oferecidas nas escolas, a ela, não teve acesso.
É inegável que a criação desses espaços (como as Apaes na década de 50) teve o propósito de suprir a falta de atenção a essas pessoas, especialmente no âmbito educacional e, por isso, nunca deixou de ser pauta de reivindicações pelo reconhecimento de direitos sociais, mas principalmente pelo acesso à educação.
Como todas as conquistas sociais, esta também, ainda que tardiamente, encontra hoje possibilidade de concretização. No entanto, inversamente ao esperado, tal proposta parece não ter sido acolhida com louvor. Ao contrário, um movimento de resistência se instala e o processo de construção de uma sociedade e uma escola inclusiva enfrenta barreiras a sua implementação. Por um lado, a escola regular/comum, temerosa pela dissolução de um modelo de educação que, embora provocador de queixas e críticas, é o que se tem e se sustenta. Por outro, as escolas de Educação Especial que temem ver suas ações obsoletas e suas especialidades dispensadas ou até incorporadas a outras instâncias.
Momento de difícil resolução. Crise instalada. Sem dúvida, um desafio enorme a ser enfrentado e que exige um grau de transformação significativo das escolas, dos professores, das famílias, da sociedade como um todo. Contudo, finalmente, essa situação nos coloca numa única condição, qual seja, trabalhar juntos, de forma colaborativa, compartilhando experiências, conhecimentos, desconhecimentos, medos e ousadias, criando estratégias que possam contribuir com todos aqueles que precisam ter suas necessidades específicas atendidas e aqueles que podem oferecer condições para que isso se efetive. Não podemos negar que se trata de um grande momento na história da constituição social da humanidade, uma vez que nunca houve uma escola, de fato, para todos.
Diante disso, somos impelidos a repensar nossas resistências e temores frente a uma proposta que, finalmente, apresenta respostas às nossas buscas históricas. É compreensível que se tenha sensação de estruturas abaladas, porém, se tivemos persistência e coragem para manter uma luta por tanto tempo, há que se encontrar recursos individuais e coletivos para modificar concepções e ações de forma a atender às demandas provenientes de um sonho que se torna realidade. Talvez seja necessário trocarmos as lentes embaçadas para ter clareza e nitidez no olhar. Assim, poderemos ver os traços do desenho humano sem que, necessariamente, esteja dentro de uma moldura. Olhar/ver o ser humano a partir de sua essência e não da condição da deficiência.

Jane Teresinha Donini Rodrigues
Moacir Juliani
Professores

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