Ano XX - EDIÇÃO 1114

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O conceito de morte
para as crianças

Com certeza uma das maiores dificuldades de alguns pais é responder às perguntas que seus filhos fazem sobre a vida e sobre a morte. Crianças tentam compreender e elaborar a morte, questionando familiares com perguntas difíceis de responder, mas é preciso dar atenção e informações reais a elas sobre o luto.
Quando alguém da família de uma criança morre, ainda que se tente omitir ou negar, ela irá perceber por meio das atitudes transformadas dos familiares. O fato é que cedo ou tarde ela saberá. Omitir a verdade seria algo grave. Estaria ela excluída da família só porque acreditamos que ela não seja capaz de entender a situação.
O que o adulto não sabe é que as crianças questionam sem angústia a respeito da morte até cerca de três anos. Somente por volta dos seis ou sete anos de idade é que esta questão começa a aparecer, já que existem animais que morrem em torno delas, elas ouvem histórias ou conversas que envolvem a morte. O conceito de que as coisas acabam, e que os limites existem, já estão estabelecidos desde muito cedo.
Muitos adultos acreditam que a criança não entende nada sobre a morte e deve ser poupada de saber que alguém próximo a ela morreu. Quando a criança perde uma pessoa querida de sua família, como pai, mãe, irmão ou irmã, avós, ela fica triste, confusa. Ocorre que esta mesma morte é sofrida por seus familiares, que, doloridos, estão sem condições de manter a intensidade de cuidado e atenção que antes dirigiam a ela. O importante é que, passado este momento de crise, ela volte a sentir-se segura e bem cuidada.
Nas semanas seguintes à perda, as crianças podem apresentar tristeza profunda. No entanto, evitar mostrar tristeza ou persistir em longo prazo negando a morte de seu familiar querido poderá vir a ter sérios problemas no futuro. “A raiva após a morte de alguém essencial para a segurança da criança é uma reação esperada que pode se manifestar por meio de comportamento irritadiço, pesadelos, medos ou agressão dirigida aos familiares sobreviventes. De qualquer maneira, sabemos que a reação da criança ao luto está bastante relacionada à forma como os pais ou pai sobrevivente e outros parentes abordarão esta questão com ela nas semanas e meses que sucederão a perda”. (NUNES, 2004).
A criança deve ficar à vontade para exprimir os seus sentimentos. Não devemos obrigá-la a ir ao enterro ou velório caso ela esteja assustada. Já, caso ela manifeste desejo de participar do velório ou enterro, informe-a sobre o que verá, explique a razão de estarem ali, deixando-a livre para perguntar e para ficar o tempo que desejar. O melhor a fazer seria “conversar com a criança, procurando ser o mais honesto possível. Falar em céu ou que o morto foi viajar pode criar a falsa expectativa de que regressará, dificultando o entendimento da perda como algo definitivo.” (PAPALIA. OLDS, 2000, p.365).
Segundo Papalia (2000), entre cinco e nove anos a morte é percebida como irreversível, mas não como algo natural e universal. Nesta idade, as crianças não conseguem imaginar que elas ou alguém próximo possa morrer. Somente entre nove e dez anos a morte passa a ser percebida como uma interrupção das atividades dentro do corpo, que faz parte da vida, que é natural. Para que a criança compreenda a morte, com os recursos que sua idade permite, ela não deve ser excluída da experiência da perda. Isso faz com que ela perceba a realidade. Naturalmente, essa realidade será a que a criança puder fazer, encontrando comportamentos e ações que deem um significado à perda.
Piaget (1964) divide o desenvolvimento intelectual da criança em quatro grandes estágios sequenciais: a) sensório-motor (0-2 anos), no qual ainda não há um conceito formado sobre morte; b) pré-operacional (2-7 anos), em que a morte é reversível; c) operacional concreto (7-11 anos), em que a morte é irreversível, com explicações fisiológicas e d) operacional formal (a partir dos 11-12 anos), quando a morte é irreversível, universal, pessoal, mas distante; as explicações são de ordem natural, fisiológica e teológica.
Segundo Bromberg (2000, p. 60), o luto infantil é frequentemente considerado um fator de vulnerabilidade a muitos distúrbios psicológicos na vida adulta. Esses distúrbios vão desde a excessiva utilização de serviços de saúde, por tê-la, com frequência, debilitada, até aumento no risco de distúrbios psiquiátricos. Ele ainda nos lembra que na infância, há visíveis consequências da perda com má resolução, como ansiedade persistente, medo de outras perdas (principalmente de um dos pais), medo de morrer também, culpa persistente, hiperatividade, cuidados compulsivos, euforia e despersonalização. “A intensidade com que esses traços vão tomar forma está estreitamente vinculada às condições do ambiente, quanto a serem favoráveis ou não a um curso saudável do luto. É importante assinalar que as condições do funcionamento familiar contribuem para a qualidade da elaboração do luto”. (BOWLBY, 1981 citado por BROMBERG, 200).
A conclusão de uma conversa franca com uma criança, sobre a morte, sem medo, tem sempre um tom positivo. Só o fato de estar perto, falando a respeito e ouvindo, já é positivo. Não devemos ficar escondendo este fato delas ou então inventando determinadas histórias para justificar o ocorrido. Todos os seres humanos aceitam a morte de uma forma singular. Devemos respeitar, no mínimo, a maneira que as crianças encontram para superar o momento da morte. Elas têm perguntas e buscam o conhecimento, e nós, adultos, que muitas vezes acreditamos que sabemos muito, ouvimos delas as melhores respostas para as perguntas que não saberíamos responder.

Tamara Raquel Fim
Estudante do curso de Psicologia, 8º semestre - Unijuí

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