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O
conceito de morte
para as crianças
Com certeza uma das maiores dificuldades de alguns pais é responder às
perguntas que seus filhos fazem sobre a vida e sobre a morte. Crianças
tentam compreender e elaborar a morte, questionando familiares
com perguntas difíceis de responder, mas é preciso
dar atenção e informações reais a elas
sobre o luto.
Quando alguém da família de uma criança morre,
ainda que se tente omitir ou negar, ela irá perceber por
meio das atitudes transformadas dos familiares. O fato é que
cedo ou tarde ela saberá. Omitir a verdade seria algo grave.
Estaria ela excluída da família só porque
acreditamos que ela não seja capaz de entender a situação.
O que o adulto não sabe é que as crianças
questionam sem angústia a respeito da morte até cerca
de três anos. Somente por volta dos seis ou sete anos de
idade é que esta questão começa a aparecer,
já que existem animais que morrem em torno delas, elas ouvem
histórias ou conversas que envolvem a morte. O conceito
de que as coisas acabam, e que os limites existem, já estão
estabelecidos desde muito cedo.
Muitos adultos acreditam que a criança não entende
nada sobre a morte e deve ser poupada de saber que alguém
próximo a ela morreu. Quando a criança perde uma
pessoa querida de sua família, como pai, mãe, irmão
ou irmã, avós, ela fica triste, confusa. Ocorre que
esta mesma morte é sofrida por seus familiares, que, doloridos,
estão sem condições de manter a intensidade
de cuidado e atenção que antes dirigiam a ela. O
importante é que, passado este momento de crise, ela volte
a sentir-se segura e bem cuidada.
Nas semanas seguintes à perda, as crianças podem
apresentar tristeza profunda. No entanto, evitar mostrar tristeza
ou persistir em longo prazo negando a morte de seu familiar querido
poderá vir a ter sérios problemas no futuro. “A
raiva após a morte de alguém essencial para a segurança
da criança é uma reação esperada que
pode se manifestar por meio de comportamento irritadiço,
pesadelos, medos ou agressão dirigida aos familiares sobreviventes.
De qualquer maneira, sabemos que a reação da criança
ao luto está bastante relacionada à forma como os
pais ou pai sobrevivente e outros parentes abordarão esta
questão com ela nas semanas e meses que sucederão
a perda”. (NUNES, 2004).
A criança deve ficar à vontade para exprimir os seus
sentimentos. Não devemos obrigá-la a ir ao enterro
ou velório caso ela esteja assustada. Já, caso ela
manifeste desejo de participar do velório ou enterro, informe-a
sobre o que verá, explique a razão de estarem ali,
deixando-a livre para perguntar e para ficar o tempo que desejar.
O melhor a fazer seria “conversar com a criança, procurando
ser o mais honesto possível. Falar em céu ou que
o morto foi viajar pode criar a falsa expectativa de que regressará,
dificultando o entendimento da perda como algo definitivo.” (PAPALIA.
OLDS, 2000, p.365).
Segundo Papalia (2000), entre cinco e nove anos a morte é percebida
como irreversível, mas não como algo natural e universal.
Nesta idade, as crianças não conseguem imaginar que
elas ou alguém próximo possa morrer. Somente entre
nove e dez anos a morte passa a ser percebida como uma interrupção
das atividades dentro do corpo, que faz parte da vida, que é natural.
Para que a criança compreenda a morte, com os recursos que
sua idade permite, ela não deve ser excluída da experiência
da perda. Isso faz com que ela perceba a realidade. Naturalmente,
essa realidade será a que a criança puder fazer,
encontrando comportamentos e ações que deem um significado à perda.
Piaget (1964) divide o desenvolvimento intelectual da criança
em quatro grandes estágios sequenciais: a) sensório-motor
(0-2 anos), no qual ainda não há um conceito formado
sobre morte; b) pré-operacional (2-7 anos), em que a morte é reversível;
c) operacional concreto (7-11 anos), em que a morte é irreversível,
com explicações fisiológicas e d) operacional
formal (a partir dos 11-12 anos), quando a morte é irreversível,
universal, pessoal, mas distante; as explicações
são de ordem natural, fisiológica e teológica.
Segundo Bromberg (2000, p. 60), o luto infantil é frequentemente
considerado um fator de vulnerabilidade a muitos distúrbios
psicológicos na vida adulta. Esses distúrbios vão
desde a excessiva utilização de serviços de
saúde, por tê-la, com frequência, debilitada,
até aumento no risco de distúrbios psiquiátricos.
Ele ainda nos lembra que na infância, há visíveis
consequências da perda com má resolução,
como ansiedade persistente, medo de outras perdas (principalmente
de um dos pais), medo de morrer também, culpa persistente,
hiperatividade, cuidados compulsivos, euforia e despersonalização. “A
intensidade com que esses traços vão tomar forma
está estreitamente vinculada às condições
do ambiente, quanto a serem favoráveis ou não a um
curso saudável do luto. É importante assinalar que
as condições do funcionamento familiar contribuem
para a qualidade da elaboração do luto”. (BOWLBY,
1981 citado por BROMBERG, 200).
A conclusão de uma conversa franca com uma criança,
sobre a morte, sem medo, tem sempre um tom positivo. Só o
fato de estar perto, falando a respeito e ouvindo, já é positivo.
Não devemos ficar escondendo este fato delas ou então
inventando determinadas histórias para justificar o ocorrido.
Todos os seres humanos aceitam a morte de uma forma singular. Devemos
respeitar, no mínimo, a maneira que as crianças encontram
para superar o momento da morte. Elas têm perguntas e buscam
o conhecimento, e nós, adultos, que muitas vezes acreditamos
que sabemos muito, ouvimos delas as melhores respostas para as
perguntas que não saberíamos responder.
Tamara
Raquel Fim
Estudante do curso de Psicologia, 8º semestre - Unijuí
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