
Cartórios
...
Eu
não queria escrever sobre isto. Relutei aos convites
de alguns amigos editores de jornais da região quando
me pediram para falar sobre o assunto. Mas agora estou convencido
de que o espaço que utilizo na mídia regional é o
melhor local para publicar alguns pontos sobre a polêmica
nacional em torno dos cartórios no Brasil.
Na semana passada foi manchete de vários telejornais
(entre eles o Jornal Nacional) que o Conselho Nacional de Justiça
em Brasília declarou como vagos mais de 5.500 cartórios
no Brasil, ordenando a imediata abertura de concurso público
para o preenchimento das vagas, no prazo máximo de seis
meses. Entre os argumentos apresentados, o principal é de
que estes cartórios estavam sendo ocupados por pessoas
não qualificadas e que não prestaram concurso
público. Toda a mídia aproveitou para bater nos
cartórios. Chegou-se a dizer que alguns cartórios
faturam R$ 5 milhões por mês. Nossa !! Você que
está lendo esta coluna, aqui no interior do RS, pense
no cartório da sua cidade. Consegue imaginar isso? Claro
que não. Provavelmente estão falando de algum
cartório em São Paulo ou Rio de Janeiro, bem
localizado no centro da capital, que tem uma estrutura enorme
que deve manter com o seu faturamento, como se fosse uma empresa.
Não é o nosso caso, aqui no RS, ainda mais no
Interior.
Mesmo assim, um fato é curioso. Em janeiro, o Conselho
Nacional de Justiça declarou como vagos mais de 7.800
cartórios. Agora a lista baixou: são 5.500. Porém,
a impressão que passa é que devemos somar as
duas listas, porque a notícia é sempre bombástica.
O correto seria anunciarem “baixou a lista de cartórios
vagos”, mas esta notícia não dá Ibope.
Mas por que a lista foi reduzida em mais de 2 mil cartórios?
Por que eles estão regulares, claro! Aqueles que estão
redigindo a lista, que não é a pessoa do ministro,
mas certamente os seus assessores, não estão
trabalhando com a devida cautela. Só para confirmar
o que estou dizendo, a lista de segunda-feira passada já baixou
de novo. O próprio conselho, de ofício, publicou
na sexta-feira correções argumentando que não
havia examinado corretamente a documentação e
que alguns cartórios da lista estavam, sim, providos
corretamente. Ontem (quarta-feira), novas correções
ocorreram, baixando ainda mais a lista.
Mas, afinal, existem ou não cartórios vagos,
aptos ao concurso público? Claro que sim, mas não
todos da lista. E o que todos nós queremos é a
abertura de edital de concurso público, com certeza,
mas dos cartórios que estão realmente vagos.
Declarar vagos cartórios que estão regulares
atrasa todo o processo de concurso, pois gera uma série
de demandas judiciais por parte daqueles que já fizeram
concurso e que apareceram na lista. O próprio Tribunal
de Justiça do RS, que é considerado com um dos
melhores tribunais do país, não concorda com
a decisão do Conselho Nacional de Justiça e recorreu
da decisão que declarou vagos alguns cartórios
gaúchos. O recurso foi assinado pelo próprio
presidente, desembargador Léo Lima. Afinal, todas as
nomeações dos atuais titulares de cartório
passam pelo Tribunal de Justiça, e dizer que os cartórios
regulares estão irregulares é praticamente desmoralizar
o Judiciário gaúcho. Por isso, o que estamos
assistindo agora é a Justiça gaúcha recorrendo
de uma decisão do Conselho Nacional de Justiça
(é a Justiça recorrendo de um ato da própria
Justiça). A lista de cartórios vagos no RS deve
referir-se somente àqueles cartórios que realmente
não foram preenchidos por concurso público, onde
o atual responsável está respondendo pelo ofício
em razão da aposentadoria do titular ou do seu falecimento.
Estes são os cartórios vagos que certamente irão
a concurso. Aliás, o último concurso gaúcho
(e o RS realiza concurso público, ao contrário
de outros estados que não os realizam) ocorreu em 2004,
com a posse de mais de 100 colegas até o ano de 2007.
Está previsto para breve um novo edital, mas a decisão
do conselho pode acabar atrapalhando, em razão dos seus
erros.
Cartórios são locais onde a segurança
jurídica é o produto final. Se você é daqueles
que acredita que o mundo seria melhor sem cartórios,
saiba que eles existem em mais de 100 países e que é um
sistema necessário para a vida em sociedade. Experimente
comprar um carro ou uma casa e não documentá-los.
Ou ter um filho e não registrá-lo. Ou até mesmo
ter um cheque sem fundos e não ter onde protestá-lo.
Um mundo sem cartórios seria bom para os chamados, popularmente,
de “roleiros”, onde você sempre corre o risco
de ser enganado.
Das
minhas leituras da madrugada:
A injustiça que se faz a um é a ameaça
que se faz a todos”.
(provérbio chinês)
Um
ótimo fim de semana a todos!!
Oficial
do Registro de Imóveis e Tabelião de Protestos
Pós-Graduado em Direito Notarial e Registral
Secretário da Associação dos Notários
e Registradores do Brasil (RS)
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Marcos Salomão é colunista de 17 jornais
da região Noroeste.
A relação completa dos jornais poderá ser
conferida em nosso site www.marcossalomao.com.br