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140
ANOS
Em
notícias divulgadas na semana passada nos principais jornais
do país e, também, através da televisão,
o Brasil soube que a CBF, a título de prêmio, distribuirá 24
milhões de reais aos vinte e três jogadores convocados
para a Copa do Mundo, na África, e mais o técnico
Dunga, se a equipe conquistar o hexacampeonato mundial de futebol.
Um milhão de reais para cada um! Para alguns dos jogadores
esta cifra não foi exatamente uma motivação
material significativa, pois que, conforme os bastidores do mundo
do futebol, permanecendo em seus times, especialmente os da Europa,
onde atuam como profissionais, ganhariam bem mais do que isso.
Todavia, para a grande massa de brasileiros, hoje bem maior do
que os “noventa milhões em ação, prá frente
Brasil” de 1970, quando a Seleção Canarinho
conquistou a copa no México, esse valor passa despercebido
pelo simples fato de que tal soma está tão fora de
suas realidades, que a possibilidade de alcançá-la
está totalmente descartada. Daí que não se
avalia seu significado em termos de valores reais; ele não é quantificado.
Fala-se em um milhão de reais, como se estivéssemos
falando de algo surreal, ou de algo que se sabe que existe, mas
não é “pro nosso bico”.
Refazendo um pequeno exercício de matemática, com
multiplicações, divisões e “noves fora”,
esse valor, grosso modo, seria conquistado por uma família
de brasileiros de quatro pessoas, todos trabalhando, e ganhando,
cada um, em torno de R$ 595,00 (pouco mais de um salário
mínimo) por mês – veja que o ganho familiar
seria de nada desprezíveis R$ 2.380,00 por mês – ao
longo de 35 anos de trabalho. Ou, de outra forma, se um brasileiro
ganhasse R$ 595,00 por mês, precisaria trabalhar 140 anos
para ganhar o mesmo 1 milhão de reais que os nossos “galácticos” podem
conquistar em um mês. E fazendo o quê? Jogando futebol,
que é o que a maioria dos brasileiros faz de graça,
para se divertir em combinados noturnos ou, especialmente, nos
finais de semana, a título de lazer.
Evidentemente há aqueles mais fanáticos e afoitos
que defendem com inexorável paixão tal premiação,
conspirando, sem o saber, contra as suas próprias mazelas
e precariedades de vida. É a alienação promovida,
com muita sutileza, com a velha máxima romana de “pão
e circo” ao povo para mantê-lo domesticado. E cego!
Note-se que, de fato, não se produz nenhum bem material,
que agregue valor, que alavanque a economia, que venha a trazer
algum benefício ao povo. Nada! É para jogar futebol.
Essa realidade é a expressão máxima da discrepância
entre o lógico e o razoável e escancara a tepidez
de um povo ante uma das maiores injustiças sociais, endossadas
por ele mesmo; com a sua própria chancela.
Parafraseando Napoleão Bonaparte, quando da conquista do
Egito, em 1798, disse aos seus soldados, perfilados ao longo do
Nilo: “Do alto destas pirâmides, quarenta séculos
vos contemplam”, lanço este mesmo grito ao povo brasileiro,
a todos nós, e digo: “Do alto destas chuteiras cinco
copas vos contemplam”, sugerindo o gáudio de uns pouquíssimos
em detrimento da obtusa visão da realidade da grande maioria
de nossos conterrâneos, que se alegram em sua mediocridade
cultural e material, venerando alguns jogadores que os desprezam
e ignoram, mas representam o ideal de vida. Contentam-se, na verdade,
com tão pouco. Deve ser uma maravilha administrar um país
com um povo tão dócil, míope e despreocupado
com perspectivas próprias de mudança e renovação.
Pão e circo... e com o nosso dinheiro! A propósito,
o que são 140 anos?
Franz
Roedel
Administrador.
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