Ano XX - EDIÇÃO 1105

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JOÃO SENO BACH

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À GUISA DE COMENTÁRIO – O MUNDO É UMA BOLA – Tem fogo dentro da bola, ardendo não sei há quantos milhões de anos e o combustível não se acaba. Por fora da bola há convulsões. Há terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, maremotos, enchentes, temporais, tornados, ciclones extratropicais. Há fome por toda parte. Há violência de todos os gêneros. Há falta de justiça e sobra desrespeito às leis. Falta segurança e grassa o medo por toda parte. Falta moradia e sobra ousadia. A bola gira com uma velocidade incrível, mas parece que não sai do lugar. Mas tudo calculado milimetricamente. Quem cuida dessa engenharia deve ser um crânio. Ninguém sabe ou ninguém quer declinar o nome dele. Não é Galileu Galilei, não. Às vezes, nós humanos ficamos com medo que essa bola vai se espatifar. Outras vezes achamos que esta bola vai pegar fogo. Nada sabemos sobre de como esta bola nos vai levar ao último destino. É uma incerteza vertical que nos deixa todos apavorados. O jeito é rodar junto e aguentar tudo o que vem pela frente.
A VACA RAQUEL – Pois é, dias atrás, 12, 13 e 14 de maio, fiz uma incursão à serra gaúcha – na verdade, foi a segunda incursão em companhia do divertidíssimo Pato Roberto – para conhecer melhor a lição sobre a produção racional e tecnológica do leite. Em Farroupilha, na localidade de Linha Paese, fomos conhecer a Granja Tang, onde vi com estes meus olhos a vaca Raquel, multicampeã morfológica. Além da vaca Raquel, outra vaca da granja já produziu 100 mil litros de leite. Vi e ouvi belezas sobre a produção de lei da boca do professor Itamar – o proprietário da Granja Tang. Aquela propriedade nada sofisticada, totalmente convencional, produz por dia 1.100 litros de leite. Produto de 30 vacas holandesas. Façam a conta: mais de 35 litros média vaca/dia. Um prodígio. Comercializa o leite a R$ 0,79. Nova conta para apurar o resultado financeiro do mês. E a conclusão vem: dá para viver do leite, quando bem trabalhado.
NOVA PETRÓPOLIS TAMBÉM DÁ LEITE – Quem diria, um município voltado para o turismo produzindo leite. É Nova Petrópolis, vizinha de Gramado, onde prosseguiu a nossa incursão serrana. Nova Petrópolis é um caso isolado no Estado: mistura de turismo com produção primária, com alta diversificação. Ali se produz, além do leite, também, de forma racional e o uso da tecnologia, frutas, aves, suínos e há muitas lavouras bonitas – bota bonito nisso! – de milho. Há quem também produza hortigranjeiros e batatas. Resultado: todos vivem bonito e não há submoradias ou favelas.
UMA VISITA À COOPERATIVA PIÁ – A direção da Cooperativa Agropecuária Nova Petrópolis Piá Ltda. nos recebeu com cortesia. O seu presidente, Vítor Affonso Grings, foi muito gentil e nos deu aulas de cultura leiteira. Aquela cooperativa, fundada em 1967, tem atualmente três mil associados e coleta e industrializa 500 mil litros de leite diariamente na unidade industrial, sediada na área urbana de Nova Petrópolis, dos quais 300 mil litros são produzidos pelos associados, que recebem assistência permanente, conforme nos relatou o veterinário Osmar Knye, também muito fértil em explicações e dados. A média de produção dos associados atinge 18 litros leite/dia e 5.400 litros de leite/vaca/ano. A cooperativa tem um raio de ação em 80 municípios. Um modelo, sem dúvida.
ELA NÃO SABIA NADA SOBRE LEITE E VACAS – A direção da Cooperativa Piá nos indicou para visitar a Granja Pottratz, na localidade de Linha Brasil, tocada pela família: Flávio, Simoni e o velho pai Silvino. Tudo começou com três vacas. Hoje, são 46 animais, dos quais 18 vacas lactantes, que produzem entre 600 e 650 litros a cada dois dias, conforme Flávio nos mostrou as anotações do leiteiro. Isso significa cerca de 18 litros vaca/dia. Recebem, no momento, R$ 0,65 pelo litro do produto. “Nós vivemos do leite, pagamos as prestações de um trator, de um resfriador de 1.000 litros e o colégio de duas filhas”, lembrou Flávio entusiasmado. A esposa do Flávio, dona Simoni, também contou sua história: “Eu não sabia nada sobre vacas, me criei na cidade, mas, hoje, sei tudo de vaca e leite, porque fiz muitos cursos”, falou orgulhosa. Tem jeito de quem sabe administrar.
UMA SIGLA PARA DAR CERTO – Lá na serra gaúcha – deve ter sido em Nova Petrópolis – aprendi uma sigla e o Pato Roberto não me deixa mentir: CIA. C - significa Conhecimento; I – Interesse e A – Adoção. Esta sigla tem que ser aplicada, quando alguém quer se dedicar à produção de leite. Quem não conhece nada sobre leite e vacas não pode se meter. Precisa o produtor ter todo interesse possível do mundo na sua atividade. E, por último, adoção quer dizer prática, uso das técnicas e dos conhecimentos na atividade leiteira. Quem tem estes três predicados pode ser candidato a produtor de leite.
AQUI E AGORA – Aqui temos o Programa Produtividade e Qualidade do Setor Lácteo 2010-2020. Os objetivos são os mesmos praticados na serra gaúcha. Mas tudo está começando praticamente do nada, como deve ser. Temos 10 anos para chegar lá onde os outros já estão. Vejam bem, ninguém tem um programa como nós temos. Basta pô-lo em prática. Nova Petrópolis e Farroupilha podem servir de exemplo: lá continuam sendo praticadas outras culturas a par da produção do leite. Farroupilha não produz kiwi, uvas e maçãs? Nova Petrópolis, bem, já mostrei acima o que se produz em solo petropolense. Cheguei à conclusão: produzir leite é para quem gosta e quer ganhar mais dinheiro.

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