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Como
ficar surdo
(para
o resto da vida)
1)
Para começar, corra ao primeiro “entendido” em
som e compre o mais poderoso equipamento de som automotivo que seu
dinheiro propiciar.
2) É claro que você escolheu um aparelho que tem aqueles
quilovates que o folheto lhe promete, mas não dá (porque
é impossível enfiar um elefante dentro de um dedal!),
lhe cobra sem susto, e sem remorso o que não vale e que você
vai ter de pagar do mesmo jeito.
3) Encha o carro de altos-falantes, os maiores que conseguir, provavelmente
não sobrando mais lugar para a “gata”. Aliás,
ela não fará falta, mesmo porque você estará
o tempo todo encantado com seu “som” e não terá
espaço para ela, tornando-se inócuo o seu (dela) inebriante
e naturalmente maravilhoso “ronronar”. Felinos gostam
de carinho e, quando este lhes falta, entediam-se com facilidade
e abandonam a casa. Mas vá em frente!
4) Ligue todas as chaves e botões, que existirem no aparelho,
para conseguir aquele “efeito colorido” também
obtido, através de outros processos olfativos. Afinal, eles
se complementam muito bem.
5) Ponha o volume no máximo, sem se importar com as determinações
do Conema e não cometa o sacrilégio de esquecer os
graves! Eles mesmos, aqueles graves que parecem mais um martelo
batendo em um tonel de óleo diesel vazio, lembrando um tam-tam
aborígene australiano. Tem gente maldosa que afirma ser esse
tipo de som não muito exigente em número de neurônios,
mas é claro que isso é afirmação oriunda
de mentes incompetentes. Não ligue e vamos rápido
para o item 6.
6) Não se importe com o desconforto dos vizinhos. Eles são
uns “chatos” e não têm o seu “refinado”
bom gosto, sem dúvida, digno dos deuses do Olimpo. Não
sabem, como você, o que é música e reclamam,
veja só, que têm que suportar (essa não!) a
sua música(?). Ora, aqui fica evidente que eles não
têm nem os neurônios que você pensa que tem.
7) Acredite somente nos seus amigos, porque eles dizem só
aquilo que você quer ouvir. Como sabemos, “amigos são
para essas coisas” e, qualquer opinião em contrário
é, realmente, uma grande bobagem. Não se acanhe e
aumente mais o volume.
8) Se alguém lhe disser que você não respeita
o descanso dos outros, diga que você é quem sabe o
que serve para as pessoas. Que essas precisam deixar de ser ingratas
pois estão ouvindo “maviosíssimo” som
e, de graça! Além disso, para que ler livro, descansar,
conversar com a família, olhar as estrelas do céu?
Nada disso! Você, como um deus, é quem determina a
felicidade!
9) Ao pobre do vivente que argumentar que você não
respeita as leis e está desdenhando das autoridades legalmente
constituídas, não ligue, pois toda hora e em todo
lugar tem um cara “xarope”, que teima, porque teima
em lhe dar a educação que seus pais não quiseram,
não souberam ou não conseguiram enfiar em seu “precioso”
cérebro.
10) Se ainda nada explodiu e tudo foi entendido, deixa a vida correr,
enquanto seus tímpanos vão endurecendo bem mais rapidamente
do que os dos outros, num acentuado amortecimento progressivo. Bem
mais cedo do que consiga pensar, você não ouvirá
mais a respiração de sua mulher a seu lado, nem o
barulho das traquinadas de seus filhos. Não terá a
chuva batendo no zinco e, muito menos, os passarinhos nas árvores.
Não haverá diferença entre Chiquinha Gonzaga,
L. V. Beethoven, Heitor Villa Lobos, um bom samba de Cartola ou
do Zeca Pagodinho e...o barulho de um terremoto. Lembre-se que alguns
fazem, também, um pouco de barulho comercial mas, estes,
enfim, estão, de uma certa forma, defendendo o “pirãozinho
diário das crianças” o que não é,
seguramente, o seu caso e, merecem por isso, o nosso relativo respeito.
Tudo seguido e mantido à risca só nos resta, dar-lhe
os parabéns: Você conseguiu! Pode apanhar seu diploma
de surdo!
Sérgio
Lima Silveira
Engenheiro eletrônico |
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