
Um
cartório para todos...
Estou em Alegria/RS. E é por isso que venho me desculpar
por não conseguir escrever a coluna da semana passada.
Em quase três anos dedicados aos jornais da região
foi a segunda vez que falhei. Na primeira, todos lembram, foi
por causa daquele quindim bandido que saboreei na viagem quando
retornava de uma reunião em Porto Alegre e no outro
dia quase me matou. Foi impossível escrever. Mas desta
vez não foi a gula a responsável pela minha ausência
nas páginas dos doze jornais em que publico meus textos.
Foi uma determinação judicial.
Desde a semana passada, como tabelião e registrador
na comarca de Três de Maio há treze anos, fui
nomeado interventor para assumir o cartório de Alegria/RS,
que teve a titular suspensa pelo juiz diretor do foro. Ela
está em Minas Gerais desde janeiro deste ano em tratamento
de saúde e a Corregedoria havia determinado duas ordens
de serviço no cartório, que não foram
cumpridas. Então, estou em Alegria/RS para realizar
um relatório de tudo que ocorre por aqui. E daí que
o tempo está curto para pesquisar e escrever sobre os
temas que abordo semanalmente. Portanto, minhas desculpas aos
meus leitores.
Não posso negar que é curioso cair de paraquedas
em uma cidade que pouco conhecia e que estava carente de um
cartorário. Sem acesso asfáltico e com pouco
mais de cinco mil habitantes, Alegria está para mim
no rol das pequenas, mas queridas cidades do interior gaúcho.
Ao chegar ao cartório de Alegria na manhã do
dia 12, acompanhado de um oficial de justiça e do escrivão
da direção do foro, percebi o quanto seria difícil
esta nova experiência. O cartório estava nos fundos
da casa onde morava a tabeliã, que, como já disse,
desde janeiro está em Minas Gerais para tratamento de
saúde. O local era pequeno, com dois funcionários,
e eu trazia comigo mais duas ajudantes para começar
a organizar a casa. A notícia logo se espalhou. Tratei
de dar uma volta na cidade para sentir a “pressão” da
pequena e simpática Alegria. Visitei o prefeito, os
gerentes de banco, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores
Rurais e, é claro, o padre. Voltei para o cartório.
Não conseguia me sentir bem naquele pequeno local onde
eu dividia mesas, livros, caixas, computadores e a máquina
de lavar roupas. Quem conhece meu cartório em Boa Vista
do Buricá sabe que prezo pela qualidade e conforto.
Estou em uma área construída de 300 m2, climatizada,
dois andares, com estacionamento coberto. Meu cartório é todo
informatizado e tenho uma equipe treinada com o meu modo de
trabalhar. Agora, em Alegria, somente um ventilador faria a
minha alegria nestes quentes dias de novembro em que a surrada
gravata voltou a ser usada. Mas é uma experiência
nova, e é para isso que estamos aqui. Resgatar a credibilidade
do ofício, organizar o serviço e preparar o relatório
ao juiz diretor do Foro. Afinal, é uma intervenção
judicial em um cartório, algo que não ocorre
com frequência.
Enquanto escrevo esta coluna, entrando na madrugada de quinta-feira
(meia-noite em ponto) penso o quanto tenho trabalhado. Hoje
nem vi meus filhos. Saí às 7h30min de Boa Vista,
fiz 30 km de estrada de chão e atendi a comunidade de
Alegria. Com prazer, é claro. Gosto do que faço.
Cheguei hoje em casa às 22h. Foi um dia cheio. Fizemos
a mudança do cartório de local. Foram sete dias
procurando uma peça bem localizada em Alegria, para
tirar o cartório dos fundos de uma casa. Quis o destino
que um empresário local se sensibilizasse com minha
busca e reformasse uma sala comercial para o cartório.
Colocou piso, trocou a porta de entrada e pintou toda a sala.
Tudo isso em quatro dias. A comunidade de Alegria acompanha
tudo. Dizem: “tem novo escrivão na cidade”.
Escrivão é uma palavra que eu nem pensava mais
em ouvir. Tabelião, oficial, registrador, notário
já me acostumei. Escrivão fazia tempo. Achei
belíssima. Prova o respeito das pessoas pelo cartório
e pela história desta serventia que existe desde 1965.
Outro fato curioso foi o movimento do cartório. Desde
que cheguei, dizem que aumentou. Cartório não
anda sozinho. É o tabelião que faz o cartório.
O povo de Alegria tem vindo trazer documentos antigos que estavam
engavetados para análise. Isso é muito gratificante.
Não existe nada mais lindo do que a confiança. É para
isto que estou aqui, como interventor: resgatar a confiança.
Cartório é um local onde você deposita
confiança e busca segurança. Na semana passada,
dia 18, foi o Dia do Tabelião. Quis o destino que eu
estivesse como interventor em Alegria, que estava exatamente
carente de um tabelião.
Quero agradecer aqui a todos que têm me ajudado nestes
dias e, em especial, ao carinho recebido pela comunidade local.
Obrigado! É o prazer de atender um povo que nos faz
levantar para cumprir este ofício.
Das Leituras da Madrugada: Aquele
que garante o bem-estar do outros garante o próprio.
(provérbio
chinês)
Um
ótimo fim de semana a todos!!
Oficial
do Registro de Imóveis e Tabelião de Protestos
Pós-Graduado em Direito Notarial e Registral
Secretário da Associação dos Notários
e Registradores do Brasil (RS)
*
Marcos Salomão é colunista de 12 jornais da região
Noroeste abrangendo 102 municípios.
* Ouça toda quarta-feira na rádio cidade canção
FM (102,3) às 10h30m o programa Minuto Jurídico
com Marcos Salomão
* Acesse o site e saiba mais: www.marcossalomao.com.br