Ano XX - EDIÇÃO 1082

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DIREITO EM DEBATE

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Um cartório para todos...

Estou em Alegria/RS. E é por isso que venho me desculpar por não conseguir escrever a coluna da semana passada. Em quase três anos dedicados aos jornais da região foi a segunda vez que falhei. Na primeira, todos lembram, foi por causa daquele quindim bandido que saboreei na viagem quando retornava de uma reunião em Porto Alegre e no outro dia quase me matou. Foi impossível escrever. Mas desta vez não foi a gula a responsável pela minha ausência nas páginas dos doze jornais em que publico meus textos. Foi uma determinação judicial.
Desde a semana passada, como tabelião e registrador na comarca de Três de Maio há treze anos, fui nomeado interventor para assumir o cartório de Alegria/RS, que teve a titular suspensa pelo juiz diretor do foro. Ela está em Minas Gerais desde janeiro deste ano em tratamento de saúde e a Corregedoria havia determinado duas ordens de serviço no cartório, que não foram cumpridas. Então, estou em Alegria/RS para realizar um relatório de tudo que ocorre por aqui. E daí que o tempo está curto para pesquisar e escrever sobre os temas que abordo semanalmente. Portanto, minhas desculpas aos meus leitores.
Não posso negar que é curioso cair de paraquedas em uma cidade que pouco conhecia e que estava carente de um cartorário. Sem acesso asfáltico e com pouco mais de cinco mil habitantes, Alegria está para mim no rol das pequenas, mas queridas cidades do interior gaúcho.
Ao chegar ao cartório de Alegria na manhã do dia 12, acompanhado de um oficial de justiça e do escrivão da direção do foro, percebi o quanto seria difícil esta nova experiência. O cartório estava nos fundos da casa onde morava a tabeliã, que, como já disse, desde janeiro está em Minas Gerais para tratamento de saúde. O local era pequeno, com dois funcionários, e eu trazia comigo mais duas ajudantes para começar a organizar a casa. A notícia logo se espalhou. Tratei de dar uma volta na cidade para sentir a “pressão” da pequena e simpática Alegria. Visitei o prefeito, os gerentes de banco, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e, é claro, o padre. Voltei para o cartório. Não conseguia me sentir bem naquele pequeno local onde eu dividia mesas, livros, caixas, computadores e a máquina de lavar roupas. Quem conhece meu cartório em Boa Vista do Buricá sabe que prezo pela qualidade e conforto. Estou em uma área construída de 300 m2, climatizada, dois andares, com estacionamento coberto. Meu cartório é todo informatizado e tenho uma equipe treinada com o meu modo de trabalhar. Agora, em Alegria, somente um ventilador faria a minha alegria nestes quentes dias de novembro em que a surrada gravata voltou a ser usada. Mas é uma experiência nova, e é para isso que estamos aqui. Resgatar a credibilidade do ofício, organizar o serviço e preparar o relatório ao juiz diretor do Foro. Afinal, é uma intervenção judicial em um cartório, algo que não ocorre com frequência.
Enquanto escrevo esta coluna, entrando na madrugada de quinta-feira (meia-noite em ponto) penso o quanto tenho trabalhado. Hoje nem vi meus filhos. Saí às 7h30min de Boa Vista, fiz 30 km de estrada de chão e atendi a comunidade de Alegria. Com prazer, é claro. Gosto do que faço. Cheguei hoje em casa às 22h. Foi um dia cheio. Fizemos a mudança do cartório de local. Foram sete dias procurando uma peça bem localizada em Alegria, para tirar o cartório dos fundos de uma casa. Quis o destino que um empresário local se sensibilizasse com minha busca e reformasse uma sala comercial para o cartório. Colocou piso, trocou a porta de entrada e pintou toda a sala. Tudo isso em quatro dias. A comunidade de Alegria acompanha tudo. Dizem: “tem novo escrivão na cidade”. Escrivão é uma palavra que eu nem pensava mais em ouvir. Tabelião, oficial, registrador, notário já me acostumei. Escrivão fazia tempo. Achei belíssima. Prova o respeito das pessoas pelo cartório e pela história desta serventia que existe desde 1965. Outro fato curioso foi o movimento do cartório. Desde que cheguei, dizem que aumentou. Cartório não anda sozinho. É o tabelião que faz o cartório. O povo de Alegria tem vindo trazer documentos antigos que estavam engavetados para análise. Isso é muito gratificante. Não existe nada mais lindo do que a confiança. É para isto que estou aqui, como interventor: resgatar a confiança. Cartório é um local onde você deposita confiança e busca segurança. Na semana passada, dia 18, foi o Dia do Tabelião. Quis o destino que eu estivesse como interventor em Alegria, que estava exatamente carente de um tabelião.
Quero agradecer aqui a todos que têm me ajudado nestes dias e, em especial, ao carinho recebido pela comunidade local. Obrigado! É o prazer de atender um povo que nos faz levantar para cumprir este ofício.

Das Leituras da Madrugada: Aquele que garante o bem-estar do outros garante o próprio. (provérbio chinês)

Um ótimo fim de semana a todos!!

Oficial do Registro de Imóveis e Tabelião de Protestos
Pós-Graduado em Direito Notarial e Registral
Secretário da Associação dos Notários e Registradores do Brasil (RS)

* Marcos Salomão é colunista de 12 jornais da região Noroeste abrangendo 102 municípios.
* Ouça toda quarta-feira na rádio cidade canção FM (102,3) às 10h30m o programa Minuto Jurídico com Marcos Salomão
* Acesse o site e saiba mais: www.marcossalomao.com.br

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