Reajuste
do aluguel é menor que do salário mínimo,
mas ainda
pesa no orçamento familiar
Imobiliárias
registram maior procura do que
oferta por imóveis para locação

O casal Bruxel, depois de pagar aluguel por dois anos,
realizou o sonho da casa própria
Há cerca de 15 anos, em 1º de julho de 1994,
quando o Plano Real foi instituído no país,
o salário mínimo era de R$ 64,79. De lá
para cá, muita coisa mudou. A política monetária
permanece a mesma, mas o salário mínimo em
vigência é de R$ 465, um reajuste de 617,70%.
Na época, quando o corretor de imóveis Luís
Carlos Loro iniciou as atividades no ramo imobiliário
em Três de Maio, era comum ofertar imóveis
para locação por até quatro salários
mínimos mensais. Hoje, se esses valores fossem corrigidos,
um inquilino teria que desembolsar R$ 1.860 para um mês
de aluguel. “Creio que não existe nenhum imóvel
residencial no município por esse valor, que considero,
atualmente, impraticável”, destaca Loro.
Atualmente, o Índice Geral de Preços - Mercado
(IGP-M), medido pela Fundação Getúlio
Vargas, é utilizado como referência para balizar
os aumentos da energia elétrica e dos contratos de
aluguel. Com a queda da inflação, o preço
dos aluguéis sobe menos. Desde maio do ano passado,
o índice acumulado nos últimos 12 meses vem
caindo mensalmente. Para efeitos de comparação,
um aluguel que vencia em agosto do ano passado, foi reajustado
em 15,12% (a maior alta – variação do
índice 2007–2008). No acumulado deste ano a
correção fica em 3,64% (até junho),
ou seja, mais de quatro vezes menos em 10 meses.
Outro exemplo é dado por Luís Carlos Loro.
O preço do aluguel, na comparação com
o ano passado, subiu praticamente menos da metade, passando
de 9,81% (IGP-M maio/2008) para 5,38% (IGP-M maio/2009).
“Subiu muito menos que o salário mínimo,
reajustado em mais de 12% este ano”, calcula.
Embora seja frequente a vinculação entre salário
mínimo e o preço do aluguel, a prática
não é permitida pela Lei do Inquilinato n.º
8.245, de 18 de outubro de 1991. Está previsto no
artigo 17 que é livre a convenção do
aluguel, vedada a sua estipulação em moeda
estrangeira e a sua vinculação à variação
cambial ou ao salário mínimo.
Mesmo assim, muitos contratos de locação de
imóveis particulares são feitos tomando por
base o salário mínimo. Para o corretor de
imóveis, os preços dos aluguéis estão
defasados presumidamente em relação ao salário
mínimo, mas não em relação à
moeda brasileira.
Por outro lado, outra constatação feita no
mercado imobiliário em Três de Maio é
a procura maior que a oferta. Para outro corretor de imóveis,
Nelson Franzen, tanta demanda resulta em preços altos.
“Enquanto o setor de construção civil
cresce nos imóveis próprios, faltam imóveis
para locação”, pondera.
Pelo poder aquisitivo da população três-maiense,
um imóvel que custe até dois salários
é considerado de alto padrão. Por isso, a
maior procura nas imobiliárias é por casas
ou apartamentos com aluguel mensal entre R$ 300 a R$ 700.
Imóveis por R$ 1.200 mensais existem para locação,
mas a demanda é mínima.
Já na imobiliária de propriedade do engenheiro
civil Ademar Kreher a oferta é praticamente zero
em relação à demanda. Para suprir,
em parte, as necessidades que o mercado exige, Kreher atua
na construção de imóveis.
Atualmente, a construtora tem em andamento oito edifícios
na cidade. Em cada prédio, estarão disponíveis
de 16 a 24 apartamentos residenciais e algumas salas comerciais.
São condomínios fechados, reunindo grupos
que investem em moradia ou para locação.
Conforme Kreher, a construtora oferece também apartamentos
novos, por até R$ 50 mil.
Para
sair do aluguel, prestação da casa própria
não pode comprometer mais do que
30% da renda mensal
Trocar
o pagamento do aluguel pela prestação de um
imóvel próprio exige planejamento financeiro
detalhado. Além de saber se é viável
e vantajoso assumir a dívida pela compra de um imóvel,
é preciso pesquisar oportunidades. E ainda, levar
em conta que, se não pode pagar à vista, é
preciso ter uma reserva financeira, caso enfrente uma situação
de desemprego em algum momento durante os anos do financiamento.
Um dos aspectos mais importantes, segundo Roberto Vertamatti,
vice-presidente de Finanças da Associação
Nacional dos Executivos de Finanças, Administração
e Contabilidade (Anefac), é não comprometer
mais que a faixa entre 25% a 30% da renda mensal da família
com a prestação do imóvel pretendido.
Conforme o executivo, na hora que alguém financia
uma casa própria é algo para 20 anos. Por
isso, é recomendável ter pelo menos 20% do
valor do imóvel para dar de entrada no momento da
compra, o que irá diminuir o peso da parcela do financiamento
no orçamento mensal e também reduz o tempo
para o pagamento do imóvel.
Para Vertamatti, o prazo considerado ideal é 10 anos.
“Casa própria é benefício
pago
mensalmente a nosso favor
e não a terceiros”
Em
Três de Maio, tão grande quanto a procura por
imóveis para a locação é a procura
por imóveis para a compra. E a maior parte, através
de recursos de bancos. Segundo Gerson Ceccon, corretor de
imóveis, os financiamentos representam 90% das casas
vendidas em sua imobiliária.
Ele acredita que se não fossem os financiamentos,
a procura pela casa própria seria mínima.
“Dificilmente as pessoas têm recursos próprios
para pagar o imóvel à vista. Com o financiamento,
pagam o valor da prestação por mês em
vez do aluguel”, avalia.
Um exemplo é o casal de contadores Larissa, 29 anos,
e Lisandro Viest, 30. Quando decidiram morar juntos, locaram
um apartamento pequeno, de um dormitório, pagando
aluguel de R$ 250. Como o gasto com moradia não representava
um valor alto no orçamento, juntaram economias para
realizar o sonho da casa própria. Depois de um ano,
há um mês, o casal mora em imóvel próprio,
conquistado através de recursos próprios e
de financiamento pela Caixa. Pagam R$ 418 de prestação
de financiamento num período de 20 anos.
Larissa resume o contentamento em uma frase: “A casa
própria, além de ser um investimento, é
um benefício pago mensalmente a nosso favor e não
a favor de terceiros”.
Já o casal Mateus e Patrícia Bruxel morou
durante dois anos em um apartamento locado. Pagando em torno
de R$ 500 mensais, os gastos com o aluguel em dois anos,
chegaram a R$ 12 mil.
Contudo, a união, que dura, desde o namoro, mais
de 12 anos, permitiu-lhes que fossem planejando o futuro
aos poucos. Mateus, 28 anos, eletrotécnico, e Patrícia,
30 anos, professora, juntaram economias e, primeiramente,
compraram um terreno. Depois, venderam o bem e com o dinheiro
deram entrada para a compra de um apartamento num condomínio
residencial. A partir disso, todas as economias tinham destino
certo: o pagamento das prestações do apartamento
até ser quitado. Desde janeiro deste ano, moram no
imóvel, desfrutando do bem que antes parecia um sonho
distante.
Os casais dão dicas para quem quer alcançar
o imóvel próprio: planejamento, disciplina
financeira e organização do orçamento
familiar. Sem esquecer de que é preciso privar-se
de algumas mordomias, e principalmente, ter bem claros os
objetivos a serem alcançados, sem deixar que toda
renda se transforme em despesas.