Ano XX - EDIÇÃO 1057

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DO LEITOR

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QUERO SER ADOTADA! POR FAVOR!

Sou uma menina pobre, a cor da minha pele não importa se é branca, preta ou amarela. Meu nome é Vitória. Se fosse um menino, talvez fosse Vitório, pois ainda vou vencer as adversidades que a vida vai me impor.
Tenho somente três meses de idade.
Desconfio que minha mãe não queria que eu nascesse, pelo jeito que ela me trata. Sai à noite, me deixa aos cuidados dos meus irmãos mais velhos, que são cinco. Ouço, às vezes, eles reclamarem que têm fome e frio. O mais velho, que tem doze anos, tenta conformar os mais novos, enquanto me balança em um carrinho que mamãe ganhou, dizendo que ela já volta e vai trazer alguma coisa para todos nós comermos.
Dormimos todos juntos para tentar nos aquecer. Mamãe não chega. Somente quando acordamos, que a vemos. Está sempre com um ar de cansaço e tristeza no olhar.
Meu pai veio duas vezes para me ver, mas quando minha mãe e ele estavam juntos só discutiam.
Agora estou desconfiada que minha mãe vai me abandonar. Senti na forma como ela olha para mim. Em um momento de raiva, quando eu chorava, pois estava com fome, ela deixou escapar que tinha planos de me deixar na porta de um orfanato, à noite.
Às vezes, fiquei doente e fui ao hospital. Lá fui muito bem cuidada, apesar de minha mãe não aceitar os conselhos das pessoas que lá trabalhavam.
Num dia desses eu fui tirada da minha mãe por umas mulheres que vieram lá em casa. Disseram que mamãe tinha bebido cachaça e não tinha condições de me cuidar. Fiquei alguns dias em um lugar que estava cheio de outras crianças, umas já um pouco grandes, outras de colo. Acredito que aquelas “tias” que cuidavam de todos nós não eram nossas parentes, porque lá estavam crianças brancas, pretas, e não eram irmãos, e as mulheres não eram chamadas de mãe por quem já conseguia falar.
Naquele lugar onde fiquei por alguns dias, antes de ser buscada por minha mãe, muitas famílias foram à procura de crianças para adotar. São pessoas que devem ter amor no coração, mesmo que também eu tenha ouvido que existem pessoas que têm filhos legítimos, mas não os querem, maltratando-os ou até os abandonando.
Estou pedindo agora, se por acaso minha mãe me abandonar, me adote, não me deixem crescer sem uma família, porque depois que eu crescer vou ter dificuldades em me adaptar a uma nova família, se ela vier.
Gosto demais de meus irmãos, não quero deixá-los sozinhos em casa, mesmo que passemos por dificuldades. Mas, se não tiver outro jeito, dê-me a oportunidade de ter uma família, ter irmãos para brincar, amor, alguém que eu possa chamar de mãe, de pai, que possam ir comigo brincar na pracinha, me levar e me buscar no colégio. Não quero conforto, dê-me o aconchego de um lar, o básico para que eu possa crescer sem traumas.

Paulo Roberto do Nascimento
(Capitão Nascimento)

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