QUERO
SER ADOTADA! POR FAVOR!
Sou uma menina pobre, a cor da minha pele não importa se
é branca, preta ou amarela. Meu nome é Vitória.
Se fosse um menino, talvez fosse Vitório, pois ainda vou
vencer as adversidades que a vida vai me impor.
Tenho somente três meses de idade.
Desconfio que minha mãe não queria que eu nascesse,
pelo jeito que ela me trata. Sai à noite, me deixa aos cuidados
dos meus irmãos mais velhos, que são cinco. Ouço,
às vezes, eles reclamarem que têm fome e frio. O mais
velho, que tem doze anos, tenta conformar os mais novos, enquanto
me balança em um carrinho que mamãe ganhou, dizendo
que ela já volta e vai trazer alguma coisa para todos nós
comermos.
Dormimos todos juntos para tentar nos aquecer. Mamãe não
chega. Somente quando acordamos, que a vemos. Está sempre
com um ar de cansaço e tristeza no olhar.
Meu pai veio duas vezes para me ver, mas quando minha mãe
e ele estavam juntos só discutiam.
Agora estou desconfiada que minha mãe vai me abandonar. Senti
na forma como ela olha para mim. Em um momento de raiva, quando
eu chorava, pois estava com fome, ela deixou escapar que tinha planos
de me deixar na porta de um orfanato, à noite.
Às vezes, fiquei doente e fui ao hospital. Lá fui
muito bem cuidada, apesar de minha mãe não aceitar
os conselhos das pessoas que lá trabalhavam.
Num dia desses eu fui tirada da minha mãe por umas mulheres
que vieram lá em casa. Disseram que mamãe tinha bebido
cachaça e não tinha condições de me
cuidar. Fiquei alguns dias em um lugar que estava cheio de outras
crianças, umas já um pouco grandes, outras de colo.
Acredito que aquelas “tias” que cuidavam de todos nós
não eram nossas parentes, porque lá estavam crianças
brancas, pretas, e não eram irmãos, e as mulheres
não eram chamadas de mãe por quem já conseguia
falar.
Naquele lugar onde fiquei por alguns dias, antes de ser buscada
por minha mãe, muitas famílias foram à procura
de crianças para adotar. São pessoas que devem ter
amor no coração, mesmo que também eu tenha
ouvido que existem pessoas que têm filhos legítimos,
mas não os querem, maltratando-os ou até os abandonando.
Estou pedindo agora, se por acaso minha mãe me abandonar,
me adote, não me deixem crescer sem uma família, porque
depois que eu crescer vou ter dificuldades em me adaptar a uma nova
família, se ela vier.
Gosto demais de meus irmãos, não quero deixá-los
sozinhos em casa, mesmo que passemos por dificuldades. Mas, se não
tiver outro jeito, dê-me a oportunidade de ter uma família,
ter irmãos para brincar, amor, alguém que eu possa
chamar de mãe, de pai, que possam ir comigo brincar na pracinha,
me levar e me buscar no colégio. Não quero conforto,
dê-me o aconchego de um lar, o básico para que eu possa
crescer sem traumas.
Paulo Roberto do Nascimento
(Capitão Nascimento)
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