COMO
CRIAR UM
PAÍS SEM FUTURO
O “bolsa-esmola” nos criará um problema sério
no futuro e está conduzindo o país a um ponto de não-retorno
Há tempos nos perguntamos, não de forma arraigada
para não chorar, que tipo de país estamos criando.
Contudo, a resposta pode nos causar um infinito desgosto. Para quem
ainda não se debruçou sobre o assunto, sugerimos uma
reflexão mais profunda, pois seu futuro está em jogo.
O Brasil é um país pobre, embora tenhamos, de acordo
com nosso nível de desenvolvimento, Produto Interno Bruto
(PIB) e renda per capita, a maior carga tributária do planeta.
Em outras circunstâncias, com a carga tributária beirando
40% do PIB, o Brasil deveria ser um dos países mais ricos
do mundo, pois, tecnicamente, não faltariam recursos para
isso.
No entanto, a dívida interna financeira do governo é
tão elevada que consome boa parte desses tributos. A corrupção,
os desmandos e os convenientes desvios, consomem outra parcela considerável.
E por aí vai, numa lista interminável. Isso já
é grave o bastante e nos coloca num patamar que, provavelmente,
é único em todo o mundo. Mas, se não bastasse
tudo isso, estamos também, há alguns anos, convivendo
com um problema extremamente sério, que nos custará
muito no futuro e, acredito, o próprio futuro. Estou me referindo
à infeliz criação do “bolsa-esmola”,
que nada mais é do que a fusão de várias benesses
indevidas, “aperfeiçoadas” (sic) pelo atual governo
– que obviamente se apropriou de sua paternidade.
Essa situação, definitivamente, está conduzindo
o país a um ponto de não-retorno e já se pode
considerar essa situação como irreversível
e de extrema gravidade.
Há alguns anos havia apenas adultos no sistema. Há
pouco tempo, convenientemente, foram incluídos jovens de
16 e 17 anos, eleitores. Agora, mais pessoas estão sendo
introduzidas no sistema, de tal modo que serão, por ora,
12,3 milhões de famílias agraciadas com o dinheiro
da nação, dinheiro daqueles que pagam impostos.
É claro que não temos nada contra ajudar as pessoas
mais pobres, presentes em uma nação que, por apresentar
as condições acima citadas, não tem como se
desenvolver e atingir a justiça e equilíbrio social
adequado. O problema é o modo como isto está sendo
feito, havendo um claro incentivo ao desemprego.
Há cerca de três anos, mais precisamente em dezembro
de 2005, o jornal Folha de S. Paulo dedicou duas páginas
inteiras a esse tema, mostrando que diversas pessoas não
queriam trabalhar, embora isso fosse possível, pois a consequência
seria a perda do “bolsa-esmola”. Bem como a aposentadoria
especial para quem não contribuiu.
No início de 2008, em conversa com algumas pessoas de uma
importante entidade industrial do norte do país, soubemos
que, dias antes, uma moça perdeu sua empregada doméstica,
que ganhava R$ 400,00, porque ela preferia ganhar R$ 110,00 do governo.
Arguida sobre qual o sentido, a resposta foi fulminante: no “bolsa-esmola”
ela não precisava trabalhar.
Quando dissemos irreversível, nos referimos ao fato de que
esse contingente de pessoas, pela sua extraordinária quantidade
(cerca de 60 milhões de brasileiros), tem um poder de pressão
fantástico. Ele pode decidir eleições e, manipulado
pelos de sempre de plantão, pode fazer estragos. E é
claro que o atual governo, com projetos de poder de longo prazo,
sabe muito bem disso e manipula o jogo com maestria.
Dessa forma, pode-se imaginar como será a próxima
eleição presidencial. Um grupo acusando o outro, afirmando
que, se vencida a eleição, esse benefício será
retirado, o que semeará o medo pela descontinuidade dessas
malfadadas políticas sociais, no mínimo equivocadas.
Essa jogada não é nova e é o que realmente
se pode esperar. É só nos lembrarmos da última
eleição presidencial, em que, nas últimas três
semanas de campanha, o candidato da oposição não
conseguiu expor suas ideias. Teve que ficar, visto que foi covardemente
acuado, jurando por todos os juros que não privatizaria nada.
Claro que também teve enorme culpa pela simples e pura incompetência
de não ter encarado os fatos de frente. E porque não
dizer, não ter lido e seguido os ensinamentos de nosso artigo
publicado em outro jornal uma semana antes da eleição.
Sendo assim, se nenhum governo conseguir retirar esses maléficos
benefícios, e a tendência é aumentá-los,
qual o futuro da nação? E vide que o valor aumenta
– já está ocorrendo novamente – acima
daquilo com o qual se reajusta os aposentados que trabalharam uma
vida inteira, para não conseguir viver com a miséria
que recebem e que se reduz ano a ano. Pensar que o governo não
sabe que a melhor forma de ajuda é a criação
de empregos, que nos últimos anos poderiam muito bem ter
sido criados em face da melhoria da situação econômica,
e que teriam ajudado o país a crescer mais, é pura
ingenuidade. É óbvio que o governo conhece muito bem
o caminho das pedras, aquele da solução decente. Contudo,
a intenção não é essa, mas sim criar
a dependência eleitoreira. E todos sabem que essa atitude
gera votos, e muitos. Já os temos visto. Mas, talvez não
seja isso, e sim o próprio povo que não quer ver,
ou prefere se acomodar. É incrível ver pessoas fazendo
questão de viver de esmola em vez da dignidade do seu suor
e esforço próprio. E abrindo mão de ter mais
recursos, já que o simples salário mínimo já
é, várias vezes, maior.
Samir Keedi
economista, professor da Aduaneiras e
de várias universidades, e autor de
diversas obras em Comércio Exterior.
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