| Falando
francamente sobre consumo e consumismo
Vilmar
Berna*
Somos,
por natureza, seres consumidores e estamos no topo da cadeia alimentar.
Logo, consumir é nosso destino natural, o problema são
os excessos. Excesso de gente, que já está demais
e que continua se multiplicando globalmente, embora se reduza em
diversos países e regiões. Cada boca que nasce demanda
por mais recursos naturais, que não são infinitos.
Mas existe um excesso ainda pior, o da desigualdade social, que
permite que
uns poucos possam se apropriar de mais recursos que a maioria, ou
seja, não adiantará muito diminuir o excesso de gente
sem também diminuir a ganância.
O mundo atual se construiu em torno da falsa idéia de que
o mercado será capaz de suprir as necessidades humanas, a
ponto de aceitarmos a organização da sociedade em
classes sociais em função do poder de consumo. Quem
pode consumir muito pertence às classes altas, os remediados,
à classe media, e os pobres, às classes baixas. A
reboque do conceito do poder aquisitivo surge quase que naturalmente
a falsa noção de que os que tem muito são mais
importantes e com mais direitos do que os que não tem, e
isso é absolutamente falso, pois somos todos iguais em dignidade
e direitos. O mercado só consegue ser solução
para os que têm dinheiro. Para os demais, é preciso
políticas públicas.
O problema não está só no colapso ambiental,
mas no colapso ético e moral que nos põe em risco
enquanto humanidade e civilização muito antes de desaparecermos
enquanto espécie. Se as pessoas aceitarem a idéia
de uma sociedade que valoriza o dinheiro acima dos valores humanos,
acumular riquezas pode se tornar um fim em si mesmo em vez de meio
de vida, aliás, a própria idéia de vida pode
se empobrecer a ponto de se resumir a produzir numa ponta e consumir
na outra. Bem longe da idéia de viver em abundância
e plenamente. Em vez de nos tornarmos mais solidários e cultivarmos
bons valores e a cidadania, acabaremos valorizando muito mais o
individualismo, o materialismo, a competição desmedida,
a insensibilidade com os menos favorecidos.
E tudo isso baseado numa mentira, a de que se todos alcançarem
os mesmos padrões de consumo dos mais ricos, será
possível haver recursos naturais para todos. Fazer com que
todos acreditem nesta mentira é conveniente para os que dominam
e controlam os recursos e as riquezas, pois em vez de pedir por
mudanças, as pessoas irão querer que tudo continue
como está na esperança de que um dia chegará
a sua vez e que só não chegou ainda por que não
foram capazes ou merecedores o suficiente. Não é de
se admirar que seja tão difícil ser sustentável
e compatibilizar progresso e meio ambiente.
Mas não é impossível.
Não só outro mundo é possível como já
vemos por todos os lados os sinais dessa mudança. Por mais
que alguns gostem de se iludir com falsas promessas de consumo,
elas percebem os sinais de esgotamento do Planeta. Um novo mundo
já esta nascendo do velho mundo, e o que assistimos são
as dores do parto.
Precisamos é de coragem para persistir nos caminhos da mudança
e valorizar escolhas diferentes das que trouxeram a humanidade à
beira do colapso.
Não temos que comprar tudo o que vemos nas prateleiras. Não
temos de acreditar em tudo o que se diz nas propagandas e devemos
duvidar das informações tendenciosas, mentirosas e
manipuladores. Não temos que seguir a moda e descartar um
produto que ainda serve. Não precisamos de nenhum bem de
consumo para amar e ser amados, ou para sermos felizes, ou para
nos sentirmos importantes e reconhecidos socialmente.
Da mesma maneira que temos a liberdade de consumir o que nosso dinheiro
ou crédito a perder de vista nos permite, também temos
a liberdade de recusar o consumo desperdiçador de recursos.
Podemos escolher consumir criteriosamente, apenas para atender a
necessidades objetivas e realmente necessárias, preferir
produtos socioambientalmente responsáveis, recicláveis,
que fortaleçam as cadeias produtivas locais e a criatividade
de nossos trabalhadores e artesãos. Podemos consumir de maneira
planejada em vez de agir por impulso. Temos o poder de dizer sim
e também de dizer não. Somos nós o poder do
mercado.
Não foi o consumismo que nos fez assim. Ele apenas aproveitou
a oportunidade por sermos assim e encheu as lojas e prateleiras
e nossos sonhos e desejos de bugigangas e objetos que no final podem
nem ser tão importantes para vivermos uma vida plena e feliz.
Os inimigos não estão fora de nós. Para resolvermos
a crise socioambiental em que nos metemos, teremos de ter a coragem
de admitir que somos uma parte importante do problema - e também
da solução.
*
Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou
a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental
(www.rebia.org.br ) e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio
Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do
Meio Ambiente ( www.portaldomeioambiente.org.br ). Em 1999, recebeu
no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente
e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas - www.escritorvilmarberna.com.br
Biólogo Valdir Natal Rochinheski, Esp. em Ciências
do Meio Ambiente; Auditor Ambiental; Perito; Judicial Ambiental;
Gestor Técnico/Administrativo em Saúde Pública;
CRBio3 Nº. 028125
SECRETÁRIO MUNICIPAL DA SAÚDE DE ALEGRIA/RS.
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