
Libertadores 2012:
Eu
vou! Será?
Fomos
ao Beira-Rio. Os meninos ainda não tinham assistido um
Gre-Nal ao vivo e eu havia prometido a eles. Seis horas de viagem
valeriam a pena. Prometi a Elis que seria um passeio agradável
para domingo à tarde e planejamos chegar cedo ao Beira-Rio.
Afinal, com crianças, em um Gre-Nal é preciso
estar pelo menos duas horas antes de começar o jogo.
Cauteloso que sou, já havia telefonado para o Inter e
a informação que eu tinha é que com a minha
carteirinha de "sócio antigo" teria duas opções:
na arquibancada inferior (social) ou na arquibancada superior
(cadeiras), mas neste caso, no sol.
Antes de viajar a Elis me pediu:
-Ficaremos nas cadeiras, né amor? Nada de chão
duro".
-"Querida, o Beira-Rio é um palácio. Não
existe mais chão duro. Tudo é cadeira. A diferença
é que umas são na arquibancada superior e outras
na inferior, chamadas de "social". Estaremos lá,
na social, sentados confortavelmente em cadeiras assistindo
o jogo com as crianças. Confie em mim. Sei o que faço."
Chegamos ao Beira-Rio. Consegui um bom lugar para o carro. Um
tumulto. Os meninos na maior emoção. Primeiro
Gre-Nal a gente nunca esquece, e, como pai, eu tinha o dever
de proporcionar isso da melhor forma possível, afinal,
queria que fosse marcante.
Com pouca fila, passamos as roletas e entramos no estádio.
Que maravilha. Existe uma energia mágica sempre que você
cruza a roleta e entra no Beira-Rio. É como se você
se tornasse naquela instante parte de um todo maior. É
como se você fosse dono do Beira-Rio.
Daí, o problema começou. Tiraram todas as cadeiras
do anel inferior do estádio. Só estavam lá
as arquibancadas de concreto, sem nenhuma cadeira ou banquinho.
O terrível "chão duro". Fiquei chocado.
Nem olhei para Elis. O que eu iria dizer? Me fiz de louco. Procuramos
um lugar com boa visibilidade. Ao sentar, o joelho veio perto
da boca. Permaneci mudo. Nem almofada tínhamos trazido.
Perguntei para os meninos se queriam um refrigerante. Então
ela disse delicadamente:
-"Sumiram as cadeiras ?"
-"Pois é..."- falei olhando para os lados...-
"deve ser por causa das obras para a Copa".
Então Matheus, de 9 anos, perguntou:
-"Pai, quando é que recomeçam as obras?"
-"Quer um refri Henry?" - mudei logo o foco da conversa.
Não sabia o que dizer. Desde a final da Libertadores
do ano passado não vinha ao Beira-Rio. Que mudança.
Parte do estádio estava demolida. Uma arquibancada estava
sendo erguida à nossa esquerda. Uma só. E as obras
estavam paradas.
-"Mas você não tinha ligado para o Inter e
estava tudo certo? Que ficaríamos em cadeiras"-
ela insistiu gentilmente.
-"Vão falar a escalação agora no rádio"-
desconversei de novo.
-"Pai, a gente nunca veio aqui, né? Nesse chão
duro."- disse o pequeno Henry com 8 anos.
-"Tá bom. Tiraram as cadeiras. Elas existiam. Nós
sempre viemos aqui, mas eram cadeiras."
-"Nunca viemos aqui"- disse ela, rangendo os dentes.
Virei para o lado. Tinha um cara de boné, palitinho na
boca e com uma tatuagem enorme no braço escrito "Só
os fortes sobrevivem". Perguntei gentilmente:
-"Moço, por gentileza. Não existiam umas
cadeiras por aqui ?"
-"Faz tempo que se foram..."- respondeu, sem me olhar
mexendo o palitinho.
-"Viu como tinha, amor! Como eu ia saber que haviam tirado
elas daqui?"
-"Se você ligou para o Inter, deveria saber!"
-Ok, ok, ok. Realmente, não me falaram esta parte".
-"Percebi."- disse ela, agora com ar irônico.
-"Pai, quanto tempo falta para começar o jogo?"
-"Duas horas."
-"Duas horas ?"
-"Sim, viemos cedo para escapar do movimento."
-"E esperar confortavelmente nas cadeiras que sumiram..."-
ela rebateu de novo.
Pensei. Pensei. Pensei. Que sinuca. Levantei a cabeça.
Um sol escaldante iluminava o outro lado do estádio.
A torcida da arquibancada superior estava no sol. Falei:
-"Na verdade eu não queria que você pegasse
sol, querida. Sabe como me preocupo com você e com as
crianças. Daí entre o sol com cadeiras, ou a sombra,
mas no chão, optei por aqui. Mas acho que me enganei.
Melhor irmos para o outro lado."
Ela levantou a cabeça, olhou o outro lado do estádio,
respirou e disse:
-"Não, capaz. Naquele sol deve estar horrível.
Imagina. Prefiro aqui."
Ufa... Assunto encerrado momentaneamente. Finalmente poderia
me concentrar no jogo. Levantei e me alonguei. Então
ela largou:
-"Está com dor nas costas? Eu não trouxe
teu Dorflex. Você não é acostumado a sentar
no chão". Não respondi. Nada estragaria aquela
sublime tarde no Beira-Rio.
O Inter ganhou o jogo e os resultados paralelos ajudaram. O
colorado vai para a Libertadores. Nos abraçamos ao final
e eu disse: -"Meninos, ano que vem viremos aos jogos da
Libertadores!" E ela encerrou a tarde com a seguinte frase:
-"Sim, claro! E não esqueçam crianças,
de pedir para o vovô de Natal uma almofadinha para cada
um".
Das
minhas leituras da madrugada:
"Palavras verdadeiras podem não ser agradáveis.
Palavras agradáveis podem não ser verdadeiras”.
Provérbio Chinês
Um
ótimo fim de semana a todos...
Oficial do
Registro de Imóveis e Tabelião de Protestos
Pós-Graduado em Direito Notarial e Registral
Secretário da Associação dos Notários
e Registradores do Brasil (RS)
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Marcos Salomão é colunista de 17 jornais da região
Noroeste.
A relação completa dos jornais poderá ser
conferida em nosso site www.marcossalomao.com.br