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'Minha mãe sofria agressão do meu pai. Eu sofri do meu ex-marido. Não quero isso para as minhas filhas'

23/08/2019 - Por Jornal Semanal
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Afirmação é de três-maiense, 32 anos, que há oito anos conseguiu 'dar um basta' no relacionamento, após conviver com agressões por vários anos

32 anos de idade, há oito livre de agressões do ex-companheiro, no qual ficou casada por oito anos. A três-maiense, que prefere não se identificar, hoje diz que vive em paz (depois de se libertar de um longo período de violência que enfrentou com o pai das suas duas filhas), mas que começou ainda na infância, depois de vivenciar a violência dentro de casa, com o pai batendo na mãe. "Minha mãe sofria agressão do meu pai. Eu sofri do meu ex-marido. Não quero que isso se repita com as minhas filhas", declara.
Os atos de violência do ex-marido começaram logo após o nascimento da primeira filha. Ela tinha 19 anos e a filha três meses de idade. As agressões ocorriam por casos extraconjugais do ex-companheiro. "Ele saía, me traía, eu descobria. Eu dava a chance pra ele falar, mas ele jurava que não era verdade. Ele negava e eu apanhava. Ele fazia eu me sentir culpada pelas traições dele. Como se eu fosse a errada, como se eu tivesse feito". 

Com 32 anos, três-maiense diz viver uma nova vida, sem medo, após se libertar das agressões do ex-marido

Agressões não pararam nem durante a gravidez
A jovem lamenta que as filhas presenciaram muitas situações de violência dentro de casa. "A mais nova não lembra muito. Mas a mais velha tinha por volta de seis anos quando ele saiu de casa. Ela se lembra muito das brigas, porque ela viu ele me agredindo". 
As agressões não cessaram nem durante a segunda gravidez. "Com seis meses de gestação, um dia ele chegou em casa - meio bêbado e depois de mais uma traição - e eu questionei onde ele estava. Ele ficou alterado, começou a gritar e me empurrou com força, e eu bati a minha barriga. Naquele dia fui pra casa da minha mãe. Fiquei um tempo lá. Até que ele e a família dele foram atrás de mim. Daí acabei voltando, mas as traições continuaram, e o comportamento violento também".

Mudança de cidade, não de comportamento
Na época, a família morava em uma cidade da Região Metropolitana. Quando a filha mais nova nasceu, o casal decidiu vir para Três de Maio. "Com a mudança de cidade, fiquei com esperança que ele podia mudar também. Viemos morar perto de familiares. A família dele sempre ficou do meu lado. Achei que poderia salvar meu casamento. Depois de três meses aqui, começou tudo de novo", recorda.
Além das saídas de casa e das traições, o ex-marido começou a atrasar o aluguel, as contas do mês e o dinheiro estava faltando. "Foi um momento muito difícil. Eu não tinha coragem para denunciar na Polícia, na Brigada. E ele continuava me agredindo. Me mentia e jurava 'pelas nossas filhas'; isso me magoava mais ainda, porque eu dizia: não coloca as meninas no meio." 
E não era somente agressão física. Ela também sofria violência moral e psicológica, era menosprezada, humilhada. "Ele dizia coisas horríveis para mim. A mais velha lembra disso e não pede do pai, porque não tem boas lembranças dele. A mais nova pede, de vez em quando. Até com elas ele era rude, não demonstrava carinho".

'Arrumei um emprego e mandei ele embora'
Quando ela conseguiu ser efetivada num bom emprego (e perceber que não ia mais depender financeiramente dele), reuniu forças e tomou coragem para se separar. "Não queria mais admitir aquilo. Daí mandei ele embora. Até ele sair de casa demorou uns dois meses. E na noite anterior de sair, me agrediu novamente. Liguei para uns amigos que foram lá em casa me socorrer. Eles chegaram e as meninas estavam chorando; elas tinham visto tudo". 
A mulher relata que no "ele ir embora", o ex-companheiro acabou abandonando as filhas também. "Agora, a um ano atrás, ele resolveu aparecer. Veio um pouco, mas já sumiu de novo. Hoje eu trabalho e estou sempre correndo atrás, pra gente não passar necessidade e não deixar faltar nada para as meninas".

Ciclo de violência acabou
"Aquele ciclo de violência acabou. Graças a Deus, nunca mais. Hoje tenho outra relação, mas não moramos juntos. Para um relacionamento dar certo e ser saudável tem que haver (além do amor), confiança e respeito, o que não havia com meu ex-marido", destaca. 
Hoje, a sua preocupação é com o futuro das filhas. "Peço a Deus que a vida delas seja diferente; que futuramente, elas encontrem alguém que seja amigo, verdadeiro e que as respeitem. Alguém em quem elas possam confiar e que queiram crescer na vida juntos".
As lutas diárias para criar as duas meninas, atualmente com 11 e 13 anos, fazem a mãe querer sempre o melhor para elas. "Hoje posso viver tranquila, tudo mudou. Vivemos bem, como uma família que se ama, se respeita e quer fazer as coisas darem certo. Se for passado dificuldade, vamos superar e lá na frente vou ver o resultado. Espero que seja o melhor possível", finaliza.

Experiência de violência doméstica na infância influencia chances de violência na vida adulta, aponta Ipea
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que "crianças que vivem em lares onde prevalece a violência doméstica possuem maior probabilidade de desenvolver problemas comportamentais na primeira infância, como hiperatividade e agressividade, entre outros, que são bons preditores para a possibilidade de se engajarem em atividades criminosas, a partir da adolescência". "Em  particular, no que se refere à criação de meninas em um ambiente violento, a experiência de violência na infância influencia chances de elas próprias virem a ser, futuramente, vítimas de violência de gênero". 
Para ter uma dimensão dessa exposição de meninas e meninos à violência doméstica e familiar, os registros do Ligue 180, da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência - relativos ao primeiro semestre do ano de 2016, mostram que 79% das mulheres que acessaram o serviço possuem filhos. 60% desses filhos presenciaram situações de violência contra suas mães, 23% sofreram também violência. Ainda sobre essa experiência, o relatório informa que 51% das ocorrências envolvem agressões físicas; e em 40% dos casos, as mulheres relatam que a violência ocorre diariamente no ambiente doméstico.

A transmissão entre duas ou mais gerações da violência mostra que 1 a cada 5 mulheres entrevistadas na pesquisa do Ipea (num universo de 10 mil mulheres) tiveram contato com a violência doméstica e familiar durante a infância e adolescência. Entre estas, 4 a cada 10 mulheres sofreram violência nas relações afetivas em sua vida adulta. 

Ter independência financeira não é garantia de proteção às mulheres, aponta estudo do Ipea 
Índice de violência contra mulheres economicamente ativas - 52,2% é  o dobro do registros pelas que não compõem o mercado de trabalho
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, a cada ano, cerca de 1,3 milhão de mulheres são agredidas no Brasil. E o fato da mulher trabalhar fora e ter independência financeira não garante proteção contra a violência doméstica. Foi o que apontou estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado na última segunda-feira, 19. Segundo os dados levantados, o índice de violência contra mulheres que integram a população economicamente ativa (52,2%) é praticamente o dobro do registrado pelas que não compõem o mercado de trabalho (24,9%).
Para os pesquisadores do Ipea, uma possível explicação para isso é que, em muitos casos, a presença feminina no mercado de trabalho - por contrariar o papel da mulher dentro de valores patriarcais - faz aumentar as tensões entre o casal, o que resulta em casos de agressões e no fim da união.
Conforme o estudo, "outras políticas públicas se fazem necessárias', como o investimento em produção e consolidação de bases de dados qualificados sobre a questão, o aperfeiçoamento da Lei Maria da Penha e intervenções no campo educacional para maior conscientização e respeito às diferenças de gênero".

Em 43,1% dos casos, a violência ocorre dentro de casa
Conforme o estudo do Ipea, o índice de violência doméstica com vítimas femininas é três vezes maior que o registrado com homens. Os dados avaliados na pesquisa mostram também que, em 43,1% dos casos, a violência ocorre na residência da mulher, e em 36,7% dos casos a agressão se dá em vias públicas.
Na relação entre a vítima e o agressor, 32,2% dos atos são realizados por pessoas conhecidas, 29,1% por desconhecido e 25,9% pelo cônjuge ou ex-cônjuge. 

Em cinco anos, morte de mulheres dentro de casa cresceu 17% 
A Lei do Feminicídio (13.104) é de 2015 e, desde então, muito se tem falado sobre o aumento dos registros policiais que envolvem esse tipo de crime dentro do ambiente doméstico.
Dados apresentados pelo Atlas da Violência 2019, apontam para uma provável escalada do crime de feminicídio entre 2012 e 2017, principalmente, no que diz respeito ao fato de que, cada vez mais, a mulher corre mais risco de morte dentro de casa do que nas ruas. Isso porque a morte violenta intencional de mulheres no ambiente doméstico cresceu 17% em cinco anos, enquanto o assassinato de mulheres nas ruas diminuiu 3% no mesmo período.

Mulheres morrem mais nas mãos dos parceiros afetivos 
"Ainda que não haja uma correspondência exata entre feminicídio e morte em casa, este local da morte é um indicativo de feminicídio se considerarmos a premissa básica de que a casa é o lugar mais perigoso para as mulheres, que morrem mais nas mãos dos parceiros afetivos do que de quaisquer outras pessoas", explica a socióloga Wânia Pasinato, especialista em violência de gênero contra as mulheres.
Segundo ela, houve aumento das mortes de mulheres em casa por arma de fogo (cuja taxa aumentou 30% em dez anos) em relação ao dado global de mulheres (21% no mesmo período). As que mais sofrem com a violência são as negras. Enquanto a taxa delas é de 5,6 mortes por 100 mil habitantes, o índice das mulheres não negras (brancas, amarelas e indígenas) é de 3,2. As mortes de pardas e pretas também aumentam em maior velocidade: cresceram 30% entre 2007 e 2017, diante de uma alta seis vezes menor entre as não negras.

Crimes também aumentam contra a população LGBTI+
Outro grupo que teve aumento nas notificações de agressões foi o da população LGBTI+, que, segundo o Atlas, sofrem um processo de invisibilidade da violência sofrida, uma vez que o registro policial ou de óbito não descreve orientação sexual ou de gênero da vítima. O estudo aponta que houve um aumento de 10% nas notificações de violência contra gays e de 35% contra bissexuais de 2015 para 2016, chegando a um total de 5.930 casos naquele ano. Mais da metade das vítimas é mulher e cerca de 70% dos agressores são homens. Esse número inclui agressões físicas, psicológicas, sexuais, tortura, entre outras. 
Já os dados do Disque 100 mostram um aumento de 127% nos homicídios contra gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros entre 2016 e 2017. Essas mortes pularam de 85 para 193 no período. 

Feminicídio e violência doméstica
Dados anuais de processos que tramitam na Justiça 

Alteração na Lei Maria da Penha amplia proteção de mulheres com deficiência
Uma alteração na lei Maria da Penha (Lei 11.340/06) acaba de ampliar a proteção de mulheres com deficiência: desde junho, passou a ser obrigatório que todos os Boletins de Ocorrência - referentes à violência doméstica - informem se a vítima tem algum tipo de deficiência. A nova norma prevê, ainda, que no registro policial deve dizer se a violência sofrida resultou em sequela, deixando a vítima com algum tipo de deficiência ou com agravamento de deficiência preexistente.
Porque o Código Penal prevê que, nos casos de violência doméstica, a pena seja mais rigorosa quando a vítima tem alguma deficiência. 
E em algumas situações, a deficiência é resultado das agressões sofridas. Um grande número de mulheres adquiriram alguma deficiência, principalmente mulheres muito jovens; sofrem problemas auditivos, outras sofreram violência e em função disso tiveram perda visual.
O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos declarou que a mudança na Lei também visa mapear os casos de violência doméstica envolvendo vítimas com deficiência.

OS NÚMEROS 
- A cada minuto, 9 mulheres sofrem algum tipo de violência no Brasil - e menos da metade é reportada à polícia.
- Em 2018, o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência) registrou 46.510 casos de violência contra a mulher. Destes, 8,5% são de mulheres com deficiência. 
- Segundo o Ministério da Saúde, no ano passado, 117.669 mulheres vítimas de violência doméstica foram atendidas em todo o país. Deste total, 6% aparecem no registro com alguma deficiência.
- O Atlas da Violência 2018 mostrou que, de 22.918 casos de estupro, 10,3% são de pessoas com deficiência. Entre os casos de estupro coletivo, 12,2% das vítimas tinham algum tipo de deficiência.
- Em 2018, segundo um levantamento do Datafolha, encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de mulheres agredidas fisicamente alcança quase 5 milhões, uma média de 536 mulheres por hora em 2018; e 177 espancadas.

Com relação à procura pela polícia após a agressão, muitas mulheres não fazem a denúncia por medo de retaliação ou 
impunidade: 22,1% delas recorrem à polícia, enquanto 20,8% não registram queixa, indica estudo do Ipea.




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