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As medidas adotadas para evitar o desperdício no município

05/08/2019 - Por Jornal Semanal
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Cada brasileiro joga mais de 40 quilos de comida no lixo por ano, aponta pesquisa
Comportamento comum entre famílias de diferentes classes sociais é  determinado por um hábito enraizado entre a população brasileira: a mesa farta

Muito comum nos lares dos brasileiros, a cultura do "melhor sobrar do que faltar" é um dos costumes que ajudam a aumentar o desperdício de alimentos no país.
Pesquisa realizada no fim de 2018, em 1.764 lares, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que o arroz e o feijão não são somente a base da alimentação do brasileiro, como também estão entre os alimentos mais desperdiçados. Juntos, os dois correspondem a 38% de toda a comida jogada fora no país. Em relação ao total da amostra pesquisada, os alimentos mais desperdiçados são: arroz: 22%; carne bovina: 20%; feijão: 16% e frango: 15%.
O levantamento ouviu em torno de 1,7 mil famílias. De acordo com especialistas que elaboraram o levantamento, o não aproveitamento da sobra das refeições é o principal motivo para o descarte de arroz e feijão. Outros motivos para o desperdício são a busca pelo melhor sabor e a cultura da "mesa farta".

Arroz com feijão é o que mais vai para o lixo: 38%. Famílias reconhecem que é importante evitar o desperdício, mas, na prática, isso não acontece na maioria dos lares dos brasileiros

Cultura da fartura
No Rio Grande do Sul, por exemplo, o hábito de estocar alimentos e fazer uma grande compra do mês - o tradicional rancho -, leva ao desperdício, que vai desde manter geladeira e despensa cheias, até a falta de planejamento das refeições diárias. 
A pesquisa também revela algumas contradições no comportamento do consumidor. Enquanto 94% dizem ser importante evitar o desperdício, 59% não dão importância se houver comida demais na mesa ou na despensa.

Alimento no lixo
O estudo apontou outro dado preocupante: o brasileiro desperdiça 41,6 kg de comida por ano. Uma das explicações para o desperdício é que a maioria das pessoas cozinha uma quantidade maior de comida para ser congelada e consumida aos poucos. Distante dessa realidade, no entanto, mais de 5,2 milhões de brasileiros passaram um dia ou mais sem consumir alimentos no País ao longo de 2017, segundo dados revelados pela Organização das Nações Unidas (ONU).

1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados por ano no mundo
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) informa que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são perdidos no planeta a cada ano, cerca de 30% do total produzido por ano no planeta.
De acordo com Juliana Dei Svaldi Rossetto, responsável pelo tema junto à FAO no Brasil, a Agenda 2030 da ONU conta com um item específico para enfrentar o problema, visando a redução pela metade do desperdício per capita mundial até 2030, bem como diminuições das perdas nos sistemas de produção e abastecimento, incluindo no momento pós-colheita.
Segundo o organismo internacional, o desperdício responde por 46% da quantidade de comida que vai parar no lixo. Já as perdas - que ocorrem sobretudo nas fases de produção, armazenamento e transporte - correspondem a 54% do total.

No Brasil, combate ao desperdício de alimentos é um grande desafio 
O Brasil ainda não tem uma política nacional que regule iniciativas de combate ao desperdício de alimentos e defina o destino de sobras do processo de produção, comercialização e consumo, mas, na Câmara dos Deputados, tramitam atualmente quase 30 projetos de lei com esse objetivo. 
A maioria dos projetos em análise na Casa pretende acabar com a punição civil e criminal de doadores de alimentos. Hoje, supermercados ou empresas distribuidoras de produtos alimentícios podem ser responsabilizados caso doem algum produto e este cause algum mal-estar ou problema de saúde à pessoa que o recebeu.
Para pesquisadores do tema, essa restrição, que consta dos Códigos Penal e Civil, é um dos entraves ao aumento das doações de sobras de alimentos no país. "No Brasil, temos uma situação muito estranha: restaurantes, empresas processadoras de alimentos não podem doar alimentos que sobram, porque a responsabilidade é delas, se houver qualquer tipo de problema de saúde. É uma legislação que vai no sentido do desperdício, porque impede o reaproveitamento", diz o professor doutor Sérgio Sauer, da Universidade de Brasília (UnB).

'Projeto Bom Samaritano'
Uma das primeiras propostas elaboradas com o objetivo de mudar essa situação é o Projeto de Lei (PL) 4.747, que tramita há 19 anos na Câmara e é conhecido como Lei do Bom Samaritano. Pelo projeto, pessoas físicas ou empresas que, por intermédio de entidades sem fins lucrativos, doarem a pessoas carentes alimentos industrializados ou preparados ficam isentas de responsabilidade civil ou penal, em caso de dano ou morte causados ao beneficiário pelo consumo do bem doado.
A isenção depende, porém, de ficar comprovado que não houve dolo ou negligência da parte do doador. A proposta aguarda aprovação dos deputados desde 1998. Nesse período, outros projetos com teor parecido foram criados e também aguardam avanço na tramitação.

Resolução da Anvisa
No Brasil ainda não é possível direcionar os alimentos que perderam seu valor comercial para doações. 
Segundo representantes de associações de supermercados, o problema está nos entraves legais. O que existe hoje é a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a RDC 216/2004, que trata do Regulamento Técnico de Boas Práticas para os Serviços de Alimentação e estabelece uma série de regras para que estabelecimentos comerciais doem suas sobras. Trata-se de algo  rigoroso para os empresários. Muitos supermercadistas alegam que a legislação precisa evoluir, que o rigor seja reduzido, sem perder a segurança alimentar. 

Dicas para desperdiçar menos
- Substitua as compras mensais por semanais
Além de poder comprar itens mais frescos, você só vai adquirir o que realmente precisa e evitar que alimentos estraguem na dispensa. Faça uma lista do que está em falta para não comprar coisas extras.
- Planeje a sua semana
Seja realista e avalie quantos dias vai comer em casa ou em quantos vai levar marmita para o trabalho. Só prepare uma quantidade de alimento para esse período para não deixar sobras na geladeira.
- Congele folhas e legumes
Acondicione com muito cuidado os alimentos a serem congelados e retire todo o ar de dentro das embalagens. O ar prejudica o processo de congelamento. Identifique com uma etiqueta o nome do alimento, a quantidade, a data de validade e a data do congelamento. Congele o alimento imediatamente após colocá-lo nas embalagens apropriadas, a uma temperatura de -18°C, em porções que sejam utilizadas de uma só vez.
- Transforme um alimento
Inove na cozinha e utilize ingredientes para receitas inusitadas. Legumes que estão fazendo aniversário na geladeira, por exemplo, podem virar recheio de uma torta; o inhame ou a batata-doce podem virar uma vitamina, e a couve e a beterraba, um suco.

'Devemos ter um planejamento alimentar, ou seja, preparar somente o que for realmente consumido', orienta nutricionista
Nutricionista Daniela da Rosa Baraldi fala da importância de reaproveitar as sobras e também cascas, talos e folhas em novas preparações
Segundo a nutricionista  da Prefeitura de Três de Maio, Daniela da Rosa Baraldi, até o momento não existe legilação municipal específica que trata sobre desperdício de alimentos. "Existem orientações para que as sobras de alimentos sejam as menores possíveis. Por exemplo, nas escolas de educação infantil e fundamental não é permitida a entrada de alimentos de fora da escola, ou seja, os pais mandarem lanche para todas as crianças (por exemplo, num aniversário, mandar doces ou salgados para as crianças). O motivo para isso é devido a possíveis intoxicações alimentares e também ao Projeto Alimentação Saudável do qual doces e salgadinhos, entre outros alimentos, estão restritos no período escolar", explica.

Cardápio escolar conta com livros de receitas desenvolvidos pelas próprias merendeiras. As preparações utilizam todas as partes dos alimentos, como cascas, talos, folhas e sementes, evitando assim o desperdício

Reaproveitamento nas escolas
Questionada sobre o destino dado aos alimentos que sobram da merenda escolar, a nutricionista informa que as escolas são orientadas a fazer as quantidades suficientes para a demanda escolar. "Quando ocorre essa situação os alimentos são devidamente congelados para posterior reaproveitamento onde são desenvolvidas novas receitas. Como exemplo cito bolinhos, pizza de arroz ou bolos salgados.  O cardápio escolar conta com livros de receitas desenvolvidos pelas próprias merendeiras, no qual essas preparações utilizam todas as partes dos alimentos, como cascas, talos, folhas, sementes, evitando assim o desperdício", ressalta.

Criatividade para reinventar pratos
A nutricionista enfatiza que é importante ter um planejamento alimentar, ou seja, preparar somente o que for realmente consumido, evitando que muita comida vá para o lixo. "Porém, como isso na maioria das vezes é muito difícil, é importante procurar reaproveitar as sobras e também cascas, talos, folhas em novas preparações". 
Ela exemplifica: as cascas de banana e mamão podem ser utilizadas para preparar bolos integrais. "Cascas de abacaxi servem para fazer chá, que é muito diurético. Sobras de arroz podem ser usadas para preparar bolinhos e nessa mesma preparação, podem ser agregados talos ou folhas que seriam desperdiçadas. Isso vai garantir uma preparação rica em nutrientes", destaca. 
Segundo Daniela, os pães podem ser torrados e depois usados para fazer farinha de rosca para empanar os bolinhos. "Outra dica legal com as frutas que estão muito maduras é congelar e depois fazer um shake ou vitamina de frutas com leite".
A nutricionista complementa dizendo que as sobras de carnes podem ser moídas e virar croquetes ou até mesmo uma farofa com os talos de verduras. "Enfim, podemos aproveitar tudo. Precisamos apenas usar nossa criatividade e reinventar pratos; tudo com certeza ficará muito saboroso", resume.

Dicas simples de reaproveitamento:
- Rama da cenoura: a rama pode ser utilizada nos mesmos pratos que a salsinha. Como ela é mais dura, refogue com a cebola no início das preparações (não no final, como a salsinha). 
- Chips: reserve cascas de batata, cenoura, beterraba, chuchu. Leve -as ao forno, em temperatura baixa, sobre papel manteiga e salpicadas de um pouco de sal grosso e alecrim, até secarem e ficarem crocantes.
- Cascas de laranja, limão e tangerina cristalizadas: retire somente as cascas, sem a pele branca, e fatie -as em tiras finas. Ferva-as por 1 minuto em água com uma pitada de sal, escorra bem, lave e repita a operação mais duas vezes para suavizar o sabor amargo. Depois, prepare uma calda com açúcar e água, acrescente as cascas e deixe -as em fogo baixo até quase toda a calda evaporar. Espalhe as cascas sobre papel manteiga, deixe esfriar um pouco e polvilhe açúcar cristal.

PÃO DE FOLHAS E TALOS
Ingredientes:
. 2 xícaras (chá) de folhas e talos picados (folhas ou talos de brócolis, de beterraba, de espinafre, talos de couve-flor) 
. 1 ½ xícara (chá) de água
. 1 ovo
. 1 colher (chá) de açúcar
. 3 colheres (chá) de sal
. 1 tablete de fermento biológico
. 3 colheres (sopa) de óleo
. 4 ½ xícaras (chá) de farinha de trigo
. Óleo e farinha para untar
Importante: Lave bem as cascas, talos e folhas antes de preparar as receitas.


'Tem tanta gente passando fome. Temos que dar mais valor ao alimento do dia a dia', diz dona de casa
O derperdício de alimentos acontece praticamente em três níveis: entre os consumidores (nas casas), pelo varejo (restaurantes e supermercados) e pelos produtores rurais.
Nas casas, podem haver sobras do café da manhã ao jantar: desde um pão que não foi todo consumido; ao arroz que sobrou na panela e foi parar num pote dentro da geladeira, até uma fruta que não estava doce o suficiente e foi descartada no lixo. 
Na casa da família de Jorge e Clarice Juchem, moradores do Bairro Guaíra, o desperdício de alimentos é evitado e as sobras são destinadas para o consumo dos animais de estimação. Mas, mesmo assim, às vezes, restos de comida vão parar no lixo.
Clarice afirma que procura fazer somente o necessário para as refeições, "sem inventar muitos pratos", para evitar a sobra de "muita comida", que depois não vai ser consumida. "Tem tanta gente passando fome e a gente jogando resto de comida fora. Não gosto de fazer isso. Se a gente der mais valor para o que temos - o alimento do dia a dia -, essa realidade pode mudar", diz a dona de casa, mãe de um casal de filhos.

Dona de casa Clarice Juchem procura fazer somente o necessário para as refeições para evitar sobras de comida

Supermercados e restaurantes se adaptam para evitar desperdício
Em contato com alguns restaurantes e supermercados locais, o Semanal constatou que os estabelecimentos se adaptam para evitar desperdícios.
Em um supermercado, o gerente informa que os cuidados com o desperdício são adotados na projeção das venda, ou seja, só é comprado ou produzido a quantia projetada para a venda do período. Em situações que excedem a programação das vendas, ocorrem doações para algumas entidades interessadas. Mas isso só acontece quando o item estiver em condições de ser consumido de forma segura, afirma o gerente.
Todos os dias ocorrem seleções e alguns itens (frutas, verduras e legumes) são descartados por deterioração e acabam sendo destinados uma propriedade rural para finalidade de compostagem, adubação e trato animal, conforme orientação da legislação ambiental.
A mesma situação ocorre em outro supermercado, quando as sobras da fruteira, grande parte retornam aos produtores ou vendedores de origem como devolução ou troca, e as demais quase que na totalidade são descartadas para consumo animal, doadas pra criadores de porcos ou utilizadas como alimento para peixes em sítio. Uma pequena parte é doada para alguma entidade ou sociedade que queira fazer molho quando solicitado (tomates e cebolas).
Por outro lado, em um restaurante, as pizzas que sobram os funcionários levam para casa e o restante dos alimentos prontos que sobram são levados para casa para tratar os cães.




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