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Criança e tecnologia: até que ponto elas combinam?

24/05/2019 - Por Yara Lampert
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A realidade virtual vem, progressivamente, confundindo seus limites com o mundo real no cotidiano de crianças e adolescentes. Hoje em dia eles já nascem imersos no meio digital. Basta lembrar que uma das primeiras providências dos pais ao terem um bebê é postar suas fotos nas redes sociais. Não à toa, essa é a chamada geração digital. É natural que, com a presença marcante das tecnologias, as crianças sejam capazes de manejar e usufruir cada vez mais cedo de smartphones e tablets. Mas o uso precoce da tecnologia é benéfico ou prejudicial? Com a palavra a psicóloga clínica Katia Regina Schneider, especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho.

Como usar a tecnologia na infância sem causar danos?
Depende de quando e como ela é utilizada. A Academia Americana de Pediatria (APA), que é seguida pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), orienta que, até os 2 anos de idade, não haja exposição à TV, ao computador, ao celular ou ao tablet. Nesse período, o cérebro está em franco processo de desenvolvimento, o que requer contato com incentivos variados e ativos. As experiências de relação com as telas, como TV, celulares ou tablets, por mais que encantem e prendam a atenção, não são suficientes para promover estimulação semelhante como a da vida real. Além de promoverem aprendizagem por repetição - do tipo "aperte o botão" - induzem a passividade, o isolamento e a diversão solitária, na contramão do que desejamos para a vida da criança.

Como ficam as habilidades das crianças?
O problema é que as habilidades digitais estão se sobrepondo à aquisição de competências que só adquirimos nas interações reais. É preciso lembrar que crianças pequenas aprendem por meio da interação com pessoas e coisas, logo, elas precisam ter uma gama de estímulos que requeiram o uso de todas as competências envolvidas. As capacidades motoras, as interações verbais, o tato, a visão, o paladar e o olfato devem estar integrados nas experiências com seu ambiente. Estas, aliadas à socialização, são fundamentais para um crescimento saudável.

Para uma criança, convívio social, com brincadeiras criativas e atividades manuais é o cerne do aprendizado? Brincando, ela aprende acerca das coisas e das pessoas, bem como sobre ela mesma, na medida em que vai se surpreendendo com suas habilidades. Qual o papel dos pais?
Cabe aos pais selecionarem o que as crianças podem ver e monitorarem o tempo de uso de qualquer dispositivo eletrônico. Nessa fase, não mais do que 60 minutos por dia, até porque o tempo de atenção e concentração delas a qualquer atividade é bem mais curto que o do adulto.
Não vale abusar da curiosidade natural da criança e deixá-la brincando indefinidamente com os dispositivos, com a ideia de que assim ela ficará quietinha e não incomodará os mais velhos, quando estes estão conversando ou querem jantar sossegados, por exemplo.
Os adultos são os modelos das crianças para apreender como as coisas funcionam. Se os pais fazem uso indiscriminado da tecnologia no dia a dia e não dispõem de tempo para dar atenção focada aos filhos, estes tenderão a se refugiar nos aparelhos como forma de se ocupar e obter alguma satisfação mais imediata. Só que, dessa forma, criam um hábito que, além de ser prejudicial, não elimina a frustração de um contato desatento e pouco receptivo com os pais. É preciso reservar parte do tempo para as brincadeiras "corpo a corpo" com a criança. São elas que ajudam a fortalecer a autoestima, a criar o sistema de valores, a tranquilizar e a dar segurança.

Como vincular tecnologia e as brincadeiras? 
Também não devemos vincular algo da rotina da criança ao uso da tecnologia, principalmente quando se trata de atividades essenciais até à sua saúde, é muito ruim quando a criança só dorme ou só come se puder ver um desenho no tablet ou brincar com o celular. A autoridade dos pais para colocar limites é essencial para dar o valor de cada uma dessas experiências.

O que fazer diante de tantas tecnologias?
Nos dias de hoje, o tempo passa rápido demais. Muito rápido, tão rápido que nem dá tempo de tentar entender e processar o que foi vivido nas poucas horas atrás.
A molecada acorda cedo, vai para a escola. Chega em casa, almoça ao mesmo tempo que assiste TV, atualiza a conversa no WhatsApp, checa o Facebook, curte páginas dos amigos, coloca em dia as curtidas do Instagram. Se perguntar quem dividiu a mesa com eles é possível que nem tenham se dado conta, pois estão mais próximos dos amigos "virtuais" do que daqueles que compartilham o mesmo espaço, a mesma mesa e a mesma comida com eles. Mas o mais trágico nisso tudo é que os pais, também, estão sentados à mesa assistindo TV, atualizando a conversa no WhatsApp, checando seu Facebook, colocando em dia as curtidas do Instagram e comentando de forma superficial as reportagens da TV.

Como limitar?
Assim como em outras atividades, o uso das novas tecnologias exige muito dos pais numa das tarefas mais difíceis e complicadas: a aplicação dos limites. É possível que, em situações de uso excessivo das tecnologias, possa haver uma certa dificuldade da família em impor limites claros aos filhos. Dar permissão para o acesso não é igual a dar autonomia. Crianças e adolescentes precisam de regras, os limites precisam estar claros. Uma boa estratégia é definir previamente o tempo de uso, com horários previamente estabelecidos (antes mesmo da criança ganhar o próprio tablet, por exemplo).

Como os pais e responsáveis podem orientar?
É papel dos pais e responsáveis orientar o uso correto das tecnologias, indicando as consequências da utilização inapropriada para seus filhos, e ficar atento ao que seu filho acessa. Impedir o uso das tecnologias não é a solução para evitar possíveis problemas. A orientação, conversa e os limites são necessários para um bom uso e aproveitamento das diversas vantagens que os avanços tecnológicos nos proporcionam, principalmente, na educação.
É importante manter um diálogo aberto para instrução e orientação, esclarecer dúvidas, alertar sobre perigos e riscos, verificar o que os seus filhos estão acessando, classificação indicativa de conteúdos e faixa etária, explicar o porquê da cautela e das possíveis proibições. Educar na sociedade da informação não é apenas investir em aparato tecnológico e ensinar a usá-lo. Não adianta a criança saber como utilizar a ferramenta digital, é preciso educá-la sobre como utilizá-la de maneira responsável, ética e segura.




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