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O envelhecimento e as relações familiares

29/03/2019 - Por Yara Lampert
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Em 2015, o Brasil tinha cerca de 24 milhões de brasileiros com mais de 60 anos. Em 2050 serão 64 milhões. Quem faz essa afirmação é o presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil, Alexandre Kalache. 
Todos nós temos algum familiar idoso e, certamente, todos nós queremos chegar a velhice. Como podemos envelhecer com qualidade? Mas como estão nossos idosos? Para falar sobre este tema, trago uma entrevista com a psicóloga clínica, especialista em psicologia organizacional e do trabalho, Katia Regina Schneider. Katia é psicóloga no Lar dos Idosos de Três de Maio.

A população está envelhecendo?
O número de famílias que tem se confrontado com as particularidades do envelhecimento e/ou adoecimento de um de seus membros, vem aumentando progressivamente. O aumento indiscutível do envelhecimento das populações nos faz considerar que este processo requer medidas e serviços especializados de apoio social. 
O aumento da expectativa de vida da população, fruto dos avanços da tecnologia e da medicina, é considerado uma conquista pela sociedade. Em consequência, há um aumento da parcela de idosos na população, acarretando mudanças no perfil das demandas da sociedade e das famílias de diferentes formas. De modo geral, a família toma para si a responsabilidade pelos seus idosos e enfrenta uma série de consequências naturais do envelhecimento e dos cuidados com o idoso, doente ou não. O envelhecimento representa a última fase do ciclo da vida, as relações familiares nessa fase serão marcadas por uma nova estruturação de papeis.
Quando o envelhecimento passa a ser visto como um problema, e para o idoso ter significado de morte, este se coloca ou acaba sendo colocado em uma posição negativa de sua existência, com isso, a perspectiva de presente e de futuro se fecha e faz nascer um sentimento de perda da própria existência. 

Velhice não é doença
Os estudos sobre o envelhecimento mostram que a saúde na velhice depende muito de hábitos de vida saudáveis e de cuidados que a pessoa recebeu ao longo de toda a vida. Esses estudos permitem afirmar que velhice não é doença. No entanto, sabemos também que as pessoas idosas são, em geral, mais vulneráveis, e, ficam mais sujeitas a adoecer e, quando adoecem, demoram mais para sarar. Numa população envelhecida, há aumento de doenças crônicas, isto é, doenças que não tem cura, como pressão alta, diabetes, reumatismos, doenças do coração, do pulmão, do fígado, demência, câncer, entre outras, que podem deixar marcas e complicações, levando a incapacidades, dependência, necessidade de cuidados de longa duração e instituições de longa permanência.

A família e o cuidado com o idoso
Historicamente a família sempre teve um papel importante no cuidado e na proteção dos membros que a compõem. A definição para o verbo cuidar é: cautela, precaução, zelo, atenção. Quando se trata de envelhecimento, o cuidado é algo ainda maior, pois é, na realidade, atitude de preocupação, ocupação, responsabilização e envolvimento afetivo. O cuidado embora sendo uma prática que faz parte da história é algo recente, cuidar é uma atividade que vai além do atendimento às necessidades do ser humano no momento que se encontra doente. O cuidado aparece quando alguém próximo necessita dele, e por sua natureza é uma atitude de atenção e carinho, ao mesmo tempo em que é uma preocupação e inquietação.
Deve-se levar em consideração a autonomia, a independência do idoso, assim como sua capacidade para o desempenho de atividades rotineiras e sua vontade de ficar em determinado espaço, quando este ainda tem lucidez para isso.

Cuidar de quem cuida
Atualmente rompeu-se com essa visão de isolamento. Hoje o cuidado é visto como uma questão de saúde e assistência produzindo uma revalorização do ambiente familiar, onde o bem-estar da pessoa cuidada é o principal objetivo da família.
O ato de cuidar é muito complexo pois, em certos momentos, o cuidador é tomado por sentimentos diversos, como raiva, culpa, medo, angústia, confusão. Tais sentimentos podem ser simultâneos e devem ser compreendidos pelos que cercam o cuidador, pois faz parte da relação entre ele e a pessoa cuidada. Quando um cuidador está disponível somente para esse fim, a carga sobre ele poder ser muito significativa, sendo muito importante haver opções de lazer e outras atividades, mesmo que voltadas as necessidades emanadas pelo idoso.
De um modo geral, as pessoas encarregadas do cuidado e suas famílias tem pouco preparo para administrar essa situação. A ajuda de profissionais especializados é primordial na determinação do bem-estar do idoso e de quem cuida do idoso. O cuidador precisa colocar regras em sua rotina e impor um dia para cuidar de si, da sua saúde e do seu bem-estar. É necessário que o cuidador tenha consciência da necessidade deste autocuidado e que se organize junto com os outros familiares e com sua agenda para buscar aquilo que considera positivo para proporcionar-lhe benefícios físicos, mentais e emocionais. 

A convivência familiar
A sociedade vem mudando seus conceitos e paradigmas em relação à família e ao idoso. Falar sobre as relações familiares é um assunto complexo, pois existem muitas discordâncias em relação aos cuidados para com o idoso. É necessário ter uma visão crítica quando se fala na importância da família na vida do idoso, porém, cabe a cada um de nós, reconhecer e aceitar o valor que a família tem na vida do idoso, e essa visão, esse olhar, depende da maneira como cada indivíduo vê e convive com a família.
Superar os preconceitos e oferecer garantias de um envelhecimento mais pleno, satisfatório e com respeito, é obrigação de todos. Logo, é necessária uma reflexão sobre a própria velhice do indivíduo, bem como a construção de um futuro com vivência mais positiva, tranquila e facilitada. Afinal, pressupõe-se que será uma etapa a ser vivida por todos nós, e o indivíduo já em sua fase jovem/adulta deveria desenvolver um aprendizado constante, para uma transição tranquila durante o processo de envelhecimento dentro do convívio familiar.

Katia Regina Schneider é psicóloga no Lar dos Idosos
de Três de Maio



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