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Jovem com deficiência visual se forma em Psicologia

01/02/2019 - Por Jornal Semanal
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Três-maiense sempre estudou em escola regular e tem planos de fazer pós-graduação e trabalhar
O dia 19 de janeiro ficará marcado para sempre na memória de Tales Rodrigues de Almeida. Aos 22 anos, o jovem de Três de Maio que tem deficiência visual se formou em Psicologia pela URI (Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões) de Santo Ângelo. O gosto pelos estudos é tanto, que Tales saiu do ensino médio direto para a graduação, agora vai emendar uma pós-graduação e tem projeto de fazer mestrado.
A dificuldade de conseguir matricular Tales, que tem glaucoma, em uma escola comum, não fez com que os pais José Santos de Almeida e Adiana Rodrigues de Almeida desistissem e optassem por uma escola especial. A certeza de que o filho tinha condições de acompanhar as aulas em uma escola regular fez com que lutassem por isso até conseguir. O aluno aplicado sempre foi bem na escola e passou em todos os vestibulares que fez para entrar na faculdade de Psicologia em 2014. Agora, com o diploma na mão, engana-se quem pensa que Tales vai parar por aí. Continuar estudando e começar a trabalhar fazem parte dos planos dele para 2019.

Como estuda um deficiente visual?
Tales aprendeu braile e usa no dia a dia para ler, mas para concluir os estudos foi preciso muito mais. "Hoje em dia, para estudar da maneira mais próxima a uma pessoa sem deficiência, conseguir manter o nível de aprendizagem e acompanhar as aulas no mesmo ritmo, é através do computador. Foi uma experiência muito proveitosa", explica. 
O psicólogo afirma que os mecanismos para acompanhar a aula são praticamente os mesmos. "Os professores usam bastante slides e PDFs. Então fica mais fácil acompanhar. A diferença é quando o professor leva texto em papel para aula, aí ele precisa escanear esse texto em um escâner um pouco diferente e enviar antes da aula para eu ter o texto". 
Ele conta que a instituição comprou esse equipamento logo que começou a estudar e enfatizou o interesse da instituição de ensino em promover a inclusão.
"A minha ideia sobre inclusão é um caminho que tu tem que ir ao encontro ao resto do mundo", explica Tales afirmando que muitas vezes as pessoas com deficiência esperam ser incluídas, mas não fazem a parte delas. "Eu sempre digo que não adianta você fazer algo por mim e eu não fazer nada para me ajudar. Então isso pra mim é inclusão também", relaciona.
Ele lembra que no início da faculdade ficava mais no seu canto, mas que os colegas o procuravam e ofereciam ajuda e que com o tempo fez grandes amizades. 

Planos para o futuro
Tales conta que um de seus professores ouviu sua entrevista em uma rádio de Santo Ângelo no ano passado e gostou da forma como ele aborda a inclusão. "Ele achou que o meu tema é compatível com o mestrado que tem na Unicruz, em Cruz Alta e perguntou se eu gostaria de fazer o projeto para me inscrever no processo seletivo do mestrado. Mas eu tinha apenas dois dias para fazer esse projeto". Ele aceitou o desafio e, correndo contra o tempo, Tales se focou no projeto, enquanto o professor foi atrás de todos os documentos para a inscrição.
O foco agora é trabalhar sobre os paradigmas e estereótipos sobre pessoas com deficiência. "Por exemplo, o principal estereótipo que eu trago é imaginar uma pessoa em casa trancada, assistindo TV e tomando um mate e, por ela ser uma pessoa com deficiência, as pessoas pensarem que essa é uma situação normal, que ela não precisa fazer nada, estudar e trabalhar. Esse estereótipo de ver a pessoa vivendo e pensar que ela é um super-herói porque a maioria das pessoas imagina que não é assim", conta.
O projeto de Tales foi aprovado no mestrado, mas não iniciou porque não conseguiu bolsa. "Continua sendo um sonho pra este ano. Vou tentar em uma faculdade federal para conseguir de forma gratuita", afirma destacando, ainda, que vai se matricular na pós-graduação em Terapias Cognitivo-Comportamentais, da Setrem, que também é um objetivo antigo. "É mais focada na clínica, que é uma área da qual eu gosto bastante", relata.
Recém-formado, Tales está em busca de sua primeira oportunidade de emprego e diz que sua procura não está restrita a área da Psicologia. "Eu aprendi com a faculdade que fazer uma graduação é uma experiência de crescimento para a vida. Então, é isso que eu busco num emprego: uma oportunidade de crescer tanto profissionalmente, quanto pessoalmente", relata. Ele costuma dizer que pode nunca trabalhar como psicólogo, mas os aprendizados que teve na faculdade o tornaram uma pessoa melhor. 

Ensinamento para a vida toda
Tales conta o que ouviu em uma palestra e que leva como ensinamento para a vida toda. "Na vida a gente precisa de três coisas para ter inteligência emocional: as escolhas, as oportunidades e a força de vontade. O palestrante deu como exemplo que 1% das pessoas do mundo gosta de trabalhar com coisas relacionadas a sangue. Então, dependendo das tuas escolhas, das oportunidades e da tua força de vontade, se tu gosta de trabalhar com sangue tu podes ser um açougueiro, um médico ou um assassino. Então é isso. A gente tem o controle da maioria das situações da nossa vida. Cabe a gente fazer escolhas boas, ter boas oportunidades e ter força de vontade para conseguir alcançar os objetivos", conclui.

Tales acredita que a inclusão é ir ao encontro do outro e não apenas 'esperar ser incluído'



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