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Exemplos de superação falam sobre os desafios enfrentados para ter uma vida melhor

18/01/2019 - Por Jornal Semanal
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A importância da família no tratamento de pacientes do Caps é fundamental para suportar os problemas
A saúde mental vem recebendo cada vez mais atenção dos governos e da sociedade. Não é difícil encontrar alguém que sofra com depressão, alcoolismo e drogas, por exemplo. É para tratar pessoas com problemas como esses que existe o Centro de Atenção Psicossocial (Caps). As unidades prestam serviços de saúde e são formadas por equipe multiprofissional que realiza atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, tanto em situações de crise ou nos processos de reabilitação psicossocial.
O Caps de Três de Maio é coordenado pela psicóloga Kátia Goelzer, especialista em Administração e Estratégias de Saúde Mental Coletiva e atende 220 pacientes atualmente. Cada paciente tem seu plano terapêutico. Todos recebem atendimento individual e, quando estabilizados, participam de terapia de grupo. Alguns são acompanhados por visita domiciliar, internação psiquiátrica em hospital especializado, internação em comunidade terapêutica. O tempo de tratamento depende de cada caso. Para doenças crônicas o tratamento é contínuo.
De acordo com Kátia, o maior objetivo do Caps é trazer as famílias para o tratamento, pois muitas acompanham na hora da crise e transferem para a equipe o cuidado, até mesmo da medicação. "Temos grupos de familiares concomitantes com grupos terapêuticos, grupo de familiares de pacientes internados, com objetivo de explicar sobre a doença e preparar a família para o retorno do paciente ao lar. Este é um grande desafio, pois indiferente de classe social ou situação econômica, o tratamento, às vezes, não tem sucesso porque os familiares não colaboram nesse processo de entendimento desse sofrimento que muitas vezes requer mudança da dinâmica familiar", explica.
O trabalho exige dedicação dos profissionais, dos pacientes e de suas famílias. E quando todas as partes se empenham sem medir esforços, os resultados são positivos e mudam a vida das pessoas. O Caps existe há cinco anos em Três de Maio. Através dele, muitas vidas foram transformadas, muitas famílias trocaram os medos e as lágrimas por motivos para sorrir e comemorar. 
A seguir algumas histórias inspiradoras de pacientes atendidos pela unidade. Certamente muitos leitores identificarão amigos e familiares que passam por problemas semelhantes e encontram-se sem esperanças.  Aqui estão alguns exemplos de que vale a pena lutar, ajudar e melhorar. 

'Não existe um ex-alcoólatra. Existe um alcoólatra que consegue ficar sem beber. A família tem um papel importante no incentivo e na manutenção do tratamento', diz Luiz Carlos, 40 anos

Luiz Carlos Zambonato, 40 anos, teve problemas com alcoolismo por muitos anos. "Começou com 11 anos de idade. Nos churrascos eu tomava caipirinha com o pessoal. Eu ganhava dinheiro para comprar chocolate e eu ia comprar bebida", relata. Ele disse que não sabe bem o motivo que o levou ao alcoolismo, mas que ter sido criado sem pai é algo que lhe marcou bastante. "Eu estava muito errado. Andava sempre alcoolizado. Estava perdendo o meu casamento, quase não vi meu filho crescer. Isso me prejudicou bastante. Até que chegou um dia, meus parentes, minha mãe, minha mulher se reuniram e me intimaram a dar uma freada. Eu deveria procurar ajuda para buscar um novo rumo na vida", conta. 
Foi neste momento que Zambonato procurou ajuda e, após 32 dias de internação, procurou o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) para continuar o tratamento. "Com isso, descobri que já tinha adquirido síndrome do pânico, transtorno bipolar e depressão, devido ao alcoolismo. E isso passou a afetar minha vida. Hoje vivo a base de medicamentos e faço acompanhamento no Caps há cinco anos", relata.
Daquele momento em diante, a vida passou a ter outro sentido. "Com o tratamento mudou tudo. Tive novas visões das coisas. Meu filho passou a ser tudo pra mim". Zambonato reconhece a importância da família para que ele mudasse de vida. Manter a família e não deixar o filho crescer sem pai foram pontos que o impulsionaram na busca por ajuda.
"Eu passava pouco tempo com ele, não tinha interatividade. Hoje a gente brinca, conversa". Entre os assuntos, seu problema com álcool serve de alerta para que o menino, hoje com 15 anos, não repita os passos do pai. "Nada de experimentar agora. Vai ter o momento certo e quando experimentar vai ser aos poucos e com moderação. Meu foco hoje é dar o exemplo certo para o meu filho", explica.
Hoje, cinco anos após o início do tratamento, Zambonato gosta de dar seu testemunho. "Não existe um ex-alcoólatra. Existe um alcoólatra que consegue ficar sem beber. A família tem um papel importante no incentivo e na manutenção do tratamento. Passa um tempo que a gente não sente mais falta. A gente se acostuma. Eu não consigo parar de fumar, mas parar de beber eu consegui", comemora. 

Problemas com álcool quase fizeram Zambonato perder a família. Hoje, ele restabeleceu uma relação de 
cumplicidade com o filho e alerta o adolescente, de 15 anos, sobre os perigos do álcool

Depois que começou a frequentar o Caps, há quatro anos, Ângela Maria, 42 anos, passou a interagir mais com as pessoas, voltou a estudar e terminou o Ensino Médio

Ângela Maria da Luz, 42 anos, começou sua luta contra a depressão quando tinha 19 anos. Precisou ficar internada por 20 dias até aceitar os medicamentos. Quando dava surto psicótico (que é um episódio de dissociação psíquica no qual a pessoa perde a noção da realidade e se torna incapaz de pensar racionalmente),  ela costumava sair correndo. De acordo com o pai, Bernabé da Luz, nestes episódios ela costumava fugir de casa e tinha muita força. "Nós tínhamos que amordaçar ela para conseguir levá-la de volta para casa", conta.
O tratamento levou dois anos para começar a apresentar resultados e, neste período, algumas tentativas de suicído surgiram. O pai e a mãe, Rosa Marli da Luz, se revezavam para dormir a noite com medo que Ângela tivesse um novo surto e fugisse de casa. Em alguns episódios, os pais a encontraram correndo pelas rodovias de madrugada. Eles contam que seguiram a risca os conselhos médicos que diziam que a melhor clínica era a família. "Às vezes as pessoas acham que a medicação faz tudo. É um trabalho conjunto, a família precisa estar junto, dar suporte. É um trabalho a longo prazo", relata Bernabé.
Hoje, Ângela tem bastante independência dentro de casa. Teve que reaprender tudo novamente. Sabe cozinhar, limpar, os horários de tomar os remédios. A família sempre esteve ao seu lado, incentivando, apoiando, ensinando. "O futuro vem. Nós não vamos ficar pra sempre junto com ela", explica o pai.
Depois que começou a frequentar o Caps, há quatro anos, Ângela começou a interagir mais com as pessoas e voltou a estudar. Terminou o ensino médio no Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (Neja) de Três de Maio, em 2018, incentivada pela psicóloga Juliana e pelos pais. Ângela conta que algumas vezes pensou em desistir quando não passava em alguma prova, mas por insistência e incentivo da mãe fez a prova até conseguir ser aprovada.
Olhando para os mais de 20 anos de tratamento, os pais sentem-se realizados com os resultados alcançados. "Não desejo para ninguém o que nós passamos com esse negócio de depressão. Tivemos que travar batalhas com ela em casa muitas vezes. Foi uma luta, mas, graças a Deus, fomos vitoriosos. O amor da família superou tudo", avalia o pai.
De acordo com Ângela, aquela famosa frase que diz que por trás de um grande homem existe uma grande mulher, tem outro formato para ela. "No meu caso, por trás de mim, tem grandes pais", comemora.
Com apoio dos pais, Ângela Maria luta há mais de 20 anos contra a depressão. Há quatro, frequenta o Caps

'Comecei a frequentar o Caps em agosto e estou me sentindo muito bem. Não perco as reuniões. Estou mais feliz agora', comemora Cenira, 68 anos.  Animada com a nova vida, os planos agora são viajar, coisa que sempre gostou de fazer, mas por um período ficou esquecido devido à depressão
Cenira Puhl Felten, 68 anos, deparou-se na metade deste ano Sintomas como desânimo e falta de vontade fazer as tarefas diárias levaram Cenira a pedir ajuda uma depressão profunda. Ao perceber que estava se sentindo diferente, não hesitou em pedir ajuda. "Eu não tinha força e nem vontade de fazer as coisas. Tinha dias que eu não tinha nem vontade de fazer comida. Me sentia fraca, não dormia", explica revelando os sintomas que fizeram ela procurar ajuda.
A filha, Maria Amália Felten, conta que a mãe foi internada com depressão profunda no mês de julho. "Ela teve um quadro depressivo leve há quatro anos e tomou medicação. Eu não fazia acompanhamento dela nas consultas. Ela parou de tomar medicamento e eu, na hora, não me importei, achei que o médico tivesse retirado. Com a nossa correria do dia a dia a gente não percebeu", relata.
Cenira fez uma cirurgia de varizes no mês de abril e precisou ficar de repouso. "Ela sempre foi muito ativa, não parava nunca e, de repente, precisou parar e repousar. Em maio e junho ela começou a decair. Dizer que não estava bem, que não se sentia animada. Consultou com clínico e foi medicada. Mas não parei por aí, marquei consulta com psiquiatra porque ela dizia que não tinha mais vontade de viver", conta Maria Amália. "A psiquiatra mudou a medicação, no dia seguinte ela estava bem, depois piorou, tentou suicídio duas vezes, tivemos que interna-la. O médico disse que ela só sairia do hospital para internação". Ele orientou a filha a procurar o Caps e encaminhar a internação. No mês de julho Cenira foi internada por 30 dias.
Maria Amália destaca a importância das reuniões com familiares de pacientes internados. "No meu local de trabalho eu ouvia muito. 'É só um tempo, ela não vai melhorar' ou então 'ah, você internou. Jamais ela vai te perdoar'. Tudo isso deixava a filha insegura. "Tanto que a primeira vez que eu fui visitar a mãe, fui morrendo de medo de ela me xingar. Cheguei lá e ouvi 'Obrigada por ter me trazido', revela a filha aliviada. 'Eu vinha no Caps toda segunda à tarde e ouvia os relatos. Pra gente é bom porque por mais que se tenha informação, saiba como é o problema, ouvindo o relato de outras pessoas tudo se esclarece mais".
Depois da internação, Cenira começou a frequentar o Caps. "Comecei em agosto e estou me sentindo muito bem. Não perco as reuniões. Estou mais feliz agora", comemora. Animada com a nova vida, os planos são viajar, coisa que sempre gostou de fazer, mas por um período ficou esquecido devido à depressão.

Cenira com a filha Maria Amália. Sintomas como desânimo e falta de vontade fazer as tarefas diárias levaram Cenira a pedir ajuda



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