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'Somente ajustes estruturais profundos nas contas públicas melhorarão a situação', alerta economista

11/01/2019 - Por Jornal Semanal
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'Para que tais ajustes ocorram, as reformas são fundamentais, a começar pela previdenciária', diz Argemiro Brum, para quem a reforma será um dos maiores desafios do novo governo

O economista Argemiro Brum espera "mais um ano difícil" na economia brasileira. Ele frisa que "não há milagres diante da realidade econômico-financeira em que o Brasil está" e que "não é simplesmente mudando de governo que as coisas melhoram automaticamente".
Na visão de Argemiro, que é professor do curso de Ciências Econômicas da Unijuí, "para sairmos do fundo do poço da recessão, precisamos crescer sustentavelmente ao redor de 4,5% ao ano".
"Ora, ainda estamos muito longe disso, pois crescemos 1,1% em 2017 e talvez 1,3% em 2018", contrapõe ele.
"Assim, somente ajustes estruturais profundos nas contas públicas (parar de gastar o que não se tem, além de se gastar bem) melhorarão a situação do Estado, a qual nos puxa para baixo".
Dentro disso, "para que tais ajustes ocorram, as reformas são fundamentais, a começar pela previdenciária", avalia Argemiro, em entrevista por e-mail ao Semanal. Na visão do professor, reside aí um dos maiores desafios do governo de Jair Bolsonaro (PSL).
Nesta entrevista, Argemiro fala, entre outros pontos, sobre como o mercado financeiro está recebendo as ideias e promessas do novo governo para a economia, sobre possibilidade de novo confisco das poupanças (o professor destaca não acreditar na possibilidade e diz que seria um tiro no pé), a exemplo do que ocorreu durante o governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), e sobre os riscos que o país, ainda em crise, corre diante da projeção de uma nova recessão econômica global, entre 2020 e 2024.

"O governo Bolsonaro precisa manter o tripé de sustentação da estabilidade econômica, criado ainda com FHC em 1999 (meta inflacionária, câmbio flutuante e superávit primário). Dar início a um ajuste fiscal profundo, 
as reformas estruturais, atacando a reforma da Previdência, melhorando a trabalhista e iniciando a tributária', avalia o economista"

A partir do cenário econômico com que 2018 se encerra e do que o governo Bolsonaro tem indicado que adotará no setor, o que esperar da economia brasileira em 2019?
Mais um ano difícil. Não há milagres diante da realidade econômico-financeira em que o Brasil está. E não é simplesmente mudando de governo que as coisas melhoram automaticamente.
A vantagem de 2019 é que o governo que entra está imbuído em realizar o ajuste fiscal e as reformas estruturais. Porém, neste momento de transição, já se nota que ele começa a ceder em alguns pontos (reforma da Previdência, por exemplo), o que demonstra a dificuldade do processo.
Assim, apesar de certo otimismo, natural com a mudança de governo, é preciso muita atenção. O crescimento da economia pode ficar patinando nestes níveis de 1% a 2% em que estamos agora, o que é insuficiente.
Todavia, se o governo conseguir realizar alguns ajustes, a economia começará a engrenar, inclusive estabilizando o câmbio em patamares mais baixos (R$ 3,70), mantendo a inflação sob controle e os juros aceitáveis (a Selic deve subir, porém, dentro de um padrão adequado - até 8%).
Entretanto, se o governo fraquejar e não conseguir avançar nos ajustes, a decepção tomará conta, as cobranças virão, e a economia patinará de novo, podendo mesmo piorar em relação a 2018. Há uma grande dúvida quanto ao que fará o novo Congresso Nacional em relação às propostas de ajustes que deverão vir.
Além disso, o governo terá  que controlar muito bem seu posicionamento "explosivo" em relação ao exterior. Por enquanto, o que mais desgasta e se mostra um elo fraco do novo governo vem das relações internacionais.

Como o mercado financeiro tem reagido ao que o novo governo tem prometido para a economia?
Logo após a eleição, o mercado reagiu favoravelmente, em função das propostas do candidato pró-ajustes e reformas.
Com o passar das semanas, as declarações desencontradas, os desmentidos no interior da nova equipe de governo e acusações de corrupção contra membros da família do presidente eleito levaram o mercado a desconfiar da capacidade do novo presidente em, de fato, liderar um movimento de ajustes concretos e substanciais.
Isso levou a uma forte desvalorização do real novamente e a importantes oscilações na bolsa. Por enquanto, ainda há crédito político, mas o governo já estava desgastado antes mesmo de assumir. Terá que agir muito rápida, objetiva e certeiramente logo ao assumir, pois este mercado não terá paciência.
E esse é um problema, já que o tamanho dos problemas que o país tem não é de respostas fáceis e rápidas. Mas é preciso indicar que as medidas tomadas caminham na direção correta. Entre janeiro e março o quadro será decisivo, no meu entender.

Qual é a relação direta entre a reforma da Previdência e as reações do mercado financeiro? Por exemplo, por que o dólar e as bolsas sentem reflexos diretos (com disparadas e quedas) de cada afirmação do novo governo sobre seus planos para esta reforma?
Quem acompanha e vive a economia nacional sabe que a crise econômico-financeira brasileira é de natureza estrutural e, para ser corrigida, precisa de ajustes profundos. Nesta última década, perdemos muito tempo.
Primeiro, não entendendo ou não querendo fazer os ajustes, depois iniciando a fazê-los, porém, de maneira muito tímida e no contexto de governos fracos e envolvidos em corrupção e acusações.
A situação só piorou, embora os fundamentos da economia tenham sido parcialmente recuperados nestes últimos dois anos. Acontece que, para sairmos do fundo do poço da recessão, precisamos crescer sustentavelmente ao redor de 4,5% ao ano.
Ora, ainda estamos muito longe disso, pois crescemos 1,1% em 2017 e talvez 1,3% em 2018. Assim, somente ajustes estruturais profundos nas contas públicas (parar de gastar o que não se tem, além de se gastar bem) melhorarão a situação do Estado, a qual nos puxa para baixo.
Para que tais ajustes ocorram, as reformas são fundamentais, a começar pela previdenciária. Neste contexto, toda vez que o governo demonstra dúvidas, incapacidade ou dificuldades em tratar do assunto, o mercado, como um termômetro, acusa o golpe e oscila fortemente.
E a situação é urgente, apesar das dificuldades inerentes ao trabalho que se tem a fazer. Isso porque, no front externo, a realidade econômica não está tranquila e uma nova recessão global vem sendo projetada para ocorrer entre 2020 e 2024 se  nada mudar até lá.
Ora, o Brasil corre o sério risco de entrar em nova crise mundial antes mesmo de sair da atual. E, neste momento, o mercado começa a colocar em dúvida a capacidade do novo governo em enfrentar tal desafio corretamente. 

Há alguma possibilidade, mesmo que mínima, de confisco das poupanças, como houve no governo Collor, ou entre os economistas isso é visto como completamente impossível?
Não acredito nisso. Seria um tiro no pé da economia e do próprio governo. Por quê? Porque não será retirando liquidez da economia que ela reagirá. Ao contrário, precisamos de mais liquidez e de juros reais mais baixos.
A inflação não é galopante como antes. Ao contrário, tivemos até deflação em novembro. Assim, não há lógica alguma em realizar confisco de dinheiro.
O que poderemos ter, sim, é aumento de impostos. Neste sentido, não se descarta a volta da CPMF ou algo parecido, além de outros artifícios.
Com o Estado quebrado, enquanto não se consegue reduzir despesas, sobra aumentar as receitas. Não é por acaso que o governador  do Rio Grande do Sul (Eduardo Leite, do PSDB) quer manter a taxa de ICMS por mais dois anos pelo mínimo.
Ocorre que mais impostos sem uso adequado por parte do governo (isto, no Brasil inteiro, está servindo para sustentar apenas uma máquina pública inchada e ineficiente) é travar ainda mais a economia. Estamos dentro de um círculo vicioso que precisa ser quebrado!
Por enquanto, a equipe econômica de Bolsonaro ainda não convenceu de sua capacidade para tal, embora saiba o que precisa ser feito. O problema é como fazê-lo e em que velocidade!

E, na visão do senhor, no cenário econômico, o que será primordial que o governo  Bolsonaro coloque em prática em seu governo?
Manter em pé o tripé de sustentação da estabilidade econômica, criado ainda com FHC em 1999 (meta inflacionária, câmbio flutuante e superávit primário). Dar início a um ajuste fiscal profundo, demonstrando estar no caminho certo.
Realizar o início das reformas estruturais, atacando a reforma da Previdência, melhorando a trabalhista e iniciando a tributária.
Tudo isso precisa ser feito sem prejudicar mais a parte social do país (educação, saúde, segurança.) e mantendo a democracia, posta em dúvida por muitos devido aos posicionamentos políticos do  atual presidente.
Afora  isso, não esquecer que o mundo continua girando, está de olho em nós e que precisamos saber nos manter interligados às rotas de comércio e financiamentos internacionais, pois sem investimentos externos o país não anda, já que não tem poupança própria suficiente, em um contexto de setor público quebrado e inviabilizado quase que por completo.

Economista Argemiro Brum, professor do curso de Ciências Econômicas da Unijuí





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