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Momo: um novo desafio perigoso ronda a internet e coloca crianças e adolescentes em perigo

11/10/2018 - Por Jornal Semanal
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Jogo, semelhante ao Baleia Azul, é praticado por criminosos em serviços de mensagens instantâneas; conversas podem render roubo de dados, extorsão e incentivo à prática de autolesão, podendo terminar em suicídio

Depois do Baleia Azul, que se espalhou mundo afora no primeiro semestre do ano passado, chegando inclusive ao Brasil, um novo jogo que se dissemina na internet acende o alerta em pais e especialistas.
No Baleia Azul, por meio de serviços de mensagens instantâneas na internet, os criminosos contatam as vítimas, geralmente crianças e adolescentes, e os incentivam ou obrigam, neste caso mediante ameaça, a participar de uma série de desafios, em diversas etapas, muitas incluindo autolesão. Ao fim, essas etapas podem culminar em suicídio.
Desta vez, a novidade perigosa se trata do desafio da Momo, personagem criada que tem uma aparência aterrorizante, com olhos esbugalhados, pele pálida e um sorriso sinistro. É mais uma situação em que os criminosos exploram a curiosidade dos usuários para cometer golpes (como extorsão), roubo de dados e ameaças mais graves e incentivar a autolesão.
A imagem da Momo é a foto de perfil dos criminosos, seja no WhatsApp ou no Facebook, entre outros. No YouTube, por exemplo, canais postam supostas conversas com ela como se fossem reais.
A origem da imagem é japonesa. É utilizada uma imagem só do rosto da personagem e a foto é de uma escultura que foi exibida em 2016 no museu Vanilla Gallery, de Tóquio, dedicado a artistas independentes. A escultura se chama Guai Bird, de Keisuke Aisawa, representa uma mulher-pássaro e fez parte de uma exposição sobre fantasmas e espectros.
Para abordar o assunto, o Jornal Semanal entrevistou a psicóloga Ana Karina Luersen Machado e os professores Tiago Luis Cesa Seibel e Vera Lúcia Lorenset Benedetti, mestres em Ciência da Computação e que integram o corpo docente dos cursos de Sistemas de Informação e Engenharia de Computação da Setrem.

Pais podem recorrer à tecnologia para evitar que os filhos corram riscos na internet
Os pais têm à sua disposição algumas ferramentas tecnológicas que podem ajudá-los a evitar que os filhos corram perigo na internet.
Mestres em Ciência da Computação, os professores da Setrem Tiago Luis Cesa Seibel e Vera Lúcia Lorenset Benedetti mencionam que, por exemplo, "empresas especializadas em cibersegurança já disponibilizam em seus produtos de antivírus o recurso 'parental control', ou 'controle para pais'".
Em entrevista ao Semanal, os docentes, que atuam nos cursos de Sistemas de Informação e Engenharia de Computação, explicam que ainda há outros recursos, como os disponibilizados pelo Google, pelo YouTube (que é controlado e administrado pelo mesmo Google) e pelo próprio WhatsApp, aplicativo bastante utilizado pelos criminosos para entrar em contato com crianças e adolescentes.

Os professores da Setrem Vera Lúcia Benedetti e Tiago Seibel, 
dos cursos de Sistemas de Informação e Engenharia de Computação
(EDUARDO ERTHAL/SETREM/DIVULGAÇÃO)

Em termos de tecnologia, o que está ao alcance dos pais fazer para ter conhecimento daquilo em que o filho está mexendo no celular e/ou no computador?
Empresas especializadas em cibersegurança já disponibilizam em seus produtos de antivírus o recurso "parental control", ou "controle para pais", que permite diversos controles preventivos, entre eles detectar palavras impróprias em mensagens e bloquear jogos e aplicativos, além de delimitar horários de acesso ao aparelho e à internet. Um exemplo é o Kaspersky.
A orientação dos filhos pelos pais ainda é o melhor caminho, mas existem ferramentas que podem ajudar.
Recentemente, o Google lançou o aplicativo Family Link (families.google.com), que permite aos pais, por exemplo, autorizar remotamente a instalação de aplicativos nos aparelhos.
Quanto à exposição das pessoas (adultos, adolescentes ou crianças) a perfis falsos do WhatsApp, pode ser minimizada por meio de configurações do próprio aplicativo.
Sempre que você receber mensagens de um número telefônico que não está em sua lista de contatos, será apresentado o número de telefone no local do nome e, algumas vezes, uma foto. Se você não reconhecer a pessoa, ou ela importuná-lo, você pode fazer o bloqueio pelo próprio aplicativo.
Quando uma pessoa que você não tem na lista de contatos lhe enviar uma mensagem, é importante ter atenção especial aos primeiros dígitos do contato. Os números de telefones brasileiros sempre começam com +55, fora isso são números internacionais e não devem ser adicionados aos contatos ou se iniciar conversa com eles, a menos que você realmente reconheça o perfil/pessoa.
O WhatsApp tem controle de privacidade que impede as pessoas que não estão na sua lista de contatos de visualizar a sua foto e o nome. Porém, a configuração padrão permite que qualquer pessoa que tenha seu número de celular veja a sua foto e o nome. Para proteger, você precisa reconfigurar este padrão.
Em suma, existem algumas ferramentas que permitem aos pais realizar o monitoramento e controle dos conteúdos acessados e das atividades que os filhos realizam no computador, em tablets, nos smartphones. Convém aos pais buscar mais informações sobre estas ferramentas com um profissional ou pessoa que tenha conhecimento a respeito, para que sejam aconselhados e optem pela solução adequada.

No YouTube, por exemplo, há meios de restringir o conteúdo que os filhos vão poder acessar?
O YouTube disponibiliza o modo restritivo, que pode ser habilitado por meio de uma conta Google dos pais. No entanto, o recurso deve ser habilitado em cada computador ou smartphone que a criança for utilizar. Ao habilitar este recurso, o YouTube avisa que o filtro não é 100% seguro e impede a maioria dos acessos a materiais impróprios para menores.

E qual é a sua visão sobre os pais fiscalizarem o que os filhos acessam e, muitas vezes, até mesmo restringir o acesso a determinados conteúdos?
É importante manter sempre o diálogo com os filhos e explicar que nem tudo o que há na internet é verdadeiro. Não precisamos seguir tudo que é moda de aplicativos apresentados pelas redes sociais, e é necessário questionar seu filho se realmente ele conhece a pessoa com quem está se relacionando na internet.
Além disso, é necessário monitorar frequentemente o que o filho acessa e evitar o isolamento e muitas horas seguidas do filho exposto à tecnologia, seja celular ou computador.
Os smartphones têm muitos recursos interessantes para todas as faixas etárias, mas destaca-se que as crianças devem ser orientadas pelos pais sobre os perigos da internet.
A Associação Americana de Pediatria é uma organização que recentemente fez recomendações quanto ao uso de tecnologias por crianças de maneira moderada, conforme a idade, e com orientação dos pais.

Pais ou responsáveis devem monitorar atividades das crianças
nos smartphones, tablets ou computadores

DESAFIO DA MOMO*
Como ocorre?
Os criminosos têm acesso às vítimas por duas maneiras, por meio das quais as conversas se iniciam: descobrem o número ou contas delas em redes sociais e entram em contato ou, em outra situação, outras pessoas indicam às vítimas que entrem em contato com a Momo.
Depois que os usuários caem na armadilha e aceitam o contato, seu número de celular (por exemplo, no caso do WhatsApp), sua foto e demais informações disponíveis no perfil ficam acessíveis para o administrador do perfil da Momo.
Em seguida, os criminosos podem buscar mais informações e ampliar as ameaças dizendo que sabem detalhes da vida da vítima, nomes de pessoas próximas e até senha de aplicativos (muitas vezes disponíveis na própria internet, em sites que agrupam vazamentos de senhas).

O que fazer quando diante da situação?
É fundamental orientar crianças e adolescentes a ter cuidado ao adicionar pessoas desconhecidas e orientá-las a bloquear contatos indesejados, sem enviar nada.
Em caso de participação e de avaliação de que se foi vítima de ameaça à integridade física, financeira ou emocional, a recomendação é buscar uma delegacia da Polícia Civil para registrar um boletim de ocorrência.
É preciso, para isso, que a vítima possa exportar a conversa para ela mesma. O WhatsApp tem uma ferramenta que permite isso.
Para enviar por e-mail uma cópia do histórico de uma conversa individual ou de grupo específicos, você pode usar a função "Enviar conversa por e-mail". Abra a conversa individual ou de grupo e toque em "Menu", depois "Mais" e "Enviar por e-mail" e, na sequência, escolha entre "Anexar mídia" ou não. Um email será criado com o seu histórico de conversa anexado como um documento .txt.
Reportar à polícia com os detalhes sobre os números de telefone envolvidos pode ajudar o trabalho de investigação e prevenir novos casos.
* Com informações da ONG SaferNet, que reúne cientistas da computação, professores, pesquisadores e bacharéis em direito para alertar sobre crimes na internet e defender e promover os direitos humanos na rede

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'Manter um diálogo franco é a melhor estratégia', ressalta psicóloga

A psicóloga três-maiense Ana Karina Luersen Machado destaca a importância de os pais estarem atentos a mudanças bruscas no comportamento dos filhos, assim como, frisar a profissional, devem observar se os filhos estão sofrendo algum prejuízo no dia a dia ou na escola.
Ela considera, quanto ao desafio da Momo, que "é preciso estar atento a links que possam ser utilizados para extrair dados da vítima, bem como às mudanças comportamentais", e ressalta que "manter um diálogo franco é a melhor estratégia". Confira, a seguir, a entrevista.
Ana Karina Luersen Machado 
(FOTO: ARQUIVO PESSOAL)

'Não ridicularizar as crianças quando afirmam estar amedrontadas
ou em sofrimento', orienta a psicóloga Ana Machado

Na sua visão, quais são os grandes riscos que o jogo pode trazer a crianças e adolescentes?
Essa situação tem reacendido debates sobre segurança de crianças e adolescentes na internet. Precisamos ter uma cautela muito grande para lidar com esse tipo de tema, porque pode despertar a curiosidade dos jovens, que entram em um circuito e buscam um conteúdo que instigue a imaginação.
No caso da Momo, por exemplo, o conteúdo pode ser veiculado por alguns motivos. O mais simples deles é o de zoeira ou brincadeira, realizado especialmente entre adolescentes, mas há também aqueles que utilizam informações disponíveis na internet (a partir de pesquisas em redes sociais) para extorquir a criança ou adolescente, público mais vulnerável.
Pelas redes sociais, é possível encontrar informações pessoais que podem ser utilizadas para dar a impressão de que o criminoso conhece a criança. Alguns se aproveitam da onda do momento, que agora é a Momo, que já foi o Baleia Azul, para roubar conteúdo, dados.
Uma vez aceita a conversa, já é possível ver o número, a foto e eventualmente até o nome completo. O perigo se inicia realmente quando a criança ou adolescente estabelece uma conversa com a pessoa desconhecida. Dentro disso, é preciso estar atento a links que possam ser utilizados para extrair dados da vítima, bem como às mudanças comportamentais, pois podem vir surgir medos e fobias, os quais devem ser tratados com muita cautela.

Como deve se dar a atuação dos pais nestas situações e o que você recomendaria a eles?
A participação dos pais é muito importante. Quando acontece alguma coisa, a criança ou adolescente sabe que fez besteira e tem medo de contar, por medo de levar bronca, ficar sem celular. Manter um diálogo franco é a melhor estratégia. Outra dica é não ridicularizar as crianças quando afirmam estar amedrontadas ou em sofrimento. Estabelecer um laço de confiança entre pais e filhos é fundamental.
Caso os pais ou educadores percebam mudanças bruscas, ou que estejam prejudicando atividades de vida diária e escolares, a busca por um profissional especializado pode ser uma estratégia importante de auxílio.
A internet é um espaço público, tem pessoas bem e mal intencionadas, não é 100% adequada para uma criança. Ela pode saber mexer, mas, dependendo da idade, não tem discernimento para diferenciar o que é real ou não.

Foto de perfil dos criminosos na internet 
é do rosto de uma escultura; 
personagem tem uma aparência aterrorizante,
com olhos esbugalhados, pele pálida e 
um sorriso sinistro





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