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ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS - Qual tipo de discurso para a economia poderá ter maior chance de convencer o eleitor?

04/05/2018 - Por Jornal Semanal
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Semanal convidou economistas a responder à pergunta; discussão sobre o quadro econômico deverá ser um dos pontos centrais do processo eleitoral

Num momento em que o Brasil continua se recuperando lentamente de um severo período de recessão, a discussão sobre a economia do país deverá ser um dos pontos centrais do processo eleitoral deste ano, com o tema devendo estar entre os que dominarão os debates presidenciais.
Entre abril de 2014 e dezembro de 2016, foram 11 trimestres de quedas praticamente consecutivas do PIB (Produto Interno Bruto), na mais longa recessão no Brasil desde 1992 - no período da mais recente recessão, o PIB encolheu 8,2%, de acordo com o IBGE.
O fim da retração econômica foi identificado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em relatório divulgado em setembro do ano passado - o Monitor do PIB-FGV, que serve como uma espécie de antecipação do comportamento do PIB.
Com a recuperação da economia, o PIB havia entrado o segundo trimestre de 2017 em alta. Os dados da FGV apontaram para um avanço do PIB de 1,3% em julho em relação ao mesmo mês de 2016.
Na comparação com junho do último ano, o PIB em julho apresentou avanço de 0,1%. Também houve avanço de 1,1% no trimestre encerrado em julho na comparação com o mesmo período de 2016. "Estas taxas apontam claramente para o fim da recessão", afirmou na época o coordenador do relatório da FGV, Cláudio Considera.
O ano de 2017 fechou com uma alta de 1% no PIB, confirmando o fim da recessão após duas quedas consecutivas no PIB, de -3,5% em 2016 e -3,5% em 2015.
Para falar sobre qual discurso e qual plano para a economia poderão, na visão deles, ser mais bem recebidos pelo eleitor durante a campanha para as eleições presidenciais de outubro, o Jornal Semanal convidou os economistas Antônio da Luz, Argemiro Brum e Stephan Sawitzki.
Antônio é o economista-chefe do Sistema Farsul, Argemiro é professor do curso de Ciências Econômicas da Unijuí e Stephan, também professor, coordena os cursos de Ciências Econômicas e Gestão Financeira da Faculdade Horizontina (Fahor).

'A economia foi 'anabolizada', baixou-se a Selic sem critério técnico, utilizaram-se os bancos públicos para baixar os juros para baixo do equilíbrio, abriu-se a torneira dos gastos públicos, deu-se aumento para todo mundo (.) permitiu-se um absurdo endividamento das famílias'
"Nem sempre o que é mais bem aceito pelo eleitor é o que é melhor para a economia. No Brasil, inclusive, estamos ficando para trás em relação ao crescimento mundial justamente porque o que o eleitor gosta de ouvir geralmente são soluções simplistas de curto prazo e não aquelas que realmente mudam o país de patamar mas, por outro lado, requerem maior tempo de maturação e exigem reformas e austeridade com o gasto público.
Vou dar um exemplo: imaginemos um jovem que está preocupado com seu porte físico fraco, cuja aparência não chama atenção das moças. Ele tem dois caminhos: um é ir para a academia, adotar uma dieta balanceada e adotar hábitos saudáveis, e, entre um e dois anos, ele terá um corpo de atleta. O outro caminho é utilizar esteroides anabolizantes e, em seis meses, ele atingirá o mesmo resultado.
A diferença é que, embora na segunda opção ele tenha resultados mais rápidos, logo em seguida ficará muito doente. Foi basicamente o que ocorreu no Brasil na última década.
A economia foi 'anabolizada', baixou-se a Selic sem critério técnico, utilizaram-se os bancos públicos para baixar os juros para baixo do equilíbrio, abriu-se a torneira dos gastos públicos, deu-se aumento para todo mundo, contrataram-se milhares de novos servidores, foram dados bilhões para setores que o governo via como 'estratégicos' para o crescimento, como o petróleo e gás, construção civil, automobilístico e metalmecânico, Copa do Mundo, Olimpíadas, permitiu-se um absurdo endividamento das famílias e assim por diante.
Depois vieram as consequências e o Brasil viveu e ainda vive a maior crise econômica da sua história. Enquanto isso, o mundo cresceu e se distanciou de nós. Pelas mesmas razões que os jovens devem ir para a academia em vez de usar drogas, a economia deve fazer o que precisa ser feito, mesmo que seja chato, sem graça e leve mais tempo. Mas, da mesma forma que muitos jovens preferem o imediatismo, muitos eleitores também.
Eu não tenho condições técnicas para saber qual será o discurso mais convincente aos eleitores, mas tenho a impressão de que a sociedade como um todo estará mais vigilante em relação aos discursos demagógicos e populistas."
Antônio da Luz, 
economista-chefe do Sistema Farsul
FOTO: ARQUIVOJS

'Os candidatos também terão que tratar de assuntos impopulares, como a
questão da reforma da Previdência e outras reformas estruturantes de que o
país precisa para conseguir um crescimento econômico sustentável'
"Em linhas gerais, o eleitor espera que os candidatos apresentem planos para melhorar o nível de emprego e renda no país. Os candidatos também terão que tratar de assuntos impopulares, como a questão da reforma da Previdência e outras reformas estruturantes de que o país precisa para conseguir um crescimento econômico sustentável.
Nesse ponto, é preciso ter cautela com as promessas feitas pelos candidatos. No discurso, tudo fica muito bonito, mas a prática do discurso se torna bem mais difícil do que a promessa. Temos um presidencialismo de coalizão e, para implementar qualquer reforma, é preciso apoio do Congresso, o que torna o processo exaustivo.
Para melhorar a economia e trazer crescimento econômico de longo prazo, precisamos ajustar nossas bases econômicas, fazer investimentos em infraestrutura, melhorar nossa produtividade, reduzir a carga tributária, recuperar as expectativas empresariais, atrair investimentos, melhorar a educação, reduzir drasticamente a corrupção e reduzir a incerteza jurídica, entre tantos outros pontos.
Certamente os candidatos apresentarão temas como corrupção, geração de emprego, melhora na qualidade de vida, mas é importante que o eleitor saiba que, sem uma reestruturação econômica, essas variáveis até podem melhorar a situação, mas será uma melhora temporária e não sustentável."
Stephan Sawitzki, 
professor, coordenador dos cursos de Ciências Econômicas e Gestão Financeira da Fahor
FOTO: FAHOR/DIVULGAÇÃO 

'(.) o país precisa de ajustes profundos, a começar pelo ajuste fiscal, o qual passa por reformas estruturais já conhecidas (.) grande parte da população acaba sendo enganada por promessas de curto prazo, quando o problema é de longo prazo, estrutural'
"O Brasil tem um grave problema. Trata-se da pouca formação em geral da população e da pouca formação econômico-financeira em particular desta mesma população. Desta forma, o melhor discurso, em termos de propostas, geralmente não é acatado pelo eleitor.
No caso atual do país, isto poderá ficar evidente, mais uma vez, neste ano. Eu me explico: a crise aguda vivida pelo Brasil tem em seu cerne o fato de o Estado estar inviabilizado economicamente, além de viver um grave problema de desestruturação política e ética. Em termos econômicos, o país precisa de ajustes profundos, a começar pelo ajuste fiscal, o qual passa por reformas estruturais já conhecidas (previdenciária, tributária, fiscal, administrativa.).
Ora, isso significa cortar privilégios. Significa, no estado atual das coisas, cortar 'no osso', para usar uma gíria comum. Em outras palavras, todos terão que apertar fortemente o cinto por alguns anos. E isso dói.
Nesse contexto, o melhor discurso de campanha teria que vir nesse sentido, com fundamentação, obviamente, pois não se trata de apenas cortar, mas, também, de cortar certo e no tempo necessário.
O problema é que a população, sofrida que está, não aceita mais continuar a pagar tal conta e, assim, um discurso deste tipo não atrai. Isto abre as portas para os discursos populistas, comuns em governos recentes (Lula, Dilma e Temer), que prometem coisas que não podem cumprir, gastando muito mal o dinheiro público e aumentando a conta a ser paga no futuro. Pela falta de formação, grande parte da população acaba sendo enganada por promessas de curto prazo, quando o problema é de longo prazo, estrutural.
Será uma grata surpresa se os privilegiados do atual sistema, muitos encastelados nas instâncias estatais, e que estão impedindo as reformas, sejam superados pelos mais realistas, apoiados pela população mais simples em geral, e com isso mudem o rumo da história recente e ruim de nossa política e economia, indicando um apoio a um candidato com um discurso objetivo, e, por consequência, realista diante da situação brasileira (aliás, um candidato que ainda não apareceu até o momento, diga-se de passagem)."
Argemiro Brum, 
professor do curso de Ciências Econômicas da Unijuí
FOTO: UNIJUÍ/DIVULGAÇÃO 



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