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Vidas reais, conversas e experiências virtuais

22/12/2017 - Por Jornal Semanal
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Para o consultor e professor Vinícius Serafim, grande facilidade oferecida pelos smartphones 'tem nos afastadodos apertos de mãos, dos abraços e das boas conversações com amigos e familiares'

É fácil - mas até que ponto essa facilidade pode ser considerada unicamente benéfica?
Estamos falando, como talvez muitos já tenham imaginado, do imenso universo que um smartphone conectado à internet oferece - presentes nesse universo, por exemplo, estão as pesquisas, as conversas e a possibilidade de saber imediatamente, por meio de publicações dos autores, o que está se passando, naquele momento, com a vida dessas pessoas.
No entanto, junto com essa grande facilidade, pode vir a tentação - tentação de aproveitar tamanha facilidade cada vez mais. E, junto com a tentação, pode vir o excesso de distração. E, com ele, o impacto que atividades aparentemente restritas ao mundo virtual podem trazer a vidas reais.
Mestre em Ciência da Computação, consultor em Segurança da Informação e professor do curso de Sistemas de Informação da Setrem, Vinícius Serafim avalia, em entrevista ao Semanal, que "essa facilidade toda tem nos afastado dos apertos de mãos, dos abraços e das boas conversações com amigos e familiares".
Ele lembra que "a tecnologia, quando bem empregada, nos permite estreitar os laços de amizade e convivência", mas observa que, com a atual facilidade oferecida, "palavras e comportamentos que não seriam manifestados presencialmente o são, até de forma banal, em um uma conversa pelo celular".
Por outro lado, Vinícius reitera que, com exceção das análises da professora americana Sherry Turkle às quais ele faz referência na entrevista, o que o docente expressa ao Semanal são opiniões pessoais oriundas unicamente das suas próprias experiências e da observação que faz das diversas situações do dia a dia - ou seja, para Vinícius, suas colocações não devem ser vistas como algo que deve receber aceitação plena e absoluta, mas, sim, como uma ponderada reflexão sobre o tema.

Percebe-se, a cada dia, um aumento indiscriminado do uso de smartphones, com as pessoas conectadas ao WhatsApp e a outras redes sociais em ambientes familiares, sociais e de trabalho.
Relações presenciais estão sendo substituídas por bate-papos pelo WhatsApp; em situações como aniversários e para saber se o familiar ou o amigo está bem, são enviadas mensagens; em restaurantes e festas, casais e grupos de amigos são facilmente vistos "grudados" no celular, acompanhando grupos de conversa ou redes sociais. Pesando tudo isso, como você analisa este atual momento das relações pessoais?
Não há dúvida de que as redes sociais facilitaram e muito a comunicação entre as pessoas, tanto em termos de usabilidade quanto em termos de custos. Isso ocorreu a tal ponto de passar a incomodar as operadoras de telefonia, que, em 2015, chegaram a preparar uma petição em conjunto contra o WhatsApp no Brasil.
Por outro lado, essa facilidade toda tem nos afastado dos apertos de mãos, dos abraços e das boas conversações com amigos e familiares. Ou você leitor já não terá enviado felicitações de aniversário e de outras datas apenas pelo WhatsApp quando poderia tê-las levado pessoalmente?
Ou ainda já não terá "prestado seu apoio" emocional a alguém por mensagens no Facebook quando poderia ter ido ao encontro do amigo?
Ou - perdoem-me pela insistência - já não terá saído com sua família ou amigos e, chegando ao local do encontro, cada um puxou o seu celular e ficou como estranhos dividindo uma mesa?
É claro que não pretendo com essas palavras "demonizar" o uso das redes sociais, mas chamar atenção para o fato de que nos falta equilíbrio no uso delas.
A professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia do MIT Sherry Turkle, que já dedicou ao menos dois livros ao tema ("Alone Together" e "Reclaiming Conversation"), afirma em seu segundo título que: "A conversação face a face é a coisa mais humana - e humanizadora - que fazemos. [.] É onde nós desenvolvemos a capacidade da empatia. É onde nós experenciamos o contentamento de sermos ouvidos, de sermos entendidos".
Assim, a partir do momento em que substituímos nossas relações pessoais pelas relações puramente "virtuais", perdemos o contato com a realidade das relações pessoais (agradáveis ou não) e nos escondemos atrás de textos editados e de carinhas que "expressam nossas emoções".
Por conta disso, palavras e comportamentos que não seriam manifestados presencialmente o são, até de forma banal, em um uma conversa pelo celular. E ainda, na expressão de Sherry Turkle, isso faz com que nos sintamos "sozinhos juntos", pois temos milhares de "amigos" nas redes sociais mas ninguém ao nosso lado de fato (e aqui ela não se refere à simples presença física de alguém).
Então, concluo dizendo que a tecnologia, quando bem empregada, nos permite estreitar os laços de amizade e convivência. Porém, quando empregada de forma desequilibrada (o que parece ser o mais comum), provoca o adoecimento de nossas relações e, portanto, de nós mesmos.

E quanto a etiquetas básicas do uso do celular?
Este já é um outro aspecto bastante amplo. Assim, limito-me a dizer que a maior falta de consideração que cometemos, seja em qual ambiente for, é quando alguém fala conosco e nosso olhar (e atenção) está no celular. Ao fazermos isso, estamos claramente transmitindo a seguinte mensagem: "Não tenho real interesse pelo que você está expressando". E é claro que, de acordo com o contexto, teremos consequências distintas.

E sobre adicionar pessoas em grupos de WhatsApp sem autorização prévia?
É sempre de bom tom informar a pessoa de que um grupo será criado para um determinado fim e que, se ela não se opuser, será adicionada a ele. No entanto, nem sempre é o que ocorre. Algumas vezes, a pessoa simplesmente é adicionada e ela, por sua vez, muitas vezes fica no grupo apenas porque se sente constrangida em se excluir dele (talvez com receio de ser julgada pelos demais participantes).

Muitas vezes, um grupo é criado para determinado fim e, depois, vira meio de correntes de orações, propagandas.
Esse é um dos comportamentos que somente são possíveis via WhatsApp e afins. Explico: essas correntes, notícias falsas e etc. só são reproduzidas porque é fácil fazê-lo em um instante e, ao mesmo tempo, porque não há qualquer forma de evitar que a mensagem seja transmitida. E a prevenção exige que alguém se exponha e talvez até se indisponha ao ter que informar o remetente de que ele não deve enviar esse tipo de mensagem no grupo.
Assim, o resultado desses comportamentos inadequados acaba sendo: pessoas saindo de grupos, grupos sendo silenciados e ignorados e pessoas sendo bloqueadas por persistirem no envio de mensagens indesejadas.

Como agir quando assuntos profissionais são tratados fora do horário de expediente - seja na relação empregador/empregado, empresa/consumidor, consumidor/empresa - por meio, por exemplo, de WhatsApp ou Facebook Messenger?
Embora eu não tenha formação em Direito, mas por estar em contato direto com profissionais da área, posso citar algo chamado de "direito à desconexão".
De forma simplificada, significa que o funcionário tem o direito de se desconectar completamente do trabalho durante seu período de descanso. Caso isso seja sistematicamente desrespeitado, há, sim, o risco de se enfrentar problemas legais.
Mas não só o empregado deve exercer esse direito, como também devem dar-se a si mesmos esse direito os profissionais que administram seu próprio negócio, principalmente durante a convivência familiar. Vale aqui, mais uma vez, a afirmativa de Sherry Turkle citada anteriormente.


FOTO: ARQUIVO PESSOAL



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