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Há 'crescimento da população que está usando medicamentos, até mesmo de forma abusiva', diz a coordenadora do Caps Mundo Melhor

22/09/2017 - Por Jornal Semanal
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Muitas vezes, são prescritos medicamentos 'sem resolver de forma específica o sofrimento', analisa a psicóloga Kátia Goelzer. Caps local presta atendimento a cerca de 250 pessoas

O Caps Mundo Melhor (Centro de Atenção Psicossocial), de Três de Maio, desenvolve sua atuação com ênfase em saúde mental. Hoje, cerca de 250 pessoas são atendidas. Parte delas faz uso de medicamentos, e é quanto ao uso de medicamentos que há uma das preocupações atuais.
Neste mês, está sendo desenvolvida, em nível nacional, a campanha de conscientização Setembro Amarelo, que busca chamar atenção para a importância da prevenção ao suicídio.
A coordenadora do Caps local, a psicóloga Kátia Denny Osório Goelzer, diz que todas as questões apresentadas por ela nesta entrevista ao Semanal - por exemplo, transtornos psicóticos severos, transtornos graves de comportamento, adesão inadequada ao tratamento, falta de apoio da família, preconceito - podem levar a pensamentos suicidas.
E o uso desenfreado de medicamentos também entra nessas questões. "Observa-se nestes anos um crescimento da população que está usando medicamentos, até mesmo de forma abusiva", afirma. Muitas vezes, são prescritos, por profissionais da área da saúde, medicamentos "sem resolver de forma específica o sofrimento, que poderia ter um bom resultado com psicoterapia adequada".
Localizado na Rua Horizontina, 2520, o Caps Mundo Melhor iniciou as atividades em agosto de 2013, com o objetivo de dar suporte em atendimento de saúde mental às Estratégias de Saúde da Família (ESFs), e trabalha em conjunto com a rede de atendimentos do município. Ele funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h, sem fechar ao meio-dia, e o telefone é (55) 3535-1943.

'Ainda existe muito estigma, tabu e preconceito em relação às doenças
mentais, sendo vistas como loucura, sem-vergonhismo'
Coordenadora do Caps Mundo Melhor, psicóloga Kátia Denny Osório Goelzer

Hoje, quantas pessoas são atendidas pelo Caps Mundo Melhor, e qual é a faixa etária?
São atendidas atualmente cerca de 250 pessoas, na faixa etária de 13 a 80 anos, sendo que o atendimento prioritário é para adultos a partir dos 18 anos com transtornos psicóticos severos e persistentes.
Devido à necessidade do município por atendimento especializado, ampliamos para usuários de álcool e outras drogas, bem como para a população infanto-juvenil que apresenta transtornos graves de comportamento que dificultam sua aprendizagem escolar e o convívio social.

Constata-se, eventualmente, uma prescrição desenfreada de medicamentos a pacientes?
Observa-se nestes anos um crescimento da população que está usando medicamentos, até mesmo de forma abusiva.
Há pacientes mal-diagnosticados, pouca escuta em relação ao sofrimento psíquico, tudo isso levando a buscas contínuas por vários profissionais com queixas clínicas, e estes prescrevem ansiolíticos e antidepressivos, sem resolver de forma específica o sofrimento, que poderia ter um bom resultado com psicoterapia adequada.

Como se desenvolve o trabalho do Caps?
O Caps trabalha em conjunto com a rede de atendimentos do município e conta com uma equipe composta por médica, enfermeiro, psicólogas, assistente social, técnicas de enfermagem, educador físico, auxiliar de cozinha, auxiliar de limpeza e secretária.
O enfoque do nosso trabalho é tratar o paciente no seu território, conhecendo sua realidade, por meio de atendimentos individuais, visitas domiciliares, conhecendo também a família e as condições em que se encontra a família, bem como sua dinâmica familiar.
É feito um plano terapêutico para cada usuário, em que é incluída a participação da família, seja nos grupos de família ou visitas domiciliares. Semanalmente, são feitas reuniões de equipe, com discussões dos casos clínicos, e avaliado o plano terapêutico.

Em quais casos, geralmente, acaba por haver insucesso no tratamento?
O insucesso no tratamento ocorre quando o paciente não adere de forma adequada. Às vezes ele para de usar a medicação por conta, acreditando que ela não está fazendo bem, e, noutras, há falta de apoio familiar no tratamento e dificuldade de aderir à psicoterapia.
Enfatizamos que o tratamento deve ser completo, com consultas, grupos e visitas domiciliares, de forma que ele proporcione ao paciente uma mudança de atitude em relação à sua vida, à sua doença e à dinâmica familiar.
Por isso a participação da família é muito importante. Para conseguirmos bons resultados, é preciso entender o sofrimento psíquico, conhecer a doença.

Há ainda muito preconceito contra pacientes atendidos pelo Caps, por o trabalho do centro envolver saúde mental?
Ainda existe, sim, muito estigma, tabu e preconceito em relação às doenças mentais, sendo vistas como loucura, sem-vergonhismo. Não se entende que o sofrimento mental, na verdade, produz uma confusão mental, com prejuízo do pensamento, memória, atenção.
Na questão do suicídio, entram todas essas questões (ou seja, todas as apresentadas anteriormente pela coordenadora ao longo da entrevista), sendo que a melhor forma de prevenção é proporcionar estes cuidados, e neste Setembro Amarelo temos que ampliar esta discussão e falar do que nos inquieta. Somos a região com maior índice de suicídios no Estado.

Caps Mundo Melhor iniciou as atividades em 2013; ele está localizado na Rua Horizontina

FOTOS: MURIAN CESCA



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