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Crise no setor leiteiro - Mais de 2,5 mil famílias deixaram a atividade no RS nos últimos meses

25/08/2017 - Por Jornal Semanal
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Momento atual é visto como uma nova crise do setor; volume de importações é criticado por entidades
Mais de 2,5 mil famílias gaúchas deixaram a atividade leiteira nos últimos meses, de acordo com a Fetag-RS (Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul), num reflexo do que é visto como uma nova crise do setor.
O preço pago ao produtor pelo litro do leite - hoje, no RS, na faixa entre R$ 1 e R$ 1,20, valores considerados baixos por entidades ligadas à área - e o volume de importações são vistos como alguns dos fatores que contribuem para o mau momento do setor.
Na visão do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados no Estado (Sindilat-RS), quanto ao preço no Estado, ele tem sido reflexo do aumento da produção de leite no campo e da importação, que eleva a oferta do alimento no mercado interno.
Além disso, o sindicato também destaca que outro fator é a importação crescente de leite a preços menores do que os praticados no País.

Compras institucionais
A Fetag-RS, a respeito do quadro do setor leiteiro, tem mantido conversações tanto com o governo estadual quanto com o federal, além de dialogar com congressistas. No último dia 15, em Brasília, o secretário-geral da entidade, Pedrinho Signori, representou a entidade em audiência pública realizada pela Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados.
Na audiência, Pedrinho declarou que "o quadro no campo é desesperador". A audiência foi solicitada pelo deputado gaúcho Heitor Schuch (PSB-RS), que integrará a Subcomissão do Leite da Câmara, a qual vai se debruçar sobre o tema.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) indicam que, somente no primeiro trimestre de 2017, o Brasil importou 35,4 mil toneladas de leite em pó e de outros leites, 76% mais do que em igual período de 2016. Heitor defende a instalação de uma CPI para investigar os números da importação do produto.
Para o secretário-geral da Fetag, há duas medidas fundamentais que o governo federal deveria adotar para amenizar a crise no setor: suspender as importações e fazer mais compras institucionais, para ajudar a enxugar a grande oferta interna que há e equilibrar os preços.
"O governo brasileiro, quanto a compras institucionais, não comprou praticamente nada para hospitais, presídios, como pelo PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar), Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Se você olhar nos últimos anos, houve um grande volume de dinheiro na compra de leite para os programas institucionais do governo, e agora não tem", analisa Pedrinho em entrevista ao Semanal.
"A situação é grave. Tem tambos de leite e propriedades mandando vacas para frigoríficos, para açougues, porque a dificuldade é grande mesmo", ressalta ele, que não descarta atos nas ruas contra as importações.

O secretário-geral da Fetag-RS, Pedrinho Signori: 
entidade cobra do governo federal suspensão das importações e aumento das compras institucionais

Dívidas a pagar
Ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Três de Maio e São José do Inhacorá, Pedrinho chama atenção para investimentos que os produtores realizaram e ainda precisam quitar.
"Nos últimos três meses, tem dado baixa de R$ 0,10 a R$ 0,20. Passados os episódios de adulteração do leite no RS, o produtor que ficou na atividade se reestruturou, investiu em maquinário, investiu na propriedade, para melhorar a mão de obra, para o trabalho não ser tão penoso", diz.
"Isso tudo é crédito rural, é dinheiro de bancos, e havia uma perspectiva de que se teria uma estabilização do preço do litro, e não essa oscilação tão grande. Essa estabilização não se concretizou, o produtor criou uma dívida, contando com certo valor para pagar, e, a cada mês, com o valor do litro baixando, ele não tem mais aquele valor", acrescenta.
Pedrinho também cita a situação econômica da população. "As pessoas estão poupando, estão descapitalizadas, há muito desemprego. Isso tudo faz com que, em vez de elas tomarem dois copos de leite, tomem só um", observa.

Possível triangulação
Um dos países dos quais o leite é importado é o Uruguai. O Sindilat diz que em 2016 o Brasil recebeu do país vizinho 100 mil toneladas de leite em pó e 18 mil toneladas em queijos.
O sindicato menciona dados divulgados pelo governo uruguaio de que, no ano passado, o Uruguai produziu 1,7 bilhão de litros de leite e consumiu 700 milhões de litros. Os mesmos dados apontam que, se convertido em leite em pó, o saldo renderia 120 mil toneladas - e o Brasil recebeu 100 mil.
Para o sindicato, os números indicam uma possível triangulação de produção de outros países para ingresso no Brasil com incentivo. A Fetag, conta Pedrinho, também acredita em triangulação - ou seja, o leite importado do Uruguai seria originário de outro país, possivelmente da Nova Zelândia, diz ele, com o Uruguai servindo como escala para outros países enviarem o produto para o Brasil.
"Isso faz com que nossas grandes indústrias comprem o leite do Uruguai trazendo para cá a um preço menor. Enquanto isso, muitas dessas grandes indústrias recebem isenção fiscal. Recebem isenção, deixam de comprar leite daqui e compram de fora, a um preço mais barato. Fazem um desserviço social ao Rio Grande do Sul", critica Pedrinho.

Preço pago ao produtor pelo litro do leite tem tido quedas consideráveis
nos últimos meses

Mau desenvolvimento das pastagens já trazia dor de cabeça aos produtores
Situação resultou em aumento dos custos de produção no setor, expõe Emater
Pelo menos em Três de Maio, não é apenas o baixo preço pago pelo litro do leite que vem trazendo dor de cabeça aos produtores nos últimos meses. Isso porque os produtores já vinham de um período com prejuízos no desenvolvimento das pastagens.
"Primeiro, aconteceu uma dificuldade no crescimento das pastagens, no seu desenvolvimento, em função do excesso de chuvas que houve em maio e junho e, depois, em virtude da estiagem. Isso ocasionou um déficit para os animais e, consequentemente, diminuiu a produção. Depois, a queda acentuada no preço pago pelo litro", explica o chefe do escritório municipal da Emater/RS-Ascar, o técnico em agropecuária Leonardo Rustick.
Leonardo menciona que há "um desânimo muito grande" nos produtores. "O custo de produção aumentou, porque faltou pastagem, e os produtores tiveram que suplementar, com ração, silagem, a alimentação dos animais, para poder manter a produção. Aliado a isso, o preço pago ao produtor pelo litro baixou, então a margem de lucro também diminuiu", relata ele.

'Nós nos sentimos revoltados, impotentes e desestimulados', declara o presidente da Aproleite
Joel Rossi avalia que poderá ficar 'inviável' continuar na produção do alimento

'Se continuar o mesmo cenário, de preços baixos e custos de produção altos, 
vários associados abandonarão a atividade', analisa Joel

O produtor de leite Joel Cristiano Rossi, 31 anos, classifica como "um grande baque" o impacto que o baixo preço pago pelo litro do produto tem causado na economia das famílias que atuam no setor.
Presidente da Associação de Produtores de Leite de Três de Maio (Aproleite) e técnico em agropecuária, ele diz que os preços vêm caindo há bastante tempo, mas que a queda tem sido mais acentuada nos últimos cinco meses e que ela chega a mais de R$ 0,50 por litro.
"Nós produtores nos sentimos revoltados, impotentes e desestimulados, porque os custos de produção têm sido impactados e, se a queda no preço do litro continuar, ficará inviável produzir leite", desabafa.
Joel reside com sua família na localidade de Medianeira, onde eles contam, na produção leiteira, com 31 vacas. "Por exemplo, na nossa propriedade, que produz 30 mil litros por mês, com uma queda de R$ 0,50 por litro, a diferença é de R$ 15 mil mensais. Isso cobriria os custos de produção, que hoje estão empatando. Não sobra para pagar os investimentos feitos", lamenta.
Como alternativas para o quadro, ele vê a necessidade de se interromperem as importações do alimento, principalmente do Uruguai, e, também, "de que o produtor receba um subsídio para produzir, o que já ocorre em outros países".
Hoje, a Aproleite conta com 28 associados. "Até o momento, nenhum produtor abandonou a produção, mas, se continuar o mesmo cenário, de preços baixos e custos de produção altos, vários associados abandonarão a atividade", projeta.

FOTO PRINCIPAL: DIVULGAÇÃO
FOTO 2 (PEDRINHO SIGNORI): ARQUIVO JS
FOTO 3: MURIAN CESCA
FOTO4 (JOEL ROSSI): LUCIANI DE LIMA/DIVULGAÇÃO

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