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SUCESSÃO RURAL - Jovens que apostam na continuidade da propriedade familiar

28/07/2017 - Por Jornal Semanal
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19 anos e uma decisão há tempos já tomada: 'Se depender de mim, se o destino não mudar isso, vai ser pra toda a vida'
Criado desde pequeno no meio rural, onde mora com a família, Eric Fischborn não alimenta dúvidas quanto ao que quer para sua vida profissional - e ressalta a importância de os jovens que querem permanecer não desistirem tão cedo
"E, quando era criança, bem pequeno, também ajudava nas lidas?", pergunta o repórter após alguns minutos de entrevista. Eric dá uma gargalhada. "É. Ajudava, atrapalhava, mas estava aí", responde pausadamente o jovem, ainda rindo. "Ele sempre gostou da agricultura", observa o pai, como que complementando o breve relato que o filho já havia feito naquela altura da conversa.
Hoje com 19 anos, Eric Fischborn, filho único, nunca teve outra experiência profissional que não as lidas no campo - tampouco deseja outra experiência. E essa escolha é unicamente fruto de sua cabeça - não sofreu, nem sofre, interferências.
Dentro do relacionamento "normal" que marca a convivência dos três, o jovem e seus pais, Cleusa, 46 anos, e Sandro Fischborn, 50, com os quais mora em uma propriedade rural na localidade de Esquina Jost, interior de Três de Maio, têm plena liberdade um com o outro - quanto a críticas e sugestões, por exemplo.
Mas o fato de haver essa liberdade - e de, afinal, serem pais de Eric - não significa que Cleusa e Sandro tenham, nem historicamente, nem agora, tentado sugerir ao filho a permanência no meio rural, para Eric ajudar a família no trabalho, ou mesmo tentado moldar a cabeça do jovem de modo a ele perceber a importância de ficar.
"O pai e a mãe nunca me forçaram a ficar na lavoura, nunca me puxaram pro lado de eu ficar. Também, nunca disseram que eu não podia. Na verdade, nunca deram muitas opiniões sobre o que eu deveria escolher", conta Eric, que, quanto à escolaridade, tem o ensino médio completo, feito no instituto estadual Cardeal Pacelli, onde estudou desde a então 3ª série.
"Eu me criei nesse meio e fiquei. A questão de ficar veio de mim mesmo, mas aí, depois que decidi ficar, ainda bem novo, meus pais sempre me incentivaram. E é isso aqui o que eu visualizo pro meu futuro. Se depender de mim, se o destino não mudar isso, vai ser pra toda a vida", acrescenta ele.

Criação de gado de corte é a atividade que complementa a renda da família

Na propriedade, atividades diversificadas
A propriedade onde os três residem tem 40 hectares. Eles, que há aproximadamente meio ano contam com acompanhamento técnico da Emater, são produtores de soja, milho, trigo e bovino de corte - quanto a esta atividade, vendem o animal vivo, pronto para abate, a frigoríficos e açougues de Três de Maio e São José do Inhacorá.
É claro que tudo depende da raça, do próprio animal e do desenvolvimento que ele tem, mas geralmente a família procura vender os bovinos para abate quando eles atingem mais de 200 quilos de carne, o que geralmente alcançam entre um ano e meio e dois de vida.
Nas lavouras, se envolvem Sandro e Eric, enquanto Cleusa atua nas tarefas domésticas - como no preparo do almoço - e trabalha junto nas lidas com os animais. Para consumo da família, além do próprio gado - que ainda lhes fornece o leite -, também são criados suínos e galinhas.
Os pais de Sandro, Lourdes, 73 anos, e Heldino, 76, também são produtores - moram a aproximadamente 1,5 quilômetro dali, na mesma localidade. Somam-se as terras de Lourdes e Heldino, mais as terras cujo arrendamento Eric obteve e as que seu pai lhe cedeu em regime de comodato, e então a família cultiva aproximadamente cem hectares de soja, entre dez e 20 de milho e 40 de trigo.

Tradição familiar também pesa para Eric
Que Eric gosta do que faz, que gosta do meio rural, isso está bem claro. Mas, na cabeça dele, não são apenas essas questões que o fazem alimentar o desejo de permanecer. Há uma outra.
A trajetória dos Fischborn nesta área não começou com Sandro. Teve início com o bisavô paterno deste, que veio de Santa Cruz do Sul para a área na segunda metade dos anos 1910, e prosseguiu com o avô e com o pai de Sandro.
"Gosto de acompanhar a história da família. Ela migrou pra cá há muitos anos. Não sei todo o conteúdo da história, mas uma parte eu sei, e sei que desde 1918 a escritura dessa área de terra está com a nossa família. Eu seria a quinta geração trabalhando aqui", expõe Eric.
"Todos os que vieram antes de mim eram agricultores, então, além de eu estar fazendo uma coisa de que gosto, eu estou tocando uma tradição familiar, que é uma coisa que julgo bastante importante. Não é uma coisa de pouco tempo, é uma coisa de várias décadas", diz.
Naturalmente, controlar as condições climáticas e os preços praticados pelo mercado não está ao alcance de Eric, Cleusa e Sandro. Mas, naquilo que lhe compete, o jovem produtor rural procura empregar o máximo de empenho.
"A gente aprende muita coisa. Muita coisa já se aprendeu, mas tem muito por aprender ainda", inicia Eric ao ser questionado sobre o que obteve de aprendizado com o pai ao trabalhar com ele durante esses anos.
"A importância de dar valor àquilo que se faz e, dentro daquilo que se faz, sempre tentar fazer o melhor possível. Na agricultura, a gente não tem controle sobre a questão do clima e dos preços do mercado, mas, dentro daquilo que a gente faz, tem que fazer da melhor maneira possível. É um dos principais aprendizados que eu tenho, entre tantos outros", declara.

Eric e os pais, Sandro e Cleusa: 
'Eu me criei nesse meio e fiquei. E é isso aqui o que eu visualizo pro meu futuro'

'Trabalhar entre família eu acho muito melhor do que ir trabalhar fora. Dividir o aprendizado, dividir as ideias, eu julgo isso importante'
Sobre o trabalho com o filho, Sandro chama atenção para a troca de conhecimentos e ideias entre juventude e experiência. "O Eric é o novo, quer agregar coisas novas, e eu sou o mais antigo e mais conservador. Então, existe isso, de sentarmos e trocarmos ideias. O novo, pra qualquer pessoa, sempre é uma coisa que assusta. Mas teve muitas coisas em que já cedi e a gente já mudou, e, da mesma forma, também consigo passar experiência pra ele."
Eric diz preferir muito mais trabalhar entre família. Naturalmente, às vezes, pode haver discordâncias mais enfáticas - o que, afinal, é inerente a qualquer trabalho -, mas nem de longe isso muda a preferência e a avaliação do jovem produtor.
"Trabalhar entre família eu acho muito melhor do que ir trabalhar fora. Dividir o aprendizado, dividir as ideias, eu julgo isso importante. A única coisa é o desgaste, por estar tudo em família. Isso também influencia na família, no convívio familiar. O que acontece de bom influencia pra bom e o que acontece de ruim influencia pra não ser tão bom", avalia.
"Então, tem esse lado. É tentar cuidar pra que o que acontece no teu trabalho não vá influenciar naquela meia hora ou uma hora do dia do que é entre família. Mas seria a única coisa." Dentro dessa união familiar, Sandro e Eric destacam a atuação de Cleusa.
"A mãe não se envolve diretamente na lavoura, mas o auxílio que ela presta no restante das tarefas faz a total diferença pro serviço que acontece na lavoura. Por exemplo, o cara sai de manhã bem cedo, volta tarde, vai plantar, vai colher, precisa passar o dia envolvido e não tem como parar e vir pra casa fazer almoço, fazer o jantar, nem como vir atender os animais. Na lavoura, isso não se nota diretamente, mas faz a total diferença", destaca Eric.
"É um conjunto familiar. A Cleusa não se envolve diretamente, mas dá o suporte. É um tripé e um ajuda o outro", opina Sandro.

Importância de renda extra
Como um dos principais desafios da agricultura hoje, pai e filho veem a questão de se achar um equilíbrio entre aumento da produtividade e aumento do lucro. "O que a gente vê é que aumentou a produtividade mas a rentabilidade do agricultor se manteve ou até diminuiu, porque os custos de produção da lavoura ficaram bem maiores", diz Sandro.
"Nós, no Brasil, não temos uma política definida pra agricultura. Temos grandes altos e baixos na política brasileira pra agricultura, e no meio disso a gente tem que se adequar. Antigamente, mesmo com você colhendo quantidades menores, tendo menor produtividade, conseguia ter mais lucro do que hoje, porque o custo da lavoura era menor."
Esse é um dos fatores que fazem Eric considerar importante que os produtores rurais, dentro das suas possibilidades, sempre procurem ter uma renda auxiliar, cuja geração se encaixe na sua capacidade de mão de obra.
A criação de gado de corte para venda a frigoríficos e açougues faz parte desse pensamento de Eric para a propriedade da família. "Que se busque algo que dê um lucro além da lavoura, ainda mais no caso do jovem que quer ficar na propriedade. Assim, tu não depende única e exclusivamente da lavoura", diz ele.
"Nos dias de hoje, se tu conseguir pagar uma conta de luz, de água ou mais contas do mês com uma renda auxiliar, isso fará uma diferença muito grande", acrescenta. A família já trabalhava com gado de corte, mas, há aproximadamente três anos, Eric sugeriu a ampliação dessa atividade.
Se, anteriormente, se chegava a no máximo dez cabeças de gado, hoje esse número dobrou - inclusive, certa vez, já chegou a 25. "Não é um número muito grande, mas pensamos numa coisa que desse um lucro a partir de um grau de investimento não tão elevado", diz.
"Cada pouco sempre ajuda. Se tu tem que vender dez ou 20 sacas de soja pra passar o mês e puder deixar isso guardado pra vender numa época em que o preço está melhor, ou mesmo vender isso e colocar a juros no banco, talvez num mês isso não dê muita diferença, mas no final do ano vai ser algo vultuoso. Daí que vem a importância de ter mais uma renda."


Oportunidades de obter conhecimento
Além da questão da renda extra, na visão de Eric, diante da evolução tecnológica e de novas informações que chegam todos os dias, os produtores rurais devem aproveitar cada oportunidade para adquirir conhecimento.
"Eu não tenho muito estudo, mas vejo que internet, televisão, rádio e jornal são meios muito importantes de se buscar a informação. E outros caminhos que eu julgo importantes são dias de campo, palestras e até feiras", afirma.
"Alguns não vão a feiras porque pensam 'ah, eu não vou comprar nada', só que às vezes o fato de tu não comprar nada não quer dizer que uma feira não te acrescente, porque tu vai lá, conhece um produto novo, que tu vai aplicar na tua lavoura, tu conhece uma variedade de soja diferente. Então, esse tipo de coisa, na minha opinião, é importante buscar."
Sandro elogia a opção de Eric de permanecer no interior e de escolher o campo para a sua vida, mas considera que o futuro será de grandes desafios para o filho. "A evolução vem chegando e a tecnologia requer muito conhecimento, e ele tem que ir atrás desse conhecimento. Vejo que ele pode obter sucesso, é o que gosta de fazer, mas obter lucratividade pra no futuro conseguir crescer será um grande desafio."
Para Cleusa, a escolha de Eric também envolve vocação. "A gente, sabendo de toda a dificuldade que é viver e trabalhar no campo, sempre deixou isso claro, mas ele optou por seguir isso e eu respeito, porque penso que também é uma questão de vocação. Se, no caso, ele tem vocação e quer seguir, de certa forma eu me orgulho, porque, como o Eric disse, o que ele faz, procura fazer bem", analisa ela, cujos pais, Olívia, 76, e Dario Schneider, 75, também moram perto, a aproximadamente 500 metros da propriedade.
"Comparado com muitos jovens, o Eric se decidiu muito cedo, porque tem muitos que chegam a uma determinada idade e ainda não têm clareza do que querem. O Eric, não. Ele tinha isso desde muito cedo, foi seguindo e continuou. No início, eu até achava que de repente ele iria mudar esse pensamento, à medida que fosse estudando, amadurecendo, mas percebemos que é uma questão realmente muito dele, da vontade dele, de se identificar com o campo. E, como eu digo, é uma questão de vocação também", reforça Cleusa.

'Se é aquilo que a pessoa quer fazer, é importante não desistir'
Na visão de Eric, o jovem que tem interesse e considera importante permanecer no meio rural mas vê inviabilidade disso deve, antes de desistir, verificar até as últimas possibilidades se não há uma maneira de ficar.
"Eu sempre gostei da lavoura, da agricultura, e nunca fui forçado a ficar e nunca fui proibido. Optei por livre e espontânea vontade. Mas sempre digo que, se a pessoa gosta, se é aquilo que ela quer fazer, é importante não desistir. É claro, se às vezes não tem como, paciência, mas, antes de desistir, julgo sempre importante tentar buscar uma maneira", recomenda.
"Se tu sonhou com aquilo pra tua vida, tenta, até a última opção que tu imaginar que vai dar certo. Aí, se tu realmente se convencer de que não tem o que fazer, paciência. A vida é feita de várias opções, mas a pessoa deve tentar. Antes de desistir, o jovem que pensa em ficar deve sempre buscar um meio. Enquanto tem esperança, tem vida", finaliza Eric.

Confira a matéria completa no jornal impresso


FOTOS: MURIAN CESCA



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