Quarta-feira, 26 de julho de 2017
Ano XXIX - Edição 1467
(55) 3535-1033
jsemanal@jsemanal.com.br
diagramacao@jsemanal.com.br

'O contato com animais vai muito além da companhia que proporcionam', diz psicóloga

14/07/2017 - Por Jornal Semanal
Tweet Compartilhar
Para Ana Karina Luersen Machado, 'um pequeno tempo diário dedicado a eles funciona como uma terapia ao ser humano'

A redução da pressão arterial, da ansiedade e de níveis de estresse são alguns dos benefícios que interagir com animais de estimação pode trazer. E é por esses e outros motivos que, na visão da psicóloga Ana Karina Luersen Machado, de Três de Maio, "o contato com animais vai muito além da companhia que proporcionam".
Na avaliação da profissional, que tem cinco anos de atuação, "um pequeno tempo diário dedicado a eles funciona como uma terapia ao ser humano". Em entrevista ao Semanal, a psicóloga ainda fala sobre os benefícios que a convivência com cães pode trazer especificamente para crianças e idosos.
Também, Ana Karina comenta eventuais prejuízos que exageros na relação com os cães de estimação podem causar no dia a dia e fala sobre a importância de os pais ensinarem desde cedo os filhos a respeitarem todos os cães, independentemente de raça e valor de mercado. Confira, a seguir, a entrevista.

Que benefícios uma relação afetuosa e de carinho com cães pode trazer?
Em dias normais, a maioria dos trabalhadores passa aproximadamente oito horas no trabalho. Com tal rotina, passar algum tempo brincando com seus animais de estimação ajuda a reduzir a pressão arterial e a diminuir a ansiedade e níveis de estresse.
O contato com animais vai muito além da companhia que proporcionam. Um pequeno tempo diário dedicado a eles funciona como uma terapia ao ser humano. Conversar e brincar com animais pode diminuir o estresse, sem contar o carinho que eles são capazes de doar. Quem tem animal de estimação sabe a sensação de chegar em casa depois de um dia de trabalho cansativo e ser recebido com festa. Isso deixa qualquer um mais feliz.
A sensação de alegria libera endorfina ao cérebro. A endorfina é um hormônio capaz de relaxar o ser humano, colaborar com seu bem-estar, controlar a pressão sanguínea e melhorar o sono. Por isso algumas pessoas, mesmo que inconscientemente, se dedicam tanto aos animais e se sentem melhor com esse contato.
Além de dar carinho, divertir, acalmar e fazer companhia, os bichos de estimação podem desempenhar um papel ainda mais nobre, ajudando nas perdas pessoais, por exemplo. Estudos feitos com pessoas que perderam seus cônjuges mostram que os donos de animais estão menos propensos à depressão e à sensação de isolamento.

E, especificamente para crianças e idosos, quais são os benefícios?
Ter animal de estimação ensina às crianças a responsabilidade e respeito para com os outros seres vivos, aumenta a autoestima, as faz estarem mais envolvidas em atividades como esportes e tarefas escolares e contribui para um crescimento mais saudável.
A afeição das crianças aos animais é nítida. A convivência desperta o lado mais sensível e carinhoso delas. Elas aprendem a respeitar o espaço dos bichos, às vezes mais do que dos próprios pais. As crianças veem os animais como um amigo, um colega com quem possam brincar, mas que não tem as mesmas capacidades motoras e desenvolvimento que elas. A criança passa a ter, então, a noção da diferença entre os seres e automaticamente aplica isso no dia a dia.
Quanto aos idosos, estudos têm refletido que aqueles que têm cães vão menos ao médico, têm menores problemas de saúde e ainda têm níveis mais baixos de pressão arterial e colesterol em comparação com os não donos de animais de estimação.
O companheirismo que os animais oferecem motiva os idosos a se envolver mais nas atividades diárias e de socialização. Traz um novo significado e propósito para sua vida.
Geralmente os idosos têm a vida menos ativa, passam mais tempo dentro de casa e procuram distrações. Então, os animais apresentam-se como grande atrativo para eles, pois assim os idosos têm com quem conversar e de quem cuidar. Animais de estimação são altamente benéficos para os pacientes idosos.

A maior parte das relações com cães é de amor e afeto. Mas há donos que vão muito além disso, e o tratamento dispensado aos seus cães se assemelha ao dado a seres humanos. O que é considerado exagero e quais os prejuízos que ele - ou eles - pode trazer?
É comum ouvir alguém se referir ao animal de estimação como "filho" e pode até não estranhar o fato. Conforme a psicóloga Maria Aparecida das Neves (em entrevista ao portal Bonde, de Londrina, no Paraná) , "hoje em dia, muitos animais são como membros da família. Antigamente, lugar de cachorro era no quintal, mas, hoje, essa realidade mudou".
Além de terem "entrado em casa", muitos animais domésticos acabam, por vezes, substituindo o contato do dono com outras pessoas. Alguns casais, por exemplo, optam por ter um animal de estimação antes de ter filhos, para testar se saberão cuidar de um ser que depende deles. Esta é uma escolha saudável e benéfica desde que, depois da chegada do bebê, não se abandone o animal - que pode viver mais de uma década em alguns casos.
Quando as pessoas acabam por se isolar por causa de seus animais de estimação, é preciso ficar atento. Muitas afirmam que não podem sair para se divertir, frequentar festas ou ir à casa de amigos pois seus animais de estimação não podem ficar sozinhos. Nesses casos, é preciso rever a relação com o animal e o que ela significa para o dono. Maria Aparecida ainda diz que "os bichos são domesticados, tornam-se companheiros, criam um vínculo afetivo e suprem uma carência dos donos. Um animal de estimação não fica magoado, não tem rancor. Por isso eles voltam abanando o rabo depois de levarem bronca. O problema é quando o dono toma esse retorno integral, essa relação de zero risco afetivo, como padrão". Isso pode ser patológico.

Existem desde cachorros de raças tidas como mais sofisticadas, e que custam caro, até cães de raças menos sofisticadas e vira-latas. Qual é a importância de os pais ensinarem às crianças desde cedo que todos os cães são especiais, que é preciso respeitá-los todos, independentemente de raça e valor de mercado do animal?
Independentemente da raça, de valor de mercado, o importante mesmo é a relação que se instala entre o cão e o seu dono. Acredito que haja raças mais indicadas para cada perfil, mas também acredito que, quando desejamos e estamos dispostos a ter um animal de estimação, o que realmente importará serão o amor, a troca de carinho e o companheirismo que ali se instalará.
As crianças aprendem pelo exemplo. Portanto, quando ensinamos valores e cuidados aos pequenos, certamente eles seguirão na vida adulta o bom exemplo e o cuidado para com os seres vivos. Por experiência própria, sei que o que menos importa quando estamos dispostos a dar carinho para um cão é a sua raça.

'Uma nova chance de vida que é dada', define, sobre adoção, administradora que acolheu quatro cães
Uma mesma relação entre cães e seres humanos, uma relação de amor, afeto e carinho, pode começar de diferentes maneiras. O futuro dono pode ter preferência por uma raça e adquirir um animal que seja desta; uma cachorrinha de outra pessoa pode ter filhotes e essa pessoa os oferecer; um dono pode passar a não querer mais - ou não ter mais condições - seu bichinho e querer o dar para outra pessoa.
Além dessas, uma das outras situações que podem marcar o início de uma relação afetuosa entre cães e seres humanos é a adoção dos animais - algo de que a administradora Eliana Weiss Dahmer, 38 anos, de Três de Maio, entende bem.
Eliana tem quatro vira-latas adotados - a administradora não sabe precisar a idade deles porque ela já adotou os bichinhos com eles tendo certa idade. No momento, embora ela conviva diretamente com eles, Bita, Negrinho, Flor e Biscoito ainda moram na casa dos pais dela - onde Eliana residia -, mas só porque o canil da casa da administradora ainda não está pronto.
"A adoção é um ato de amor, uma nova chance de vida que é dada", diz Eliana em depoimento, o qual você confere a seguir.

"Bom, quantos cães eu tenho? 
É uma turminha grande com a qual convivo diariamente. Dois deles estão no meu local de trabalho, mais a Pretinha, que é do meu marido, o Max, que é da vizinha, mas que com frequência vem ficar na minha casa (e ainda bem que ela o deixa ficar aqui!), e mais quatro na casa dos meus pais, onde eu morava, todos eles adotados por mim em diferentes circunstâncias.
Na época, eu tinha um cãozinho shar-pei e não pensava em ter outros. Foi quando soube que uma vizinha havia se mudado de cidade, deixando a cachorrinha abandonada e, pior ainda, presa a uma corrente, sem qualquer cuidado. Quando a resgatamos, estava praticamente sem vida. E ela já está conosco há dez anos, seu nome é Bita.
Depois veio o Negrinho, que já me faz companhia há oito anos. Estava perdido nas ruas de Porto Alegre, magro, sem pelos, correndo risco de ser atropelado ou até mesmo morrer de fome. Não tive como virar as costas e não ajudar.
Após algum tempo, em uma noite muito fria de inverno, foi deixada no portão de casa uma cadelinha recém-nascida. Minha única alternativa foi pegá-la, arrumar cama, comida. E vamos lá, cuidar de mais uma, a Flor!
Pensei: 'Agora, chega!'. Que nada. Por fim, veio o Biscoito, de uma ninhada que estava para adoção. Ainda bem que toda a minha família gosta de animais e ajuda a cuidar, pois já chegou um dia em que a turma estava em 16 cães. Mas só de passagem; sempre arrumamos um lar, alguém disposto a adotar.
Eu não saio por aí procurando cachorros para ajudar, até porque isso me deixa muito triste, vê-los abandonados ou até mesmo mal tratados pelos seus donos, presos em meio metro de corrente, no frio, no relento, sob o sol de verão. Mas tenho para mim que, sempre que aparece uma situação em que algum animal esteja precisando de ajuda, eu ajudo. Procuro fazer a minha parte, e acredito que se todos fizessem um pouquinho pelos animais necessitados a situação seria bem diferente.
Vamos adotar um animal-zinho, adote com o coração, divida seu amor com eles, serão eternamente agradecidos. Adotar é valorizar a vida, e não há recompensa melhor do que vê-los alegres e saudáveis. A adoção é um ato de amor, uma nova chance de vida que é dada."

'Adotar é valorizar a vida, e não há recompensa melhor do que vê-los
alegres e saudáveis', afirma Eliana, que tem 38 anos

Os cães que 'escolheram' seu dono
A maioria das pessoas escolhe seus cães. Porém, as histórias de Sara e Sansão com o médico-veterinário George Kochhann fogem do tradicional. Nestas relações, mesmo que por acaso, o destino quis que os dois cães ficassem sob a tutela do veterinário.
Sara foi passar uns dias no hotel da pet shop da qual George é proprietário, enquanto o pátio da nova casa do dono da cachorrinha era cercado. Ali no hotel, "fugitiva" que era, ela já dava mostras de sua capacidade como "alpinista", como brinca George.
E então, quando Sara foi viver na nova residência, não se adaptou, fugiu, depois foi encontrada e, por comum acordo de George com o então dono dela, passou a viver com o médico-veterinário.
Já Sansão, velho conhecido do profissional, passou por diferentes propriedades do interior, mas não se adaptou a nenhuma e acabou numa estrada de chão, até ser resgatado pelo veterinário. Conheça detalhes destas emocionantes histórias no relato do próprio George.

"Algumas profissões são 
escolhidas por afinidade com a atividade e realização pessoal, e outras são escolhidas devido à remuneração, mercado de trabalho ou meramente por falta de outra opção. A medicina veterinária tem uma peculiaridade que não se vê em muitas profissões. É imprescindível que o profissional goste e tenha apego aos animais, tanto é que a maioria dos profissionais que conheço optou pela atividade já na infância.
Comigo não foi diferente. O meu apego aos animais é evidente. Durante meus 22 anos como veterinário, sempre estive ajudando, de um modo ou de outro, os animais, ajuda essa que às vezes vai além da atividade profissional, dentro das minhas possibilidades e limitações.
Os relatos de histórias dos cães resgatados, medicados e ressocializados dariam um livro e tanto. No meu pátio, além dos meus quatro cães 'oficiais', tenho a Sara e o Sansão, que chegaram a mim meio que por acaso. Suas histórias merecem um comentário.
A Sara era minha amiga de longa data e em determinado momento seu tutor teve que mudar de residência. A Sara, o Sheik e a Keity ficaram no hotel até que o pátio da nova casa fosse cercado. Enquanto estavam comigo, observei que a Sara pulava e escalava cercas e grades de até dois metros de altura. Quando ela retornou ao seu tutor, alertei sobre isso. Na primeira noite na casa nova, ela fugiu e só foi achada dois dias depois. Passou esse tempo presa em cima de uma árvore no pátio do vizinho, que ela tentava usar como escada, em uma tentativa de fuga frustrada. Foi trazida para mim bem debilitada. Eu e seu tutor decidimos que ela ficaria comigo, para evitar uma nova fuga. Está comigo há mais de quatro anos. O Sheik e a Keity ficaram na casa nova, já que não eram alpinistas.
O Sansão também já era meu amigão muito tempo antes de ser resgatado. Passou por no mínimo três propriedades no interior do município, até que o achei, por acaso, deitado na valeta de uma estrada de chão. Parei para ajudar, achando que fosse um cão qualquer atropelado. Ao me ver e me reconhecer, levantou-se e deu a pata para mim, como eu havia ensinado a ele vários anos antes. Não tive dúvidas. Deixei de lado o compromisso que tinha, o levei para casa e tratei suas feridas, machucados e bicheiras. Como ele 'odeia' gatos e galinhas, não tem como voltar para o interior, já que foi esse o motivo de ter sido jogado de um lugar para outro. Está comigo há seis meses.
Estes dois relatos parecem ficção mas são reais, tanto é que quem me conhece bem também conhece a Sara e o Sansão."

George com Sara (esquerda) e Sansão: uma era 'alpinista' e escalava cercas e grades de até dois metros, enquanto o outro, já na época conhecido do veterinário, foi encontrado desamparado numa estrada de chão


Na foto principal: A psicóloga Ana Karina Luersen Machado


FOTOS: ARQUIVO PESSOAL / EDERSON RAMBO





Indicar a
um Amigo

Comentários

Deixe a sua opinião

Veja Também

23/06/2017   |
13/04/2017   |
31/03/2017   |
03/03/2017   |
17/02/2017   |




Todos os direitos reservados - Jornal Semanal - Três de Maio - RS