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INTERCÂMBIO ROTÁRIO - Experiência única que pode mudar vidas

23/06/2017 - Por Jornal Semanal
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Etnia, idioma e cultura deixaram de ser barreiras para intercambista nigeriana em vista das lições adquiridas e da troca de experiências entre intercambistas e famílias hospedeiras

Faltando menos de um mês para retornar para casa, na cidade de Lagos, Nigéria, a jovem Blessing Chiyenum Opute, intercambista do Rotary Club, vai levar na bagagem muitas histórias para contar e deixará saudades para as famílias e amigos que a acolheram em Três de Maio no último ano. Ela está no Brasil desde 14 de agosto de 2016 e retorna para a Nigéria no próximo dia 10 de julho.
Bles, como é carinhosamente chamada, tem 16 anos, e talvez, num tempo não muito remoto, jamais tenha imaginado passar por uma experiência tão significante em sua vida. Lagos é a maior cidade da Nigéria, com uma população estimada em 21 milhões de pessoas, com cultura e costumes bem diferentes dos brasileiros. O país tem mais de 500 grupos étnicos, cada um com suas roupas, bebidas, danças e comidas típicas.
A jovem nigeriana tem quatro irmãos e uma irmã. O pai, Alex Opute, 47 anos, é homem de negócios e trabalha com eletrônicos. A mãe, Queen Opute, 42, é comerciante. Ao sair de seu país, a intercambista nigeriana não falava uma única palavra em português, apenas o inglês, língua oficial da Nigéria.
Em solo três-maiense, ficou hospedada na casa de três famílias rotárias. Além de fazer e encantar inúmeros amigos, vivenciou experiências únicas e muito gratificantes, como vamos conhecer agora nesta reportagem.




A oportunidade do intercâmbio
Para conseguir uma bolsa de intercâmbio, Blessing passou por uma entrevista no seu país e respondeu a perguntas sobre o Rotary. A partir das respostas, a comissão rotária avaliou que a jovem tinha capacidade de participar do programa de jovens e a oportunidade do intercâmbio se concretizou. 
Havia dois destinos pelos quais a jovem se interessava: Estados Unidos e Brasil. "Aí o Brasil me escolheu. Pensei comigo: 'Tanto faz o país. Eu vou porque quero participar deste programa'. Mas não foi fácil, porque só falava inglês, a língua típica do meu país. Foi engraçado, pois eu pensava: 'Como esta menina de 15 anos (na época), que não sabe falar nenhuma palavra na língua portuguesa, vai viver lá?'. Então, começou minha viagem. Mas Deus me ajudou, porque, até eu chegar ao Brasil, só conhecia a palavra 'saída'", recorda.

Chegada e adaptação em Três de Maio
As primeiras impressões que Bless teve ao desembarcar no Brasil foram a hospitalidade e o abraço carinhoso dos brasileiros. E, quando chegou a Porto Alegre, o que mais chamou atenção foi ver as pessoas tomando chimarrão: "Logo queria saber o que era aquela bebida".
Blessing relembra que, no momento em que chegou a Três de Maio, se deu conta de que tinha chegado ao destino e de que tudo era muito diferente do seu país de origem. "Quando você vai a um lugar em que nunca esteve, tudo fica estranho. Mas a família que me hospedou estava bem feliz por me receber. Tudo estava pronto para eu ficar na casa deles. Mas eu sabia que nem tudo iria dar certo, e eu ainda não sabia falar nada em português. Ouvia: 'Força, Blessing, que quando a gente se esforça a gente consegue', o que é verdade", relembra a menina nigeriana, que hoje fala e escreve em português.
As famílias com as quais conviveu durante o período em que está no Brasil fizeram toda a diferença para facilitar a adaptação. "Todas foram muito queridas e me ajudaram a crescer como pessoa. Uma das mães me ajudava a combinar minhas roupas para sair e isso me lembrava minha mãe na Nigéria. Ela sempre dizia que sou uma menina forte e inteligente."
Blessing diz que se surpreendeu com a cidade de Três de Maio, pois é bem menor do que ela imaginava. E, também, ficou surpresa por encontrar pessoas negras e até mesmo da África (Senegal). "As pessoas daqui se reconhecem, se cumprimentam na rua, no supermercado, nas lojas. Foi muito estranho para mim. Bem diferente da minha cidade."

Dia a dia em terra três-maiense
Em sua "estadia" em Três de Maio, Bless frequenta aulas regulares em uma escola, e em casa ajuda nas tarefas domésticas, como lavar a louça e limpar e organizar seu quarto e roupas. Nos fins de semana, quando não tem programação com a família em cuja casa está hospedada, ela visita amigos. Tem, ainda, as atividades como intercambista, como participar de programas e acampamento com todos os intercambistas rotários na região.
Bless também participou de um projeto social realizado na Apae de Três de Maio, auxiliando os alunos e, consequentemente, aprendendo um pouco mais sobre eles também.


As maiores dificuldades
Questionada sobre as maiores dificuldades no período do intercâmbio, Blessing não tem dúvidas e fala sobre os obstáculos com o idioma português. "Foi difícil para eu me adaptar com as famílias onde fiquei hospedada. A comunicação era difícil no começo. Mas, aos poucos, comecei a estudar a língua e, inclusive, olhei alguns vídeos. Com a ajuda das famílias, especialmente a família de Cristiano Rambo, por causa das crianças (Lucas e Lala), que muito me ajudaram a aprender o idioma, tudo ficou mais fácil."
A jovem também teve auxílio da professora de português Camila Witczak. "Ela foi muito importante, porque me deixava mais calma e sempre acreditou que eu conseguiria falar o português. Sou muito grata a ela."
Com muita força de vontade, Bless conseguiu alcançar seu objetivo. "Minha família diz que eu sou uma menina forte e que, por isso, eu consegui. E é verdade, eu consegui aprender a língua portuguesa e consegui me adaptar bem com as famílias e com as pessoas daqui", comemora.

O reconhecimento a quem ajudou 
nesta caminhada
"Para as famílias três-maienses, gostaria de dizer muito obrigada por tudo, pela atenção, pelos ensinamentos e pelos cuidados que sempre tiveram comigo. Todos vão ficar sempre no meu coração. E, para meus pequeninos irmãos Lucas e Lala, quero dizer que amo vocês e que nunca vou esquecer o amor que demonstraram por mim. Sempre vão ficar na minha vida e no meu coração", agradece, emocionada.
"Para o Rotary: obrigada por este programa que desenvolve para os jovens. Este programa muda a vida da gente. Muito obrigada também por tudo o que fizeram por mim. E também quero agradecer a todas as pessoas que me ajudaram e são muito especiais para mim: Alessandra Reihner, Marli Foletto, Maria Foletto, família Rambo, Sueli e Olímpio Brock, os amigos Pedro, Leonardo, Narjana e Bianca e todos os demais três-maienses que sempre me trataram com respeito, amizade e muito carinho."

A receptividade das famílias, como a de Cristiano Rambo, com quem Bless ficou por um período, 
foi fundamental para uma rápida adaptação 

O que vai ficar do intercâmbio
"O intercâmbio me ajudou a crescer e me preparou para enfrentar todos os tipos de desafios na vida. Recebi muito amor das famílias. Tem uma coisa que uma das mães dizia e vou lembrar todos os dias da minha vida: 'Nunca desista dos seus sonhos, vá atrás deles e você vai conseguir'. Estas palavras estão dentro do meu coração. Pequenos gestos, como o do pai que preparava o café da manhã para mim, o do outro que sempre me aconselhou para ser forte e ajudou a escolher meus caminhos, são coisas que jamais vou esquecer", diz, emocionada.
O que muda na vida Bless depois do intercâmbio? São seus pensamentos sobre a vida e o futuro, e ela afirma que está mais forte e responsável. "Aprendi muitas coisas, tipo fazer bolo peteleco e tomar café, tereré, que eu adoro", descreve.

Futuro, estudos 
e profissão
A nigeriana destaca que pretende ser designer de moda reconhecida em todo o mundo. "É a única coisa que eu amo fazer. Desde pequena. Tenho a ideia de costurar para todos os tipos de pessoas. Sendo ricas ou pobres, não importa."
Ela aproveita para agradecer às empresárias Bruna Winkelmann e Daniela Gnoatto, proprietárias do atelier Bendita, pela oportunidade de aprender com essas profissionais e pela troca de experiências.

'O intercâmbio pode dar um rumo para a sua vida'
O que Bless tem a dizer para quem quer participar do programa de intercâmbio do Rotary? Ela tem uma resposta bem clara e objetiva. "O intercâmbio não é fácil. É uma experiência que muda nossas vidas. Meu conselho para você como estudante de intercâmbio é: seja sempre sincero, confiável. Você pode estar em uma situação, o Rotary vai querer saber a verdade e, se apostar em você e for verdadeiro, você poderá ficar, mas, se não estiver dizendo a verdade, poderá ser enviado de volta para o seu país e aí o sonho acabou. O intercâmbio pode dar um rumo para a sua vida", aconselha.
Para finalizar, Blessing afirma que, se tiver outra oportunidade, quer voltar para Três de Maio e morar aqui, também para conhecer mais os brasileiros e aprender a falar bem o português.

A convivência com a família Bohnen resultou em uma troca de experiências 
muito gratificante e uma grande amizade 

'Hospedar um intercambista: experiência inesquecível e muito gratificante'
A família rotária do casal Roque e Mireia Bohnen, a última a acolher Blessing em Três de Maio, também fala sobre a experiência de ter a nigeriana em seu convívio diário neste período.
Para Mireia, Blessing é uma adolescente cheia de sonhos. Talentosa, tem o dom da costura, é criativa e faz coisas maravilhosas. "Apesar da pouca idade, 16 anos, é extremamente responsável e determinada", elogia a mãe brasileira.
 Mireia diz que o período de convivência foi muito gratificante. "A Blessing é muito tranquila, tivemos uma afinidade imediata. Como nossa filha está no intercâmbio, a vinda dela para a nossa casa trouxe vida, encheu a casa de músicas, conversas agradáveis e muitas risadas", relata.
Uma das coisas que mais surpreenderam a mãe brasileira foi a forma como Bless lidou com as dificuldades de adaptação próprias de um intercâmbio. "Vou levar para sempre em meu coração a alegria dela, que é algo contagiante."
Para a família Bohnen, ao acolher um intercambista, a família anfitriã passa por uma experiência inesquecível. "Quando hospedamos um jovem de outro país, percebemos que, olhando bem de perto, somos todos iguais, que a nacionalidade, o idioma e a cultura deixam de ser barreiras, que a troca de experiências é única e é muito gratificante perceber que você mais aprende do que ensina", diz Mireia.

  
A jovem nigeriana Blessing Chiyenum Opute, de 16 anos, intercambista do Rotary Club, está em Três de Maio desde agosto de 2016. Ao retornar para casa, no próximo mês, levará na bagagem muitas histórias para contar e deixará saudades para as famílias e amigos que a acolheram em Três de Maio. Além de participar de atividades pertinentes ao intercâmbio, Bless também fez questão de aprender alguns costumes, como tomar chimarrão e fazer bolo de chocolate

FOTOS: ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO



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