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JOGO BALEIA AZUL

26/05/2017 - Por Jornal Semanal
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Diante de dificuldades em achar sentido para  a vida, se machucar ou pôr fim a ela pode parecer sedutor, diz professora

Docente Lao Tse Maria Bertoldo, do curso de Psicologia da Setrem, participou de debate sobre o tema durante encontro interdisciplinar

Com 50 desafios ao participante, sendo a missão final 
 acabar com a própria vida, o jogo virtual Baleia Azul, que
chegou ao Brasil recentemente, preocupa autoridades e pais de crianças e de adolescentes.
Não é um jogo virtual comum, a que a juventude esteja habituada, como de futebol, corrida, guerra ou outros. É um jogo praticado diretamente entre pessoas, por meio de diálogos privados em redes sociais.
E essas pessoas são os chamados "curadores", que comandam o desafio, e as vítimas, que no decorrer são, só para citar exemplos, impelidas a se mutilar e, ao final, acabar com a própria vida - muitas vezes à base de ameaças e chantagens, caso demonstrem intenção em desistir depois de terem concordado em participar.
"Às vezes, frente à fase, é normal a curiosidade de querer conhecer (o jogo). Mas o adolescente que persiste (nos desafios) pode estar com dificuldades em relação ao que sente, e também em relação a achar sentidos construtivos para a sua vida. Sendo assim, machucar-se ou pôr fim à sua vida pode em algum momento parecer sedutor", diz, em entrevista ao Semanal, a professora do curso de Psicologia da Setrem Lao Tse Maria Bertoldo.
Ela participou de debate sobre o tema durante o 3º Encontro Interdisciplinar da Enfermagem e Psicologia Setrem, realizado no último dia 18, no auditório do câmpus da instituição.

Além, é claro, da possibilidade de automutilação e de suicídio dos participantes, o que, para você, o jogo Baleia Azul traz de mais preocupante, principalmente quanto a significados, uma vez que ele não apenas foi criado, como também atrai adeptos?
Sendo este um jogo que estimula o participante a vivenciar sentimentos e pensamentos que podem ser intitulados como negativos e destrutivos, com a proposta maior de tirar a própria vida, o que preocupa é que faça sentido para alguns adolescentes tanto criá-lo como participar, especialmente porque tem revelado um adoecimento subjetivo relacionado, em parte, à constituição das crianças e jovens atualmente e, em outra medida, reflete um contexto adoecido.
Esse contexto, por exemplo, supervaloriza objetos e capital e desvaloriza pessoas, vivências afetivas e pequenos gestos que podem dar sentido à vida. Esse estilo atual de se viver, em que nada é aprofundado e tudo é vivido com pressa e superficialidade, tem como reflexo o enfraquecimento dos vínculos familiares, de amizade e das vivências produtoras de sentidos.
Um exemplo disso é o adolescente não ter tempo para nada além de estudar, não poder sentar-se com seus familiares em algum momento do dia sem uso da tecnologia e simplesmente encontrando o olhar daqueles que ama.
Às vezes, mediante a queda destas práticas de encontro com o outro, é necessário que a família retome estes rituais, mesmo com o contexto não estimulando o tempo necessário para estas vivências únicas. É necessário muitas vezes os pais poderem delimitar e instituir: "Neste momento, vamos conversar, falar um pouco de você, da sua vida, daquilo que pensa para o seu futuro". E, de preferência, sem interferência de tecnologias nestes momentos, que já são escassos.
Às vezes o adolescente quer mostrar algo de seu interesse (que está) na mídia, no seu celular. É possível olhar, comentar e trazer isso para o diálogo também, sem se perder nas distrações da tecnologia.

Embora, naturalmente, os participantes possam diferir muito entre si no aspecto psicológico, o que o fato de um jovem aceitar participar do jogo e executar os desafios pode, eventualmente, dizer sobre ele?
A adolescência é uma fase caracterizada por angústias relacionadas a ter de encontrar a sua identidade, e isso contará muito com o que o adolescente pôde construir até o momento. Também será fundamental que seja auxiliado a enxergar sentido nas coisas da vida e entender que existe um espaço nela para alguém com suas qualidades, ou seja, que o seu modo de ser único pode agregar no meio em que vive.
Apoiar, valorizar os pequenos gestos do filho e não ficar só na exigência, dar esperança e ensinar otimismo, tudo isso são coisas que tendem a proteger o adolescente de persistir em jogos no estilo do Baleia Azul.
Às vezes, frente à fase, é normal a curiosidade de querer conhecer. Mas o adolescente que persiste pode estar com dificuldades em relação ao que sente, e também em relação a achar sentidos construtivos para a sua vida. Sendo assim, machucar-se ou pôr fim à sua vida pode em algum momento parecer sedutor.
Muitas vezes, este adolescente que está fragilizado psicologicamente, já apresentando sintomas depressivos, não havia pensado em suicídio até então, mas a vulnerabilidade de não ter ainda formado sua identidade, de muitas vezes estar sofrendo ou angustiado (o que pode ocorrer na adolescência) e, junto a isso, não ter recursos internos como a reflexão e autoestima elevada pode fazer o adolescente considerar a possibilidade de persistir e até mesmo de executar o desafio até o fim.

Que aspectos do comportamento do filho ou da filha os pais devem observar e podem ser um sinal de propensão à participação (ou mesmo de efetiva participação) no jogo?
Todos os profissionais e adultos que estão em contato com as crianças e adolescentes atualmente devem unir esforços e estar atentos aos pedidos que estes acabam enviando, muitas vezes, por meio de sintomas ou símbolos. Isso geralmente não ocorre por intencionalidade, mas representa uma forma de dizer que precisam de atenção, afeto e até limites.
É sempre importante lembrar que os limites devem ser acompanhados de uma explicação coerente e de outras situações de amor, para que sejam aderidos pelos adolescentes.
Sintomas como o isolamento e tendência a se esquivar do contato ou de situações sociais podem ser normais na adolescência quando o adolescente precisa de maior privacidade, mas é importante observar se há momentos de interação e trocas saudáveis, se o adolescente se interessa pela vida.
Se isso não ocorre, ele pode estar vivenciando sentimentos mais depressivos. Se os adolescentes possuem interesses que trazem alegrias, satisfação, se parecem possuir projetos de vida, se parecem gostar de si mesmos, é melhor sinal.
Caso os pais percebam que isso não ocorre, é fundamental estimular este tipo de posicionamento, como ajudar o adolescente a perceber as belezas nas situações da vida e que há esperança de dias melhores, pois às vezes, nesta fase, tudo é vivido com muita intensidade e sem o adolescente conseguir pensar em um futuro, mesmo que próximo.
É necessário cuidar ações impulsivas e ajudar o adolescente a refletir sobre as consequências de seus atos, não numa perspectiva de punição, mas com afeto e ao mesmo tempo firmeza. Algumas certezas e gasto de energia são necessários quando o assunto é educar para a vida. Ouvir o adolescente é fundamental, entender como está vendo a vida e que sentido está construindo sobre si e sobre o mundo. Até porque, apesar de parecerem "grandes", os adolescentes ainda precisam de muito auxílio nesta tarefa.

O que os pais devem fazer, como devem agir quando um filho ou filha de 5 anos, ou de outra idade nesta faixa, comenta com eles sobre ter ouvido falar a respeito do jogo Baleia Azul?
Segundo uma conhecida psicanalista, Françoise Dolto, é preciso ouvir as crianças e conversar com elas. Primeiro, é necessário ouvir a criança e entender o que ela sabe, e depois que sentido ela está dando para o que ouviu, e delimitar que tipo de informação ela busca e não fazer isso de forma traumática.
Pode-se dizer à criança que existem certos jogos que são bons e outros maus, e que neste existem coisas ruins que se pedem a crianças e adolescentes para fazer e que isso deve ser dito às mães e aos pais (ou ao adulto de confiança).
Nessa idade, a criança ainda "polariza" o mundo e o compreende com aspectos bons e outros maus, tais como os personagens de contos de fada. Sendo assim, deve ser dito a elas que pessoas com dificuldades às vezes criam jogos maus e que as crianças não devem participar, mas que muitas pessoas ainda não sabem que é importante conversar sobre suas dúvidas com a mamãe ou papai e aí acabam fazendo este jogo sem saber ao certo onde as levará e que isso não é bom.
Ainda, complementar dizendo que existem outros jogos, que são bons e ajudam as crianças e adolescentes a conhecer o mundo. É importante para que a criança não fique com medo da vida. E ressaltar que sempre é importante conversar com a mamãe e o papai (ou com o adulto responsável) sobre esses jogos ou alguma situação que tenha deixado a criança em dúvida.

E de que maneira os pais podem trabalhar, com os filhos, a prevenção ao suicídio e a conscientização sobre, especificamente, os perigos do jogo?
A ideia não é culpabilizar ninguém, mas unir esforços para ajudar os jovens de hoje a achar sentidos seus na vida. Podemos auxiliá-los e emprestar alguns de nossos pontos de vista, mas é necessário o entendimento de que a "saga" vai ter que ser atravessada pelo adolescente e ele vai ter que, mediante a ajuda que lhe foi dada, escolher o que para si faz sentido.
Procurar conhecer e acompanhar o que o filho está pensando e construindo sobre o mundo é sempre uma prevenção. Se o adolescente consegue dar um sentido saudável à vida e às experiências, achará estranho e desconfortável participar destes jogos. Sendo assim, é fundamental que diariamente haja o diálogo com o adolescente, perguntando coisas de seu cotidiano (como foi no intervalo hoje, que matérias foram passadas, do que ele gostou na aula, do que não gostou, se teve algo diferente que lhe chamou atenção), ou seja, buscar conversar e mostrar-se interessado pelos interesses e dia a dia dos filhos.
Ajudá-los a construir sentidos também é fundamental. Às vezes os adolescentes estão bastante angustiados, então é importante tranquilizá-los a respeito destas emoções e dizendo que essas dúvidas e dificuldades aos poucos irão se acomodando a partir de novas vivências. Em casos em que se observe maior dificuldade de diálogo, ou sintomas depressivos, deve-se procurar um psicólogo, para ter ajuda profissional em relação a isso.

FOTO: SETREM/DIVULGAÇÃO



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