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Polarização na política - 'As pessoas estão sendo constantemente mobilizadas para a guerra', diz Marcos Rolim

12/05/2017 - Por Jornal Semanal
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'Por que não a superação desses conflitos e dessas competições a partir da argumentação?', questionou, em Três de Maio, o sociólogo e ex-parlamentar

A forte polarização política e ideológica que há anos existe no Brasil "tem produzido cada vez mais violência e cada vez mais incompreensão", na visão do sociólogo Marcos Rolim.
Para ele, "quando perdemos a capacidade de escutar os argumentos dos demais, quando nos lançamos numa guerra uns contra os outros, não avançamos para campo nenhum".
Exemplos disso, analisou o doutor em Sociologia, são alguns comportamentos em redes sociais, nas quais ele enxerga haver muito radicalismo. "São redes antissociais, na verdade, porque nelas as pessoas se agridem, se atacam, se xingam o tempo inteiro. Tu colocas uma ideia e a pessoa não te responde; ela te ataca."
Gaúcho de Porto Alegre, onde reside, Marcos, 56 anos, foi um dos conferencistas do 2º Seminário Internacional de Educação e Intercultura, realizado entre os dias 3 e 5, dentro da programação da 15ª Expofeira do Agronegócio, em Três de Maio.
Ele falou sobre o tema "Educação e direitos humanos: os desafios do século 21". Especialista em Segurança Pública, Marcos é jornalista e também foi vereador em Santa Maria (1983/1989), deputado estadual (1991/1999) e deputado federal (1999/2003).
Na Assembleia Legislativa, presidiu por seis anos a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, e, na Câmara dos Deputados, foi presidente da Comissão de Direitos Humanos em 2000. Também é professor e escritor.
Na sua edição anterior, de 6 de maio, o Jornal Semanal já havia trazido algumas questões levantadas pelo sociólogo na palestra, como as visões de que, "quando as pessoas não refletem, quando não são capazes de pensar, elas estão mais adaptáveis à reprodução do mal" e de que, no Brasil, quanto aos direitos humanos, "há uma série de chavões que são repetidos todos os dias, com a intenção, exatamente, de impedir o pensamento".

'Essa guerra nos leva a um impasse cada vez maior'
Sobre o radicalismo presente nas discussões políticas, Marcos avaliou que, assim, se começa a entrar em uma guerra. "Quando entramos numa guerra, aí, é 'nós contra eles'. Então, se é 'nós contra eles', vamos até a morte, porque somos nós ou eles. Mas por que 'nós ou eles'? Por que não 'nós e eles'? Por que não a superação desses conflitos e dessas competições a partir da argumentação?", questionou.
"É uma estratégia de guerra (a que tem sido seguida). As pessoas estão sendo constantemente mobilizadas para a guerra. A política no Brasil deixou de ser política há muito tempo e passou a ser uma guerra. E essa guerra nos leva a um impasse cada vez maior", afirmou.
Por outro lado, para ele, "grande parte" dos estereótipos que há no País, a respeito dos mais diferentes grupos, e que ajudam com que preconceitos e visões distorcidas se disseminem, "é contada pela mídia e refletida por ela".
"Como estamos sintonizados com a mídia, é muito difícil falar em direitos humanos no Brasil sem pensar numa profunda mudança na mídia brasileira, nos grandes meios de comunicação, na forma como eles reproduzem o conjunto de ideias", advertiu. "Os jornalistas são pessoas como nós, encharcados de preconceitos, encharcados de limitação, e, evidentemente, reproduzem isso ao trabalhar."

Entre grupos diferentes de jovens, distância cultural
Durante a palestra, Marcos questionou: "Como é possível pensar a escola pública na nossa época sem considerar a importância da mídia, sem considerar a importância dos meios eletroeletrônicos, da comunicação instantânea, do telefone celular, da internet?".
Para ele, é uma juventude que praticamente nasce conectada e que, entretanto, tem muitos professores que, "até em função da época em que se formaram, não dominam, muitas vezes, o básico dos instrumentos, dos conceitos da internet". "Nós não estamos conectados com essa realidade que os jovens vivem", apontou.
No entanto, para Marcos, se por um lado há uma juventude conectada, há, também, uma juventude que se divide entre o uso favorável das ferramentas tecnológicas e um uso não tão favorável assim - ou, em alguns casos, maléfico. E, na visão dele, em vez da democratização do acesso à cultura, isso criou uma distância cultural entre os dois grupos - uma distância que só aumenta.
"Há uma juventude, especialmente na classe média alta, que está voando na internet. Voando. Conheço jovens de 17, 18 anos que na internet estão aprendendo um quarto idioma, e alguns fazendo, a distância, cursos de Harvard (uma das universidades de maior prestígio no mundo, localizada em Cambridge, nos Estados Unidos). O mundo se transformou na sua sala, na sua casa", relatou.
"E há uma imensa maioria de jovens que ficou lá atrás, mergulhada no lixo da internet. E estão faceiros, mergulhados na fofoca, na superficialidade do mundo, no futebol, na pornografia, na violência, sem acesso a nada da cultura."
"Ou a escola entra nisso e ensina às pessoas o que ver na internet, o que procurar na internet, ou a gente vai ficar fazendo uma conversa que não entrará na cabeça de ninguém. Se nós queremos de fato nos comunicar com eles, é preciso dialogar com essa cultura que os jovens têm, é preciso dialogar com os instrumentos com que eles lidam", destacou.

'Onde a escola pública falha, o tráfico acolhe'
Na palestra, Marcos também falou sobre criminalidade. Um dos seus livros é "A Formação de Jovens Violentos - Estudo sobre a etiologia extrema", escrito a partir da sua tese de doutorado em Sociologia, aprovada com louvor pela UFRGS em 2014.
"Para minha tese, estudei durante quatro anos jovens matadores. Minha preocupação era entender o que fazia um jovem virar um matador. Estudei com profundidade 17 jovens internados na Fase (Fundação de Atendimento Socioeducativo), que tinham múltiplos homicídios", contou, dizendo que, no entanto, o foco das entrevistas era na história de vida dos jovens, e não nos crimes.
Marcos disse que, ao final das entrevistas, que duravam entre quatro e cinco horas, pedia aos jovens que indicassem um colega de infância que eles tinham certeza de que não havia se envolvido com o mundo do crime.
Dos 17, 16 conseguiram indicar. Dos 16 jovens que não haviam seguido o caminho do crime, Marcos conseguiu localizar 11. E, com eles, repetiu, com a mesma profundidade, as entrevistas sobre a história de vida.
"As diferenças entre os dois grupos eram grandes, mas também havia semelhanças importantes. Mas eu não podia, a partir só das entrevistas, afirmar nada definitivamente, porque era uma pesquisa qualitativa. Então, parti para a segunda parte, a pesquisa quantitativa."
Dentro disso, "entreguei um questionário com mais de cem perguntas sobre sua história de vida, um questionário que aplico dentro do Presídio Central (hoje chamado Cadeia Pública de Porto Alegre) para presos jovens. E descobri que, nas escolas públicas da periferia, onde há milhares e milhares de meninos pobres, eles vão embora por volta dos 11, 12 anos. Há uma evasão escolar muito expressiva".
Marcos expôs que, dos milhares que saem da escola, parte deles é recrutada, nas periferias, por grupos ligados ao tráfico de drogas. "E esses grupos de traficantes socializam essas crianças, esses adolescentes. Onde a escola pública falha, o tráfico acolhe. É uma socialização perversa", declarou.
"O sujeito deixa de ser uma pessoa que não era ninguém na escola e passa a ser alguém no grupo armado. Agora, ele tem uma pistola na cintura. Agora, ele ganha mais do que o pai. Agora, ele tem roupas de marca. Agora, todas as meninas querem transar com ele", acrescentou.
"Ele vai ser treinado na violência. E minha tese demonstra, com dados quantitativos, com relação de causa e efeito, que o fator fundamental para explicar a violência no Brasil se chama treinamento violento. As pessoas habilitadas a matar, as que são, portanto, as mais violentas, elas foram educadas para isso", frisou.
"Se o prefeito me pedisse uma sugestão para conter a violência, eu diria: 'Prefeito, vá atrás das pessoas que saíram da escola'. É claro que eu precisaria conhecer a realidade da cidade, da região, mas, se o pedido fosse só de uma sugestão, a sugestão seria essa. É tentar trazer essas pessoas de volta, tentar colocar evasão escolar zero como uma meta, porque quem fizer isso vai colher, ali adiante, resultados impressionantes na redução da violência", disse.

FOTO: MURIAN CESCA




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