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Obesidade infantil

20/03/2020 - Por Yara Lampert
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A obesidade já pode ser considerada o problema crônico mais prevalente entre as crianças do planeta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 41 milhões de crianças com menos de 5 anos estejam acima do peso - número que engloba tanto países desenvolvidos como aqueles em desenvolvimento.
Entre meninos e meninas de 5 a 9 anos, 33% já estão acima do peso e 15% são considerados obesos. Para falar sobre este tema tão importante para a saúde infantil, a nossa entrevista é com a médica Mônica de Castilhos, especializada em Endocrinologia e Medicina Interna.

Qual a principal causa da obesidade infantil?
A principal causa para este aumento na prevalência da obesidade é a mudança do estilo de vida propiciado pela vida moderna. Em primeiro lugar, diminuição de atividade física. Apesar de que o número de academias de ginástica, ciclovias, parques, etc., vêm aumentando, poucas são as pessoas que fazem exercícios regularmente (atividade física programada). Por outro lado, houve uma diminuição enorme das atividades do dia a dia (atividade física não programada): meios de transporte motorizados, escadas e esteiras rolantes, lavadoras de roupa e louça, controle remoto, telefones sem fio, etc. Em segundo lugar, a fartura de alimentos processados, industrializados, semiprontos, baratos, saborosos, em porções exageradas, ricos em energia e altamente calóricos. O objetivo de qualquer indústria é vender e a de alimentos não foge a esta regra. Açúcar, gorduras e sal, tornam os alimentos mais saborosos e por esta razão a quantidade destes ingredientes nos alimentos industrializados é cada vez maior. Além de eventuais danos para a saúde, estes alimentos contribuem muito para a obesidade.

Qual o papel da escola em oferecer e ser aliada dos pais para que a criança tenha uma alimentação e lanches saudáveis?
Estudo publicado em 2017 "O papel das famílias e da escola na formação de hábitos alimentares saudáveis de crianças escolares" trouxe-nos alguns dados. O reflexo das mudanças de padrão alimentar está afetando a população infantil. Estudos internacionais e nacionais apontam que nas escolas existe uma grande disponibilidade de alimentos de baixo valor nutricional sendo comercializados. No ambiente escolar, devem-se oferecer opções variadas e atrativas de alimentação saudável, e a proibição de produtos não saudáveis. Faz-se necessária a implementação de políticas públicas que objetivem uma alimentação saudável nas escolas. A alimentação no ambiente escolar deve ter função pedagógica, e por isso a escola deveria realizar ações conjuntas com a família e comunidade em geral. A transformação consciente das práticas alimentares não é um processo imediato, exigindo tempo e dedicação. A proibição da oferta de produtos não saudáveis no ambiente escolar e o oferecimento de opções variadas e atrativas ajudariam as crianças e os jovens a escolherem alimentos que contribuem para o crescimento e o desenvolvimento saudáveis e melhor qualidade de vida.

Algumas ações que podemos colocar em prática, no dia a dia para diminuir o risco da doença?
1. Estimular o aleitamento materno: Como forma exclusiva de alimentação até os seis meses de idade e, de maneira completar, até os dois anos. Criança que mama no peito tem menos risco de sofrer com sobrepeso e obesidade no futuro.
2. Bom exemplo: Os pais têm papel fundamental na luta contra os quilos extras, uma vez que são os responsáveis pelo que entra na despensa, por incentivar a prática de exercícios, e claro, por notar quando tem algo errado em relação ao peso do filho. Estimular uma alimentação saudável, preparar e oferecer alimentos frescos, além de também comer estes alimentos para sua saúde e dar o exemplo para os filhos;
3. Na medida certa: A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a amamentação exclusiva até os 6 meses, no entanto, quando o aleitamento não é possível, entram em cena as fórmulas, que contam com nutrientes semelhantes aos do leite materno. É aqui que cabe uma ressalva: se a indicação da fórmula por faixa etária e a dosagem forem respeitadas, haverá equilíbrio na alimentação. Um mau hábito que interfere na qualidade da alimentação infantil é encorpar mamadeiras com "engrossantes". Isso não ajuda em termos nutricionais e pode ser prejudicial.
4. Cuidado com o açúcar: A partir dos 6 meses, é comum o bebê começar a tomar suco de frutas. No entanto, é preciso ter cuidado. O Guia Alimentar para Crianças e Menores de 2 anos, do Ministério da Saúde, traz, em sua versão atualizada, a orientação de que não se deve oferecer essa bebida antes do primeiro ano. Isso porque um copo de suco (200 ml) contém uma vez e meia mais açúcar do que uma unidade da fruta. E se é preciso ficar atento até ao açúcar vindo das frutas, imagine em relação ao industrializado. Este não deve ser oferecido antes dos 2 anos.
5. Percepção dos alimentos e saciedade: Se a criança não quiser mais comer, não force. É ela que deve dar o sinal de que quer mais ou menos comida, temos que respeitar a saciedade deles. Facilitar o caminho para que a criança se familiarize com os alimentos, a variedade de sabores e texturas a que tem acesso pode ser um protetor contra a doença, porque ela passa a comer itens diferentes. 
6. Corpo em movimento: Uma vida saudável, que passa longe do risco de obesidade, precisa incluir atividade física. Por isso, pular corda, brincar de pega-pega, jogar bola e andar de bicicleta são apenas algumas das alternativas para que seu filho entre na brincadeira de mexer o corpo. Se a atividade física passar a fazer parte da rotina, a criança se sentirá motivada a se mexer mais.
7. Sono x quilos extras: Crianças que dormem menos do que o recomendado para a idade tendem a acumular quilos a mais. Entre 4 e 11 meses, de 12 a 15 horas de sono; de 1 a 2 anos, de 11 a 14 horas; dos 3 aos 5 anos, de 10 a 13 horas; e dos 6 aos 13, de 9 a 11 horas. Se a criança não tem esse tempo respeitado, vai ficar mais cansada. E o corpo tende a interpretar que precisa armazenar energia, piorando a queima calórica - daí o ganho de peso.
8. Emoções: Elas estão muito ligadas às oscilações de peso. Na criança, seus reflexos são bem importantes. Casos de estresse como luto, separação dos pais, troca de escola ou grandes perdas, como morte de alguém da família, de um amigo ou até de um animal de estimação, por exemplo, podem provocar a busca de conforto emocional na comida. E as que dão maior sensação de prazer são as mais calóricas. Dependendo do caso, pode ser necessário acompanhamento multidisciplinar com psicólogo, médico, nutricionista.

A médica Mônica de Castilhos atende no Centro Clínico Viva Vida, em Três de Maio



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