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Morando no exterior, três-maienses relatam a mudança na rotina

20/03/2020 - Por Jornal Semanal
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'Medidas do governo, como fechamento de escolas, proibição de aglomerações de pessoas e mensagens informativas fizeram com que a taxa de letalidade seja menor que 1%', afirma Caroline Costa, 28 anos, moradora em Gwangju, na Coreia do Sul. País é o quarto em número de casos no mundo
Embora esteja no quarto país com maior número de casos do coronavírus no mundo - Coreia do Sul - a publicitária três-maiense Caroline Costa, 28 anos, não está apreensiva com a situação. Atualmente, ela mora em Gwangju - sexta maior cidade da Coreia do Sul -, e os casos por lá são 16  casos confirmados (até ontem) para uma população de um milhão e meio de pessoas. 
Contudo, Carol, como é mais conhecida, relata que a presença do vírus alterou a rotina dos coreanos. "As escolas e universidades adiaram o início das aulas, que eram para ser no dia 3, para o dia 16 deste mês e as aulas serão no modo online até o dia 27. As aulas presenciais eram para recomeçar dia 30 de março e já foram adiadas para iniciar somente em abril. Eventos com aglomeração de pessoas foram cancelados, não só aqui, mas como nos países vizinhos." 
Segundo a publicitária - que pretende iniciar seu mestrado em Relações Públicas e Publicidade e Propaganda, na Sogang University em Seul em agosto -, "a saga do corona no país estava bem controlada, com menos de 30 casos confirmados em dois meses".  "Até uma senhora, que tinha retornado ao país e apresentou alguns sintomas, ir à um evento com muitas pessoas. Ela tinha sido aconselhada pelo governo para ficar em quarentena em casa, mas ela resolver ignorar o conselho e ir ao evento mesmo assim. A partir daí, os casos confirmados subiram cerca de 300 por dia."
Atualmente a Coreia do Sul tem mais de 8.500 casos, 92 mortos e mais de 1.900 pessoas recuperadas (dados de ontem, 19). É o país que mais testou suspeitos e tem a taxa de mortalidade mais baixa comparada ao número de infectados, foram quase 300 mil pessoas testadas para apenas 8.500 contaminados.
Embora a doença já tenha status de pandemia, ela disse ao Semanal que "está tudo bem por lá". "Apesar de ter muitos casos, o governo está ativamente guiando e informando as pessoas, enviando mensagens de alerta todos os dias, com dicas para evitar o vírus. 
O governo está desinfetando todas as áreas comuns como transportes públicos e prédios públicos onde muitas pessoas passam todos os dias. 

'Ruas sempre lotadas, estão praticamente vazias. Pessoas estão saindo de casa somente quando é necessário', diz Caroline Costa

"O governo está ativamente guiando e informando as pessoas, enviando mensagens de alerta todos os dias, com dicas para evitar o vírus. A prefeitura de cada cidade  envia mensagens dizendo quantos casos novos tiveram e onde essas pessoas passaram. Para que, caso alguém tiver entrado em contato com uma pessoa infectada, possa contatar as autoridades para ser testado", informa Caroline

Agilidade do governo é ponto positivo
Carol conta ainda que, desde o início, o governo coreano tratou o combate ao vírus de forma muito eficaz. Tanto que quando os casos começaram a crescer na China, as aulas que puderam ser canceladas, foram, já que a Coreia recebe diariamente em torno de 70 mil alunos chineses. "Eu e muitas outras pessoas estamos sem aulas desde o ano novo chinês".
Quanto a nova rotina, Carol diz que ela, como a grande maioria, só estão saindo de caso, quando necessário, mas se sente "segura" pelo modo que o governo coreano trata a doença. "Um ponto é que aqui não existe SUS, somente um plano de saúde nacional, mas não são todas as pessoas que conseguem pagar, então o governo está pagando para todos! As pessoas com resultados positivos e estão internadas não terão que pagar o hospital porque também é por conta do governo e de uma entidade que diariamente recebe milhares de doações para poder ajudar as pessoas de baixa renda e sem condições. Além disso, as pessoas em quarentena estão recebendo cestas básicas."
Outra medida adotada pelo governo coreano, são os postos de testes para o vírus como drive thru. "Ou seja, você vai lá de carro e um agente faz o teste sem você sair de dentro do carro. Também tem um telefone específico para quem tiver com suspeita do  vírus. Assim, a pessoa liga para o número disponibilizado pelo governo e um agente capacitado vai até a casa dela para fazer o teste para o vírus".
Em meio à essa turbulência, a publicitária mantém seus planos de futuro. "São dois anos de mestrado e depois eu planejo ficar mais alguns anos por aqui, se der certo, e talvez depois ir para a Europa. Eu vou aonde tiver trabalho e oportunidade para mim", conclui.

'A cada dia temos uma nova medida aplicada. Assusta a imprevisibilidade; não sabemos como vai ser o dia de amanhã', relata a enfermeira Grazielle Letícia Carpenedo Herrera, residente em Portugal. País contabilizava, até ontem, pela manhã, 785 casos e três mortes
'A cada dia temos uma nova medida aplicada. Assusta a imprevisibilidade; não sabemos como vai ser o dia de amanhã', relata a enfermeira Grazielle Letícia Carpenedo Herrera, residente em Portugal. País contabilizava, até ontem, pela manhã, 785 casos e três mortes

"Hoje temos de estabelecer regras para viver. Estamos sem poder aproveitar o que o país tem a oferecer. A população que aqui vive tem o hábito europeu de estar em bares, esplanadas, nos parques ao sol, nas praias, e isso hoje está inacessível. Realizar tarefas do cotidiano tormou-se estressante e cansativo. Meu horário no trabalho está alternado e reduzido, meu marido trabalha em uma multinacional que aderiu a quarentena espontânea até 31 de março. A cada dia temos uma nova medida aplicada, assusta a imprevisibilidade, não sabemos como vai ser o dia de amanhã.. Estar confinado em casa muda o nosso humor, a perspectiva de vida fica afetada e quanto mais acompanhamos as notícias mais assustador se torna o dia a dia", lamenta a enfermeira Grazielle Letícia Carpenedo Herrera, 40 anos, residente em Lisboa, Portugal, há dois anos.
Grazielle - que morou em Três de Maio por 20 anos, e estudou na Setrem -, é enfermeira há 17 anos. Atualmente, trabalha no IPO Lisboa - Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil. "Trabalho em um hospital que atende somente pacientes com câncer, são doentes com baixa imunidade e estamos tomando todas as medidas para protegê-los. Cancelamos as consultas presenciais de doentes não urgentes; os médicos estão realizando as consultas por telefone afim de evitar o deslocamento desses pacientes até o hospital. As cirurgias eletivas também foram canceladas e o administrativo está trabalhando na modalidade tele-trabalho, de casa ou em horário reduzido. As visitas também tiveram horário e número de visitantes alterados bem como a redução do número de acompanhantes nos tratamentos e consultas ao doente. Com estas medidas já percebemos uma diminuição elevada do trânsito de pessoas e diminuímos o risco de contaminação. Não temos até o momento casos de coronavírus no Instituto Português de Oncologia Lisboa."
A profissional da área de saúde orienta que não há meio termo com relação ao coronavírus: "ou fazemos todos a nossa parte ou não daremos conta de combater essa pandemia. Como se trata de um vírus que apresenta sintomas comuns como o da gripe, as pessoas têm a tendência de desprezar sintomas ou de achar que não são necessário tantos cuidados e é aí que mora o perigo", alerta a enfermeira.

'Ou fazemos a nossa parte ou não daremos conta de combater essa pandemia. Como se trata de um vírus que apresenta sintomas comuns como o da gripe, as pessoas têm a 
tendência de desprezar sintomas ou de achar que não são necessários tantos cuidados e é aí que mora o perigo", alerta Grazielle

'O Brasil está agindo bem, em se adiantar e estabelecer diversas medidas pra combater a propagação do vírus e, assim, diminuir o número de contaminados', avaliam Renata Mallmann Lopes e Rodrigo Scheffler, que residem em Dublin, na Irlanda
"A Irlanda (Dublin) está num momento de contenção da doença. Até o momento, em 18 de março, há registro de 366 casos e duas mortes. Porém, a cada dia, mais casos surgem e em todas as partes do país. Tudo começou no dia 9 de março, quando a cidade cancelou o desfile de St. Patricks (Dia de São Patrício) - padroeiro da Irlanda -, e o evento mais esperado e movimentado do ano. Foi uma decisão muito difícil, pois eram esperadas dezenas de milhares de pessoas para este feriado", relata a três-maiense Renata Mallmann Lopes, 31 anos, gerente de pessoas no McDonald's, que reside em Dublin, na Irlanda, com o noivo, Rodrigo Scheffler, 38 anos, chef de cozinha no Farmer Browns.
Renata conta que no último dia 12, o governo irlandês anunciou o fechamento das escolas e universidades até o dia 29 de março, seguido de recomendações de no máximo 100 pessoas em ambientes fechados, e ressaltando a importância de as pessoas permanecerem em casa o máximo possível. Também recomendou que, se possível, as empresas devem manter o trabalho em regime de home office.
Conforme o casal, no domingo, 15, os pubs entraram em acordo e fecharam todos os estabelecimentos na região turística do Temple Bar, muito frequentada por turistas e nativos, e, consequentemente, todos os restaurantes e bares da cidade foram obrigados a fechar. "A partir deste momento houve uma mudança muito grande na cidade, e muitos estabelecimentos fecharam por completo e por tempo indeterminado. O governo então lançou um programa para ajuda financeira aos funcionários das empresas fechadas em virtude do Covid-19, que durará por até seis semanas (aqui o salário normalmente é pago semanalmente)", conta a três-maiense.
Desde então, o casal revela que tem vivido um dia de cada vez. "Cada dia ocorre uma mudança diferente, algumas empresas fecharam as portas, outras apenas ajustaram seus horários, ou restringem o atendimento ao público. Por volta das 21h, todos os dias, o primeiro-ministro irlandês atualiza a população sobre o Covid-19 e o que acontecerá dali por diante. Há muita pressão da população para o fechamento das fronteiras e a instauração do lock down (quarentena oficial)", informa.

Rotina de todos está sendo afetada
"Houve muita mudança em nossa rotina. Eu (Renata), tive as aulas suspensas por duas semanas. No meu trabalho (continuo trabalhando), a presença dos funcionários é facultativa, podendo o funcionário optar por ficar em casa se não se sentir confortável em trabalhar. Todos os dias uma nova determinação ocorre, e mais mudanças são feitas. Hoje, o restaurante só atende para retirada dos pedidos, estão totalmente proibidos os acessos às mesas e aos banheiros. O álcool-gel entrou na rotina diária e a lavagem das mãos passou de intervalos de 30 minutos regulares aos 10 minutos atuais."
Já o restaurante em que o Rodrigo trabalha, fechou imediatamente após o anúncio no último domingo, ainda com clientes dentro. "Desde então, permanece fechado ao público e atende exclusivamente aos pedidos por aplicativos, sem contato algum com clientes e apenas com uma pessoa trabalhando por vez."
Logo após o anúncio do fechamento das escolas, houve muito pânico e incertezas. A população correu para os supermercados e farmácias, levando alguns ao fechamento no meio da tarde por falta de produtos. Segundo Renata, passados alguns dias, percebeu-se uma significativa diminuição na circulação de pessoas pela cidade, acentuada pelo fechamento dos pubs/restaurantes no último domingo. "As lojas recomendam o pagamento através de cartões e limitam a entrada de pessoas. Os supermercados tem um horário especial para idosos (9h às 11h todos os dias) e desenharam o distanciamento que as pessoas devem seguir quando estiverem nos caixas. Todos os atendentes passaram a utilizar luvas, inclusive os motoristas dos transportes públicos, estes por sinal, com brusca diminuição de uso pela população. Há poucas pessoas utilizando máscaras, pois as mesmas e álcool-gel estão em falta há quase um mês. Apesar disso, algumas pessoas ainda resistem às recomendações. É possível sentir o medo e aflição da maioria, perante a incerteza e insegurança, mas estamos como um todo tentando manter a calma e manter o distanciamento sempre que possível".
Conforme Rodrigo, são feitas rondas constantes pela polícia e por toda cidade, conferindo se os estabelecimentos estão seguindo as normas.
 "As missas, casamentos e velórios (restrito ao público, somente com a presença de familiares) foram proibidos e, em caso de óbito por Covid-19, os corpos devem ser queimados e enterrados sem participação dos familiares". 
Para o casal três-maiense, o Brasil está agindo bem, em se adiantar em tomar medidas pra combater o vírus e diminuir os riscos.

Uma das principais avenidas de Dublin, quase vazia em uma tarde de quarta-feira

"Cada dia ocorre uma mudança, algumas empresas  fecharam as portas outras ajustaram seus horários, ou restringem o atendimento ao público. Há muita pressão da população para o fechamento das fronteiras e a instauração do lock down (quarentena oficial em todo o país)"





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