Segunda-feira, 20 de maio de 2019
Ano XXX - Edição 1556
(55) 3535-1033
jsemanal@jsemanal.com.br
diagramacao@jsemanal.com.br

As irmãs centenárias

05/04/2019 - Por Jornal Semanal
Tweet Compartilhar
Irmãs centenárias são exemplos de longevidade
Olga Keller Beckert comemorou 100 anos em 25 de fevereiro; Hilda Keller Schmidt tem 102, completados em 10 de outubro passado
Elas são irmãs, centenárias e moram em Três de Maio. Hilda Keller Schmidt tem 102 anos, completados em 10 de outubro passado; Olga Keller Beckert comemorou seu centenário em 25 de fevereiro.
Com saúde debilitada, Hilda tem dificuldade para se locomover e está na cadeira de rodas. Mora junto com a filha Ingrid e o esposo dela, Vilson Bolzan (Caubi).
Já a dona Olga, não representa ter um século de vida: recebeu em sua casa, a reportagem do Semanal, quando contou de uma forma bem descontraída - com detalhes (boa memória e audição) - um pouco dos seus 100 anos de existência

Com grande festa, em 24 de fevereiro, Olga Keller Beckert (à direita) celebrou com a família o seu centenário. 
A irmã Hilda Keller Schmidt, 102 anos, esteve presente  

Casamento aos 29 anos e mãe de dois filhos
Olga nasceu em 25 de fevereiro de 1919, em Condor, que na época pertencia a cidade de Palmeira das Missões. Ela teve uma irmã gêmea, que faleceu com 28 dias de vida.
Da família Keller, de grande prole - 12 filhos, só restam duas irmãs: Olga e Hilda.
Olga casou aos 29 anos de idade, o que na época era considerado tardio, já que a maioria das moças casavam bem antes de completar 20 anos. 
O escolhido de Olga foi Willy Beckert. "Namoramos oito anos e casei virgem", diz Olga, que fez questão de contar esse 'detalhe', recordando que casar virgem, era quase que uma obrigação das moças na época. 
O casal fixou residência em Três de Maio e da união, nasceram dois filhos: Marino, hoje com 66 anos, e Marise, 61 anos. Anos mais tarde começaram a chegar os netos: Rafael, Micheli e Maurício (filhos de Marino); Alberto e Felipe (filhos de Marise). E tem ainda duas bisnetas: Lívia, filha de Felipe; e Milena, filha de Micheli.
Olga ficou viúva em 1993, quando o esposo Willy faleceu aos 76 anos. 

Apesar de nascer no início do século 19, Olga sempre ajudou o marido no orçamento doméstico 
A filha Marise conta que quando os pais casaram e vieram para Três de Maio, colocaram uma firma em sociedade (Beckert, Lauer e Matzembacher), que não prosperou e teve suas atividades encerradas. O pai era radiotécnico e na época não havia vaga de emprego para ele na sua área. 
Com dificuldades financeiras, Olga teve que se virar. "Fiz muito crochê e tricô pra vender. Até para parentes na Alemanha eu mandei meus trabalhos. Eu sustentava a casa, foi uma época bem difícil. Depois comecei a costurar; costurei muito calças 'slacks', pantalonas. Tinha semanas que eu costurava umas 30 calças", recorda.
Passado um tempo, o marido abriu uma oficina e voltou a trabalhar. Depois, passou a prestar serviços na Prefeitura, onde atuou até 1992. 
Olga recorda que o marido era muito ativo na sociedade: foi radioamador, participou da campanha emancipacionista de Três de Maio e foi da diretoria da Comunidade Evangélica São Paulo. Também comandou a instalação da telefonia rural no interior do município. 

Sofreu na pele a perseguição aos alemães na época do Nacionalismo
Entre os fatos que marcaram a vida de Olga, ela descreve uma situação perigosa que aconteceu, na época do Nacionalismo (durante a Ditadura), entre os anos de 1938 e 1945.
"Foi um tiro que levei; mas não me pegaram. Estava voltando do baile, tinha uns 19 anos, e fomos perseguidos pela polícia porque estávamos falando em alemão (o que era proibido na época). Como todos nós éramos alemães, a polícia efetuou uns disparos. Por sorte, o tiro acertou o vestido e meu casacão. Mas levei um susto grande", relembra. 

Olga observa que relação entre pais e filhos mudou muito nos últimos anos
Evangélica, ela diz que faz suas orações diárias e não faz nada diferente ou especial, para viver melhor. "O que muda é que tenho pensamento positivo, fé e bom humor. Quando eu morava sozinha eu dizia, Deus me cuida".
Sobre a opinião com relação à juventude de hoje em dia, ela lamenta que muitos valores tenham se perdido e "tudo estar diferente". "A gente nunca falava com o pai assim, ríspido; nunca respondia para os pais; agora os filhos querem mandar nos pais, não existe mais respeito, isto é muito triste", observa a idosa.
E, sobre política, ela cita que nas eleições de outubro passado fez questão de exercer o exercício de cidadania. "Tô viva. Vou votar na próxima eleição se Deus quiser, e o Marino vai comigo".
Já quanto o respeito aos idosos, ela garante que sempre é tratada com muito respeito e valorização, tanto no meio familiar como na sociedade. 
Em casa, ela gosta de cultivar suas plantas e tem a gata, Muni, companheira de todas as horas. 

Até um ano atrás, Olga morava sozinha. Para ela não existe um segredo para longevidade, tem que ser amigo de todos; ajudar o próximo e ser solidário
Fã dos programas de Sílvio Santos na televisão, a idosa também gosta dos noticiários e de ler jornal impresso. E tudo sem usar óculos. Olga tem por hábito dormir até um pouco mais tarde. E não abre mão do chimarrão, "adoro", diz.
Até abril do ano passado, ela morava sozinha e fazia tudo por conta própria. Mas, em uma queda, fraturou a perna e desde então, passou a conviver com cuidadoras, para os períodos diurno e noturno.
Sem perder o bom humor, ela diz que nunca se sente só. "Meus filhos e netos estão sempre por perto. Também recebo muita visita de amigas e conhecidos. Gosto de 'mexer' com todo mundo", brinca. 
Na alimentação, "come de tudo um pouco", dando preferência a frutas e verduras. A filha Marise afirma que a mãe não é enjoada, e que um dos poucos alimentos que não gosta é a carne de peixe. "Ela simplesmente não suporta, não come de jeito nenhum; mas gosta de pescar, e é muito boa pescadora", relata a filha.
Para fortalecer a musculatura, a idosa faz fisioterapia, o que lhe ajuda a manter a mobilidade. Apesar de ter plano de saúde, realiza somente consultas de rotina. "Os últimos exames que fizemos, estão melhores do que os anos anteriores", ressalta o filho Marino.
Mesmo com 100 anos, tanto na aparência física como na disposição, dona Olga não representa já ter vivido um centenário, e revela com muito orgulho que não toma nenhuma medicação controlada ou de uso contínuo, nem mesmo para pressão arterial. "De vez em quando, tomo um remedinho para dormir e uma vitaminas para fortalecer os ossos", diz toda orgulhosa e ressalta que nunca escondeu a idade, ao contrário da irmã Hilda."Minha irmã  que tem 102, não quer revelar a idade. Até fazer 100 ela dizia que tinha 68; depois que fez 100, foi pra 86, agora, quando fez 102, disse que tem 96 anos. Ela não quer ter 100", 
Olga também revela que as irmãs sempre tiveram gostos e hábitos diferentes "A Hilda sempre gostou de festa, de dançar e de tomar uma cervejinha; eu não, sempre fui mais 'certinha'", conta sorrindo.  
Com todos esses anos de vida, ela não reclama da vida e muito menos de se sentir cansada. "Depois da queda me dói um pouco o joelho", lembrando que aos 95 anos, fez cirurgia da catarata. "Deus me ajudou e não preciso mais usar óculos". 
Dona Olga diz que não tem segredo para longevidade, mas dá um conselho para que as pessoas vivam mais e melhor: "tem que ser amigo de todos; ajudar o próximo e ser solidário."

Até os 100 anos, dona Hilda frequentava o Grupo Alegria de Viver
Com frequência, Ingrid Bolzan ouve a mãe lhe questionar: "quando vou ficar boa para fazer o serviço de casa"? A pergunta não seria algo curioso se a mãe, dona Hilda Keller Schmidt não tivesse 102 anos de vida.
Com a saúde debilitada e falta de equilíbrio para se locomover (ela está na cadeira de rodas), a idosa tem lapsos de memória e, às vezes, dificuldade de se comunicar e em realizar algumas atividades.
A filha conta que até os 100 anos, a mãe frequentava o grupo de idosos Alegria de Viver, onde dançava e tomava uma cervejinha (hábito que ela mantém até hoje). "Ela sempre gostou de festa, de pessoas reunidas, músicas e um bom papo. Reconhece a voz do Vilson (Caubi - genro), quando ele está cantando e nas gravações que ele faz aqui em casa", comenta Ingrid.

Proporcionar bem estar a família e para as pessoas próximas
Hilda nasceu em 10 de outubro de 1916, em Condor. Casou-se aos 27 anos com Almiro Alípio Schmidt. O casal teve quatro filhos: Marli (75 anos), Olivo (72), Ingrid (69) e Adílio (67). Reside em Três de Maio há mais de 70 anos. E ficou viúva aos 63 anos de idade.
A idosa tem uma família numerosa: são onze netos - a neta mais velha tem 54 anos e a mais jovem 24 -; três bisnetos, de idades entre 38 a 19 anos; e dois tataranetos, um de onze e outra de 1 aninho.
Quando mais jovem, Hilda sempre trabalhava na organização da casa, cuidava dos filhos, tinha uma horta bem grande e muitos animais domésticos. A alimentação da família sempre veio da terra - ela mesmo plantava e colhia. "Era uma alimentação simples e natural. A gente comia comida de verdade".
Seu passatempo preferido era fazer crochê. "Ela e o pai também gostavam de viajar e dançar nos bailes", recorda a filha Ingrid.
Hilda sofre de labirintite há muitos anos, o que dificulta a locomoção mesmo dentro de casa. 

'Viver um dia de cada vez'
A idosa também frequentava a igreja evangélica e a Oase. E mantém o hábito de rezar todas as noites antes de dormir.
Quando perguntam para ela qual o segredo da longevidade, ela responde: "viver um dia de cada vez". E para os jovens, ela recomenda cuidar da saúde, trabalhar e respeitar todas as pessoas.
A filha diz que uma das lembranças mais fortes da infância, que tem da mãe, é a sua enorme generosidade e a grande preocupação de sempre ajudar os outros. "No Natal, ela comprava presentes para os filhos dos empregados que trabalhavam na olaria com meu pai. Também se preocupava com a saúde deles, até remédios ela comprava. E sempre que podia dava um prato de comida para uma senhora que morava perto da casa dela, que era muito carente", conta Ingrid, orgulhosa com as belas lições de vida que a mãe deixou. 
Com carinho, a filha se emociona quando fala da mãe, e tudo o que ela representa ao longo de mais de um século de vida. "Eu podia citar muitas coisas que a mãe fez ao longo da vida dela, enquanto ela tinha saúde. Agora, chegou a vez da família fazer por ela; dar toda atenção, amor e carinho que ela merece", conclui a filha.

Registro das irmãs Hilda e Olga, nos tempos da juventudade



Indicar a
um Amigo

Comentários

Deixe a sua opinião

Veja Também

08/02/2019   |
30/11/2018   |
16/11/2018   |
26/10/2018   |
21/09/2018   |




Todos os direitos reservados - Jornal Semanal - Três de Maio - RS