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'Vejo que as pessoas idosas estão com sentimento de inutilidade, de abandono, sem receber o mínimo valor e sem poder contribuir com toda a sua experiência e conhecimento'

19/10/2018 - Por Jornal Semanal
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Membro do Conselho Estadual da Pessoa Idosa, Valdir Medeiros avalia que 'predominam a individualidade e o consumismo desenfreado' e que 'as pessoas idosas estão esquecidas pelo que resta das famílias, pela comunidade e pela sociedade'. Quanto à atual aposentadoria, na visão dele, esta faixa da população 'se sente roubada e triste'

O membro do Conselho Estadual da Pessoa Idosa Valdir Medeiros destaca algumas diferenças que ele vê existirem entre envelhecer, por exemplo, nas décadas de 60, 70 e 80 e envelhecer nos dias atuais (o conselho é vinculado à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, Trabalho, Justiça e Direitos Humanos).
Naquela época, "o idoso era o chefe da família", avalia Valdir, 68 anos. "(O idoso) tinha todo o respeito como patriarca ou matriarca. Era a referência, o exemplo a ser seguido, tanto no lar, por seus filhos e netos, como na comunidade e na sociedade", acrescenta.
Hoje, Valdir não vê existir isso. Para ele, "as pessoas idosas estão esquecidas pelo que resta das famílias, pela comunidade e pela sociedade". "Vejo que estão com sentimento de inutilidade, de abandono, sem receber o mínimo valor e sem poder contribuir com toda a sua experiência e conhecimento", diz.
Pós-graduado em Ética e Filosofia Política, ele considera, no mês do idoso (a data transcorreu no dia 1º), em entrevista por e-mail ao Semanal, que o mercado de trabalho e a aposentadoria são outras das situações em que este cidadão é altamente prejudicado no contexto atual.
Valdir também faz parte da Federação Estadual dos Clubes de Terceira Idade (Fectirgs), da Frente Parlamentar em Defesa da Terceira Idade, na Assembleia Legislativa, e do Conselho Superior da ARHSerrana (Associação Serrana de Recursos Humanos), de Caxias do Sul, que não tem fins lucrativos e representa profissionais, acadêmicos e empresas que atuam na região serrana do Estado.
Ele esteve em Três de Maio no final de setembro, quando participou da programação da 9ª Semana Municipal do Idoso, promovida pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. Na Semana, Valdir palestrou sobre o tema "Os desafios de envelhecer no século 21 e o papel das políticas públicas". Confira, a seguir, a entrevista.

Quais são os maiores desafios de envelhecer no século 21? Há muitas situações que se tornam obstáculos para um envelhecimento com dignidade?
No início deste século, está ocorrendo um aumento significativo do número de pessoas idosas. Conforme o IBGE, a população do RS é de 11.329.605 e, desse total, 1.762.169 são pessoas com mais de 60 anos, o que corresponde a 15,5%. A previsão é de que em 2060 o número de pessoas idosas no país chegue a 25%, ou seja, de cada quatro brasileiros, um será idoso.
Esta nova realidade provoca grande impacto sobre as políticas públicas de assistência social, previdência social, saúde e, também, sobre as estruturas sociais. Traz consequências para os aspectos da vida individual, familiar e comunitária.
Um fator que afeta seriamente a dignidade do cidadão ao se aproximar da velhice é ser descartado do mercado de trabalho. Após os 50 anos de idade, aumenta a dificuldade de obter emprego, mesmo que a pessoa esteja no auge de sua capacidade profissional.
Mas o pior ainda vem depois. Ao se aposentar pelo INSS, o trabalhador já tem grandes perdas por conta da aplicação do fator previdenciário, que diminui o valor de sua aposentadoria.
Mesmo que o trabalhador tenha contribuído para a Previdência Social a vida inteira para ter uma aposentadoria digna, o governo diminui o valor dos benefícios sistematicamente, ano após ano.
Um aposentado que no ano 2000 recebia quatro salários mínimos hoje está recebendo um pouco menos de dois salários mínimos, ou seja, perdeu mais da metade do valor de seu benefício.
Isto é tão grave que atualmente 70% dos aposentados e pensionistas do INSS estão recebendo apenas um salário mínimo, R$ 954. Como esta pessoa, ao chegar aos 80, 90 anos, vai sobreviver com apenas isto?
O pior é que ela pagou para ter uma boa aposentadoria, o que lhe daria uma boa qualidade de vida e a segurança de ter dinheiro para atender a suas necessidades. Mas a realidade é que se sente roubada e triste. Assim não conseguirá ter um envelhecimento saudável.

Na sua visão, quais são as principais diferenças entre envelhecer neste século e envelhecer, por exemplo, nas décadas de 1960, 1970, 1980?
Nas décadas de 60, 70, 80, o idoso era o chefe da família. Tinha todo o respeito como patriarca ou matriarca. Era a referência, o exemplo a ser seguido, tanto no lar, por seus filhos e netos, como na comunidade e na sociedade. Tenho saudades de ouvir "a bênção, pai", "a bênção, mãe".
Neste novo milênio, temos os conflitos intergeracionais. Nós, os velhos, somos a geração Baby Boomers. Temos ao mesmo tempo a geração X, dos nascidos na década de 70, a geração Y, nascidos na década de 80, a geração Z, na década de 90, e, por último, os nativos digitais, nascidos a partir da virada do século.
Estamos também na época da revolução das comunicações, das redes sociais, das redes das drogas, da prostituição, corrupção e muitas outras transformações dos antigos valores éticos e morais.
Neste contexto, predominam a individualidade e o consumismo desenfreado em busca da felicidade. Assim, temos uns não enxergado os outros, mesmo dentro das famílias.
Estas também não são mais como aquelas. Desta forma, as pessoas idosas estão esquecidas pelo que resta das famílias, pela comunidade e pela sociedade. Vejo que estão com sentimento de inutilidade, de abandono, sem receber o mínimo valor e sem poder contribuir com toda a sua experiência e conhecimento.

Das atuais políticas públicas, quais o senhor destaca como grandes conquistas, revolucionárias na vida de um idoso em relação a como era antes?
Uma significativa conquista foi a aprovação do Estatuto do Idoso, em 2003. Outra foi a Política Nacional de Assistência Social.

E, para o senhor, quais políticas públicas ainda faltam para garantir os direitos dos idosos?
As políticas públicas estabelecidas em leis são ótimas. O que é necessário é fazê-las ocorrerem na prática, que sejam incluídas as demandas desta transformação demográfica nos programas de governo.
Mesmo os direitos conquistados pelo Estatuto do Idoso ainda são pouco conhecidos pelas pessoas idosas e, assim, não se verifica o cumprimento pleno do que está previsto.

Quem é o idoso do século 21?
De forma predominante, temos o idoso enfrentando muitas dificuldades, devido à nossa cultura de não valorizar e respeitar a dignidade. Tanto na sociedade como na família verificamos, em muitos casos, o abandono dos idosos, com altos índices de violência, inclusive. Isto provoca um sentimento de inutilidade.
A família tradicionalmente era a encarregada do cuidado de seus idosos. As mulheres foram e são as principais responsáveis pelo cuidado de seus membros idosos. Mais recentemente, estes papéis sofreram modificações, pois a mulher foi em busca de outras atividades no mercado de trabalho, basicamente para garantir sua realização, manutenção e sobrevivência.

E qual é o papel da família na garantia de um envelhecimento com dignidade para o idoso?
Conforme o artigo 3º do Estatuto do Idoso: "É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária".
Perguntamos: onde está o cumprimentos destas obrigações? E aqui se destaca que a lei diz que é a família a primeira responsável pelo cuidado de seus idosos.

Valdir, pós-graduado em Ética e Filosofia Política, considera que 'um fator que afeta seriamente a dignidade do cidadão ao se aproximar da velhice é ser descartado do mercado de trabalho' e que, hoje, 'temos o idoso enfrentando muitas dificuldades, devido à nossa cultura de não valorizar e respeitar a dignidade'

FOTO: CÍNTIA KLATT/PREFEITURA DE TRÊS DE MAIO/DIVULGAÇÃO



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