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VENCENDO O PRECONCEITO - 'Quando você se assume como trans, você se encontra. Sua alma se encontra com seu corpo'

09/03/2018 - Por Jornal Semanal
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'Diferente desde criança', três-maiense Carolina Lissarassa assumiu ser trans depois dos 20 anos. Atualmente, ela quebra barreiras e conquista seu espaço sendo a primeira transexual jogadora do vôlei de praia do Brasil

Em dezembro do ano passado, uma contratação entrou para a história do vôlei brasileiro. A goiana Tiffany Abreu tornou-se a primeira atleta transexual a atuar em uma partida válida da elite da modalidade no país. Autorizada pela comissão médica da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), ela defendeu o Bauru (SP) na reta final do turno da Superliga. A novidade, que a princípio teve boa aceitação, parece não agradar a todos. 
Caso semelhante ocorreu com a jogadora de vôlei de praia, Carolina Lissarassa, natural de Três de Maio. Aos 27 anos, ela é a primeira jogadora transexual a atuar nessa modalidade no Brasil, e recentemente, virou notícia ao ser vetada em um campeonato de vôlei de praia por não ter "toda a documentação exigida". Porém, no ano passado, ela havia jogado e conquistado o vice-campeonato neste mesmo torneio, com a mesma documentação. 
Carol segue os passos de Tiffany, quer buscar o reconhecimento na profissão e vencer os preconceitos que ainda existem na sociedade, com relação à orientação sexual.
E embora a discriminação que ainda sofre, comemora, as conquistas que aos poucos, ela e os transgêneros, estão tendo com relação à direitos e legislação. Isso porque, na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que transexuais e transgêneros têm o direito de alterar o nome social e o gênero no registro civil, mesmo que não tenham sido submetidos a cirurgia de mudança de sexo ou tratamento hormonal. Para fazer a mudança, a pessoa precisa apenas ir ao cartório e declarar seu novo nome. Ou seja, não será preciso entrar na justiça para pedir a alteração. A regra vale para transexuais de todo o país.

A transição de gênero 
Aos 18 anos, Carol saiu de Três de Maio para em Florianópolis (SC). A família - pais, irmão e irmã -,  ainda reside em Três de Maio.
Ela conta que, desde a infância se sentia e era diferente. "Lembro da escola. Minhas amigas gostavam dos amiguinhos. Meus colegas gostavam das meninas. E eu gostava dos meninos; de brincar com roupas de menina, colocar salto alto. Então, quem é 'desse jeito', 'diferente', sempre dá sinais, desde criança", acredita. 
Quando deixou Três de Maio, ela se assumiu como homossexual (gay). Mas depois, entre 22 e 23 anos, percebeu que na verdade era transexual. "O gay se veste de homem. Sempre me vi e me vejo como mulher. Durmo e acordo feminina. Sou mulher", explica.
Para ela, assumir sua orientação sexual foi uma realização, uma libertação. "Sempre tive vontade de usar roupa feminina, ter namorado. E então, quando você se assume como trans, você se encontra. Sua alma se encontra com seu corpo", ressalta.
No início, a decisão de Carol não foi bem aceita pela família. "Na verdade, quando era gay, estava tudo tranquilo. Quando falei que viraria transexual, meus pais ficaram contra, toda família praticamente, somente minha irmã e meu irmão ficaram ao meu lado. Da parte do meu pai tive mais resistência. Ele não deixava nem eu visitar minha mãe e irmãos. Enquanto eu fosse 'dessa forma', ele dizia que eu não era mais o filho dele", recorda.
A aceitação dos pais levou cerca de um ano. Mas, felizmente, a questão foi superada. "Hoje tenho uma vida normal ao lado da minha família, venho visitá-los, ficar ao lado deles".
Carol reside atualmente em Chapecó, Santa Catarina, onde é cabeleireira. No vôlei de praia, é jogadora há quatro anos, atuando na categoria feminina, pois fez tratamento hormonal e tem seus níveis de testosterona monitorados regularmente, abaixo de 10 nanomols por litro de sangue. Atualmente, Carol tem 0,7. Hoje, está de acordo com as determinações do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV). 

Paixão pelo vôlei começou na adolescência 
A paixão pelo voleibol teve início na adolescência, por volta dos 12 anos. Naquela época, o talento já era percebido e ela ganhou uma bolsa de estudos na Setrem, para jogar vôlei de quadra. Ela não chegou a concluir o terceiro ano do Ensino Médio e por um tempo, não seguiu carreira no voleibol.
Quando foi embora para Florianópolis, seguiu praticando o esporte, de forma amadora. Logo ao fazer sua transição (de orientação sexual) ela voltou a jogar, inclusive em um time em Horizontina.
Em um torneio em Porto Alegre, um amigo a convidou para treinar vôlei de praia. "Fui conhecer e jogar. Logo em seguida, tinha um  circuito de Porto Alegre. Joguei e, tecnicamente, não era muito boa, porque quadra e areia são diferentes. Na quadra eram 6, na areia, duas. Mas mesmo assim, ganhei o campeonato. Então percebi que tinha potencial. E desde então, venho jogando vôlei de praia. E está repercutindo e dando frutos".
Em novembro do ano passado, ela realizou o sonho e teve a honra de jogar com Juliana, octacampeã mundial e medalhista olímpica no vôlei de praia. E depois disso, viu sua vida mudar, para melhor. "Juliana é uma pessoa muito especial na minha vida. Com ela pude ter outra visão do voleibol".
Carol joga vôlei de forma independente. E sempre tenta competir em torneios com premiação que lhe garantam retorno financeiro. "Tenho gastos com viagem, tudo mais, então tem que buscar dentro do vôlei, uma forma de ganhar renda. Tento buscar os campeonatos profissionais pela questão dos valores".

Participação no Gay Games Paris 2018
A atleta já está inscrita em outros dois campeonatos, em Porto Alegre, neste mês de março. Mas, seu grande desafio está marcado para agosto, em Paris. "Fui convocada pela Seleção Brasileira para disputar e representar o Brasil no mundial de vôlei de praia que vai ocorrer na França, o Gay Games Paris 2018". E ainda, posteriormente, virá o Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, do Banco do Brasil. "Então é um passo de cada vez e, devagar, eu chego lá".

'Felizes daqueles que se encontram e não se escondem. As pessoas têm que assumir o que são e os outros devem respeitar' 
Falando de preconceito, a três-maiense revela que ele existe, e que ela enfrenta quase que diariamente. "Se uma mulher sair de casa, com cara lavada, chinelo havaiana e cabelo bagunçado, ninguém fala ou repara. Agora, se uma trans sair desse jeito, todo mundo vai notar. Porque a gente é muito mais visada. Porque, para a sociedade, somos diferentes".
Contudo, ela avalia que em Três de Maio é "tranquilo". "Existem piadinhas, mas não dou ênfase para tudo que acontece. Quando eu virei trans eu já sabia que iria enfrentar muito preconceito, mas lido muito bem com isso".
Para ela, ninguém tem o direito de humilhar o próximo por suas escolhas ou orientação sexual. "Cada um é especial na sua forma de ser. Respeito temos que ter com todos, independente de sexo, raça, cor ou religião", compara.
Carol ressalta que os transexuais existem para ensinar as outras pessoas. "Não pedimos para ser assim; diferentes. Se eu tivesse a opção de quando criança, ser homem, mulher, gay, travesti, eu ia escolher ser normal, igual a todo mundo. Queria ter uma vida igual a dos outros. Mas sou  diferente,  da minha forma e do meu jeito de ser. A gente nasce assim, dessa forma. Uns se encontram, outros não. Felizes daqueles que se encontram e não se escondem. As pessoas têm que assumir o que são e os outros devem respeitar".
A atleta trans deixa um recado "aos preconceituosos de plantão". "Para as pessoas que tentam nos denegrir e rebaixar eu digo: tentem me ganhar no vôlei, na bola, no braço, dentro de quadra; mas não tentem me ganhar com o preconceito. Porque não vão conseguir. Nasci com o talento de jogar vôlei. E vim para fazer história. E já estou fazendo. E não vou parar", conclui.

Aos preconceituosos de plantão: 'Tentem me ganhar no vôlei, na bola, no braço, dentro de quadra; mas não tentem me ganhar com o preconceito. Porque não vão conseguir', afirma a jogadora

Carol e Juliana (à direita), que é medalhista olímpica e octacampeã mundial de vôlei de praia


FOTOS: ARQUIVO PESSOAL




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